Grooveshark, spotify, compartilhamento de música e o respeito ao artista

As gravadoras atacam sistematicamente qualquer alternativa de distribuição de música que ameace seu monopólio com a desculpa de estar protegendo artistas. Mas quem protegerá artistas das gravadoras?

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Descanse em paz, tubarão, você lutou a boa luta.
Baseado em matéria do techdirt.com

Em tempos de aposentadoria do grooveshark, é bom refletir sobre os conflitos de interesses que moldam os hábitos de consumo, comportamento e cultura da sociedade. O grooveshark era um dos mais populares serviços de transmissão online de músicas. Criado em 2006 por três estudantes universitários, foi o primeiro site de compartilhamento de música neste formato de streaming e arrecadava basicamente com publicidade, além do serviço de assinatura por US$3 ao mês, que permitia o uso do aplicativo no celular e armazenamento offline.

Por operar no limite da legalidade e a pirataria, já que permitia que seus usuários contribuíssem pro catálogo musical, o grooveshark acabou enfrentando uma longa disputa judicial que culminou no fim de suas atividades na última quinta-feira, dia 30 de abril. O encerramento foi formalizado com um “deface” na página, que substituiu o aplicativo e o catálogo por uma carta de desculpas, na qual reconhecem terem desrespeitado direitos autorais. Com o desativamento, entrega do domínio e de toda a propriedade intelectual envolvida na plataforma, os responsáveis pelo serviço se livraram de um processo milionário movido pelo lobby das gravadoras. No momento do fechamento, o site possuía aproximadamente 30 milhões de usuários cadastrados que, ao tentarem acessar o grooveshark, serão orientados pela “carta de desculpas” a buscar outros serviços mais, digamos, “honestos”, como o spotify.

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Sim, as grandes gravadoras estão ficando com quase todo o dinheiro que recebem do spotify, em vez de repassarem aos artistas” – techdirt.com

O grande problema dessa história toda é que o spotify não é exatamente o melhor modelo de respeito ao artista. O velho argumento de que a pirataria fará o artista passar fome não cola quando o serviço oficial, licenciado e timbrado pelas gravadoras já cumpre essa tarefa. No final do ano passado, um pequeno grupo de músicos barulhentos decidiu que o novo alvo de sua raiva, depois de atacar cyberlockers, buscadores e sites de torrent, devem ser os serviços de streaming legais. Segundo esses músicos, os pagamentos que recebem por esses serviços são muito baixos.

O CEO da agência Merlin, que advoga pelos direitos digitais de uma tonelada de gravadoras independentes, disse para o techdirt: “o verdadeiro problema era que o spotify pagou muito dinheiro para gravadoras e foram elas que não repassaram esse dinheiro para os artistas”. No entanto, em vez de culpar os seus próprios rótulos (ou os seus próprios contratos), esses artistas atacaram o spotify e outros serviços de streaming. Há pouco tempo esse problema foi comentado até por Bono Vox, que assinalou o problema da falta de transparência das gravadoras. Há uma boa razão para essa falta de transparência: elas estão ficando com a maior parte do dinheiro.

Um relatório elaborado pela Ernst & Young com gravadoras do grupo comercial francês SNEP, publicado no site Music Business Worldwide, detalha para onde vai o dinheiro proveniente dos serviços de streaming deezer e spotify. Alerta de spoiler: não é para os artistas. Aqui está a distribuição da cota global dos 9,99 euros que as pessoas pagam por uma conta premium nesses serviços:

E129.tmpDistribuição do valor da assinatura: quase metade é pra gravadora.


Portanto, as gravadoras estão abocanhando a maior parte, compositores/editores dividem 10% e os artistas, os autores genuínos, recebem menos de 7%. E, se você olhar para o pagamento líquido, descontadas taxas e custos, a situação é pior, as gravadoras ficam com quase 75%, deixando os verdadeiros artistas e compositores com as sobras.

É claro que, uma vez que esta pesquisa foi paga pelo grupo SNEP, que representa as grandes gravadoras, eles tentam passar a ideia de que isso não só é perfeitamente justo, mas também uma coisa boa para os próprios artistas. Como pode ser? O relatório afirma que 95% do dinheiro que vai para as gravadoras vai para cobrir todas as “despesas” que elas, pobres, pobres, gravadoras, têm de suportar para gravar e… hum… subir (?) a música propriamente dita. Claro, no passado, pode ter sido razoável para a indústria fonográfica assumir grandes custos para distribuição – mas isso era quando os custos significavam toneladas de plástico e vinil para fabricação de álbuns e, em seguida, enviá-los para milhares de lojas de discos em todo o mundo. Neste caso, não há fabricação e distribuição, é um botão de “upload”. Claro, existem alguns custos de marketing, mas os números são inconsistentes – especialmente para muitos dos artistas em quem as gravadoras investem pouco ou nada.

Então, ao invés de culpar a tecnologia de streaming, talvez os músicos deveriam estar discutindo a relação com as gravadoras… E esse é o cerne da questão, é a forma como essa indústria se estabeleceu no papel de intermediária que está obsoleta. A tecnologia e a eficiência é que devem se adaptar a cultura e a sociedade, para nos servir, facilitando relações e transações, e nunca o contrário.

Aqueles que não entendem, ou tem preguiça de adaptar-se ao comportamento natural das pessoas e a novas realidades tecnológicas, cedo ou tarde acabam pagando por suas decisões erradas. Porém, a indústria fonográfica tem poder demais para conseguir preservar seu conservadorismo, criminalizando a cultura do compartilhamento e perseguindo dinâmicas e ferramentas que ameacem seus monopólios. Quem acaba pagando o pato são os mais fracos, tanto os consumidores, como também os artistas.


Kommentare

2 comments for Grooveshark, spotify, compartilhamento de música e o respeito ao artista

  1. Leandro commented at

    Continuo aguardando o desfecho das gravadoras previsto pelo NOFX:
    “All dinosaurs will die”

  2. Glaucio commented at

    Ninguém manda o artista assinar com a gravadora… Decisão única e exclusiva dele… Muitos não assinam com selo nenhum e vendem do mesmo jeito…

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