Jogos de Guerra e a dívida da cyber-segurança com os hackers de hollywood

Filmes raramente influenciam políticas públicas, mas as políticas de Washington sobre ciberataques, vigilância computadorizada e a possibilidade de Cyber-Guerras foram diretamente influenciadas pelo sucesso de 1983 “Jogos de Guerra”.

O filme – estrelando Matthew Broderick como um adolescente sabido em tecnologia que se mete em altas confusões quando hackeia acidentalmente o computador do Comando de Defesa Aerospacial Norte-Americano (NORAD) e quase começa a Terceira Guerra Mundial – lançado no país todo no dia 3 de junho. Na noite seguinte, o Presidente Ronald Reagan o assistiu em Camp David. E isso é onde essa estranha história – escrita à partir de entrevistas com participantes e documentos da Biblioteca Reagan – começa.

Na quarta-feira seguinte, de volta à Casa Branca, Reagan encontrou com seu conselheiros de segurança nacional e 16 membros do Congresso para discutir as vindouras discussões sobre desarmamento com os Russos. Mas ele ainda parecia focado no filme.

Em um determinado momento, ele deixou de lado a pauta da reunião e perguntou se alguém tinha visto o filme. Ninguém tinha, então ele descreveu a trama em detalhes. Alguns dos especialistas legais da sala olharam em volta com sorrisos disfarçados ou sobrancelhas levantadas. Três meses antes, Reagan tinha feito o seu discurso sobre “Star Wars”, implorando a cientistas para construir armas lasers que pudessem derrubar os misseis soviéticos em pleno espaço orbital.

A ideia foi amplamente descartada como loucura. O que aquele distinto senhor estava bolando agora?

Depois de terminar sua sinopse, Reagan se voltou ao general John W. Vessey Jr, o presidente da Mesa de Chefes de Estado, e perguntou “Alguma coisa assim poderia realmente acontecer?” Alguém poderia invadir nossos computadores mais protegidos? General Vesey disse que iria checar isso.

Uma semana depois, o General voltou para a Casa Branca com sua resposta. “Jogos de Guerra”, na verdade, não estava tão distante da realidade. “Sr Presidente”, disse ele, “o problema é muito pior do que você pensa”.

A pergunta de Reagan disparou uma série de memorando entre agências e estudos que culminaram, 15 meses depois, nele assinando uma decisão diretiva secreta de segurança, NSDD-145, entitulada “Política Nacional sobre Telecomunicações e Segurança de Sistema de Informação Automatizados” (National Policy on Telecommunications and Automated Information Systems Security).

Os primeiros laptops tinham acabado de chegar ao mercado e provedores de Internet não passariam a existir por mais alguns anos. Ainda assim, NSDD-145 avisou que essas novas máquinas – que agências do governo e indústrias de tecnologia tinham começado a comprar em um ritmo rápido – estariam “altamente suscetíveis a intercepções”. Poderes estrangeiros hostis já estariam hackeando essas máquinas “extensivamente”; “grupos terroristas e elementos criminosos” teriam também a capacidade de fazer a mesma coisa.

O General foi capaz de responder a pergunta do presidente tão rápido – e as assessoras de segurança nacional puderam compor o NSDD-145 em uma linguagem tão detalhada – porque, arraigado dentro da burocracia, um pequeno grupo de cientistas e espiões estavam preocupados sobre essa ameça iminente por mais de uma década.

Em 1960, a Agência de Projetos de Pesquisas Avançadas do Departamento de Defesa assumiu um programa chamado ARPAnet. A ideia, precursora para a internet, foi deixar os laboratórios do Pentágono e as empresas terceirizadas compartilharem dados e pesquisa em uma mesma rede.

Bem antes do lançamento do programa, em Abril de 1967, um engenheiro chamado Willis Ware escreveu um artigo chamado “Segurança e Privacidade em Sistemas Computacionais”. Pioneiro em computadores desde a década de 40, Mr Ware encabeçou o departamento de Ciência da Computação na Corporação RAND, o think tank de Santa Monica, Calif.

Em seu artigo, ele louvou os objetivos da ARPAnet mas explicou algum de seus riscos do que ele chamou de redes “on-line”. Enquanto os computadores estavam em câmaras isoladas, segurança não seria um problema. Mas uma vez que múltiplos usuários pudessem ganhar acesso aos dados de localizações não protegidas, qualquer um com certas habilidades poderia hackear dentro da rede – e, uma vez lá dentro, vagariam à vontade, coletando arquivos comuns e secretos da mesma forma. Os avisos de sr. Ware não foram ouvidos por décadas, apesar dele ter permanecido como um consultor frequente. (Ele morreu em 2013, com 93 anos).

Em 1980, Lawrence Lasker e Walter Parkes, ex-colegas de classe em Yale quando tinham vinte e tantos anos, estavam escrevendo o roteiro para “Jogos de Guerra” (Ele seria indicado para um Oscar, mas acabaria perdendo para “A Força do Carinho” de Horton Foote). Um amigo hacker havia contado a eles sobre discagem-demoníaca (“demon-dialing”), no qual um modem de telefone iria procurar todos os outros modens de telefone ao discar automaticamente para cada número em um código de área e deixando eles discarem duas vezes antes de proceder para o próximo número. Se um modem respondesse ele iria apitar, o processo iria gravar o número para que o hacker pudesse discar mais tarde. No roteiro, essa era a maneira como o herói iria entrar dentro do NORAD. Mas eles se perguntavam se isso era plausível. Os militares não teriam fechado seus telefones para linhas de telefone públicas?

O sr. Lasker vivia em Santa Monica, a alguns quarteirões do RAND e encontrar alguém por lá seria bastante vantajoso. Ele chamou o escritório de assuntos públicos, que o colocaram em contato com o sr. Ware, que convidou a dupla para seu escritório.

Eles foram ao homem certo. Não apenas ele já sabia há muito tempo sobre essa vulnerabilidade das redes de computadores, mas ele também havia ajudado a desenvolver o software para o verdadeiro computador da NORAD. E o sr. Ware se mostrou incrivelmente aberto, até mesmo amigável. Ouvindo as perguntas dos escritores, ele os aliviou de suas preocupações. Sim, ele contou a eles, o computador supostamente deveria estar fechado, mas alguns oficiais queriam trabalhar de casa nos finais de semana, então eles deixavam o acesso aberto. Qualquer um poderia entrar, se o número certo fosse discado.

“O único computador que é completamente seguro”, o sr. Ware contou a eles com um sorriso malicioso, “É um computador que ninguém pode usar”.

Ware deu aos escritores a confiança para ir em frente com o seu projeto. É adequado que o cenário de “Jogos de Guerra” – que atiçou a curiosidade de Reagan e levou à primeira política nacional de reduzir vulnerabilidades de computadores – tem uma dívida crucial ao homem que os havia avisado primeiro que eles estavam vulneráveis.

Enquanto isso, a diretiva de Reagan atingiu um beco sem saída. Ele colocou a Agência de Segurança Nacional (NSA) como responsável de tornar seguros todos as redes e servidores de computadores da nação – seja de governos, negócios ou pessoais. A agência tinha sido estabelecida em 1952 para interceptar comunicações estrangeiras, era expressamente proibida de espionar Americanos. O deputado Jack Brooks, um democrata texano e ativo advogado das liberdades civis, era não deixar os decretos presidenciais secretos borrarem essa distinção. Ele patrocinou e passou uma lei passando por cima dessa diretriz.

O principal autor da diretiva NSDD-145 de Reagan foi Donald Latham, o conselheiro do Pentagono para a Agência de Segurança Nacional – e ele mesmo um ex analista da NSA. O General Vessey tinha definido ele para responder a pergunta de Reagan sobre “Jogos de Guerra” (Alguma coisa como isso poderia realmente acontecer?). O sr. Latham deu sua resposta (A situação é muito pior do que eles pensavam) porque ele sabia que a NSA já estava há muito tempo hackeando dentro dos sistemas de comunicação da União Soviética e da China – e o que nós estávamos fazendo com eles, eles poderiam fazer conosco algum dia.

O Sr Ware esteve entre os primeiros a desenvolver essa conclusão. O sr. Latham sabia sobre isso há muito tempo porque os dois eram amigos de longa data, o sr. Ware serviu como parte do comitê de aconselhamento científico da NSA. A NSA era o ramo mais secreto da comunidade de Inteligência estadunidense. A primeira exibição de “jogos de Guerra” para Reagan trouxe preocupações para Mr Ware sobre os círculos de desenvolvimento de políticas pela primeira vez. E isso acendeu a primeira controvérsia pública sobre tensões entre segurança e privacidade na internet, assim como o primeiro conflito público de poder sobre o assunto entre a NSA e o Congresso – um debate e um conflito que persistem até hoje.

artigo original aqui.


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