Por que quando a injustiça chega na Casa Grande a Senzala chora?

A condução coercitiva do ex-presidente Lula para depor inflamou as notícias e as redes sociais, gerando uma escalada de violência que chegou às ruas. A TV agora só fala em Lula, os jornais só falam em Lula e as redes sociais só falam em Lula. Todos polarizados, buscando seguir uma lógica maniqueísta de lados opostos, do bem contra o mal, mas sem nenhum deles se professando como “mal”.

por* KaNNoN e Sunniewalker

Instrumento usado e abusado pelo juiz Sérgio Moro, a condução coercitiva é uma intervenção violenta do Estado que restringe, temporariamente, a liberdade individual. É uma medida extrema que só se justifica quando uma pessoa se recusa a comparecer para prestar depoimento para o qual fora regularmente intimada. Isto deveria valer para qualquer um de nós – qualquer um: ninguém está livre de ter um policial ou juiz obcecado no seu encalço.

A toda evidência, não se encontra justificativa razoável para sua utilização tanto hoje, como também não havia durante os levantes de 2013-14, quando esse recurso foi utilizado incessantemente e de forma abusiva contra manifestantes, especialmente no Rio, sem que muitos que hoje exalam indignação ou falam em golpe tenham demonstrado a menor solidariedade – inclusive o atingido na sexta feira passada.

Mas não importa. O que importa é ter a clareza de que, quando se aceita, instiga ou aplaude a truculência do Estado que invade a casa de alguém em horas mortas, para arrancá-lo de lá sem necessidade e sob guarda de 200 agentes públicos, abre-se uma avenida onde qualquer um poderá viver sua via crucis. É o que muitos de nós alertamos desde 2013, mas em geral as pessoas só se comovem com arbitrariedades cometidas contra aqueles com quem se identificam, e talvez finalmente entendam agora.

Dificilmente é levantada a bandeira da “ameaça ao estado democrático de direito” quando o pobre tem sua casa invadida, quando há provas plantadas ou flagrante forjado; tampouco quando adolescentes são agredidos, ainda que na condição de alunos; quando o corpo de um pedreiro desaparece; ou uma dona de casa é arrastada de carro pelas ruas próximas de sua casa – mas são nesses momentos em que o Estado de Direito é efetivamente violado. Nem se fala em “golpe” quando protestos constituídos de pessoas comuns são envelopados por forças policiais, quando o uso de projéteis coloca transeuntes em risco e pessoas são detidas sem embasamento legal, embora essa seja uma forma velada de dizer ao povo quando ele pode ou não pode exercer sua cidadania.

Já quando uma fração disso ocorre com o messias petista, um autodenominado herói do povo, parece haver um problema. Essa indignação seletiva não representa um sinal de avanço da nossa democracia, mas na verdade é apenas um retorno ao frequente populismo com que sempre convivemos na América Latina.

Como diria Bertolt Brecht, “Tristes os povos que precisam de heróis” – defendia que, mais do que combater os mitos, o importante seria evitar o surgimento destes.

O PT se vendeu à influência de lógicas escusas de mercado, à bancada ruralista, à bancada da bala e à bancada teocrática, foi conivente com os abusos durante e pós jornadas de junho de 2013. Se rendeu à especulação de Eike Batista e o rastro de destruição por onde ele passou, como o município de Açu. Colaborou ou se omitiu em crimes no campo, nas favelas e nas florestas, ao mesmo tempo em que dava as costas a suas bandeiras históricas e sua militância de base. Tudo isso, e muito mais, foi silenciado pelos petistas e congêneres. Agora a quem pretendem gritar por socorro? Alimentaram o monstro que os devora, e pode devorar todos nós.

Pensem na violência subjetiva e simbólica que é a sanção de um projeto de lei antiterrorismo por Dilma, que ostenta orgulhosamente (quando conveniente) uma trajetória de lutas, planejado para garantir a desmobilização de uma oposição à esquerda – afinal, os “coxinhas” nunca levaram as porradas que a gente levou. Sob qual argumento deveríamos nós, os “terroristas”, ir às ruas para defender Lula ou o PT?

*Este texto de opinião não reflete necessariamente posição oficial do Partido Pirata. Foi construído colaborativamente por nós, que subscrevemos, incluindo recortes colhidos em redes sociais que expressam também nossa visão deste assunto.

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