Sala de cinema da AMC chama “agentes federais” para prender um usuário do Google Glass

Um leitor do Gadgeteer de longa data entrou em contato comigo através do Google Hangouts para contar que tinha uma história a qual achou que eu estaria interessada em ler. Então ele me encaminhou um longo email com a história de um grande amigo seu. Foi uma história tão surpreendente que eu lhe perguntei se tinha permissão para postá-la aqui no The Gadgeteer. Acabei me comunicando com o autor da história e a postei aqui para que todos leiam.

  • Eu estou usando o Google Glass há 2 meses, e mais ou menos 2 semanas atrás eu recebi uma prescrição para as lentes dos óculos. Portanto, nas últimas duas semanas, eu venho usando o Google Glass o tempo todo. Não tinha nenhuma história para contar a respeito até ontem (18/01/2014).
  • Eu fui à AMC (Shopping Easton, Columbus, Ohio) para assistir a um filme com minha esposa (que não usa Google Glass). Este é o cinema ao qual vamos todas as semanas, então provavelmente era a terceira vez que eu entrei usando Google Glass, e os funcionários da AMC (o picotador de tíquetes na entrada, a garota no estande) já haviam me perguntado sobre os óculos no passado e eu lhes contei sobre como eles são incríveis em cada uma das ocasiões.
  • Como eu não quero os óculos me distraindo durante o filme, eu os desligo (mas, já que minhas lentes de prescrição estão na armação, eu ainda os uso). Depois de cerca de uma hora de filme (Jack Ryan: Shadow Recruit), um cara chega perto de minha cadeira, empurra um crachá que tinha algum tipo de escudo nele, arranca o Google Glass do meu rosto e diz: “me acompanhe para o lado de fora imediatamente”. Foi bastante constrangedor e havia cerca de 5 a 10 policiais e seguranças do shopping fora do cinema. Dado que eu não peguei seu nome no escuro do cinema, eu pedi para ver seu crachá novamente, perguntei qual era o problema e pedi meus óculos de volta. A resposta foi “você está vendo todos esses policiais, então sabe que somos legítimos, estamos com o ‘serviço federal’ e você foi pego gravando o filme ilegalmente”.
  • Eu fiquei surpreso com isso e como eu obviamente estava apenas curtindo a noite de sábado com minha esposa e não gravando qualquer coisa legal ou ilegalmente, eu tentei explicar que isso era um mal-entendido. Eu tentei explicar que ele estava segurando um equipamento de hardware razoavelmente caro que me custou 1500 dólares pelo Google Glass e mais 600 dólares pelas lentes receitadas. A resposta foi ser revistado e ter mais coisas tiradas de mim (especificamente meu telefone pessoal, meu telefone de trabalho – ambos os quais foram desligados, e minha carteira). Após 20 a 30 minutos constrangedores do lado de fora do cinema, eu e minha esposa fomos conduzidos a duas salas separadas no escritório “administrativo” do Shopping Easton, onde o cara com o crachá se apresentou e me mostrou uma identificação diferente. Sua parceira também se apresentou e me mostrou um crachá de aparência semelhante. Nesse momento, eu já estava perturbado demais para lembrar seus nomes (para falar a verdade, mesmo agora, 30 horas mais tarde, eu ainda tremo quando tento relembrar os fatos).
  • O que se seguiu foi mais de uma hora de “federais” me dizendo que eu não estava preso, e que aquilo se tratava de uma “entrevista voluntária”, mas se eu escolhesse não cooperar coisas ruins poderiam acontecer comigo (a lei permite às autoridades ameaçar as pessoas dessa forma?). Eu dizia para eles que os óculos possuíam uma porta USB e eu não apenas os permiti, na verdade insisti que eles a conectassem e vissem que não havia nada lá além de fotos pessoais com minha esposa e meu cachorro. Eu também insisti que eles olhassem meu telefone e esclarecessem as coisas, mas eles queriam conversar antes. Eles queriam saber quem sou eu, onde eu residia, onde eu trabalhava, quanto eu recebia, quantos computadores eu possuía em casa, por que eu estava gravando o filme, para quem eu iria dar a gravação, por que eu simplesmente não entregava o meu superior, afinal de contas, não era em mim que eles estavam interessados. De novo, de novo e de novo.
  • Eu continuava dizendo a eles que eu não estava gravando filme algum – meu Glass estava desligado, e eles insistiam que haviam visto ele ligado. Eu lhes disse que haveria uma pequena luz saindo da telinha se os óculos estivessem ligados, e eu podia lhes mostrar isso, mas eles insistiam que eu não poderia tocar meus óculos porque tinham medo de que eu “apagasse a evidência que havia contra mim nos óculos”. Eu não tive a intuição de lhes dizer que os óculos ficavam bastante quentes se eles gravassem por mais do que alguns minutos e meus óculos não estavam quentes. Eles queriam saber onde eu havia adquirido os óculos e como eu fui capaz de adquiri-los. Eu lhes contei que eu me inscrevi mais de 1000 vezes para participar do programa de teste, e eventualmente fui escolhido, e que recebi os óculos do Google. Eu me ofereci a mostrar-lhes a nota e o site do Google Glass se eles me permitissem usar qualquer computador com acesso à Internet. Obviamente, não me deram essa opção. Depois eles queriam saber o que o Google me pediu em troca dos óculos, quanto o Google estava me pagando, quem era o meu patrão e por que eu estava gravando o filme.
  • Eventualmente, após um longo período de tempo, uma pessoa apareceu com um laptop e um cabo USB, dizendo que era minha última oportunidade de me esclarecer. Eu repeti pela centésima vez de que não havia nada a ser esclarecido e que isso se tratava de um grande mal-entendido, então o cara do FBI finalmente conectou meus óculos ao computador, descarregou todas as minhas fotos pessoais e começou a repassá-las uma a uma (apesar delas serem datadas e era óbvio que não havia nada em meus óculos que fosse do período no qual me acusavam de realizar uma gravação). Então eles vasculharam meu telefone, e, depois de 5 minutos, concluíram que eu não havia feito nada de errado.
  • Eu perguntei a eles por que eles não tiraram esses 5 minutos para fazer isso logo no começo do interrogatório e eles simplesmente saíram da sala. Um homem que afirmou que seu nome era Bob Hope (ele me forneceu seu cartão de visitas) entrou na sala, e disse que trabalhava para a Associação de Filmes e que eles tiveram um problema de pirataria naquela sala de cinema em particular, exibindo exatamente aquele filme. Ele me deu duas entradas gratuitas “para que eu pudesse assistir ao filme novamente”. Eu perguntei se eles pensavam que o meu Google Glass era tamanha máquina de pirataria, por que não me pediram para não usar dentro do cinema? Provavelmente, eu teria me sentado cinco ou seis fileiras mais perto da tela (já que eu não havia outro par de lentes comigo) e nada disso teria acontecido. Tudo o que ele declarou foi que a AMC o chamou, e ele chamou o FBI e “aqui estão mais duas entradas para me compensar pelo transtorno”. Eu ficaria bem com um simples “Sinto muito por isso ter acontecido, por favor aceite nossas desculpas”. Quatro entradas grátis serviram apenas para me enfurecer.
  • Considerando que eram 11h27 da noite quando isso aconteceu, e o filme começou às 7h45, acredito que as 3 horas e meia do meu tempo e o terror pelo qual passou minha esposa (que não sabia o que estava acontecendo, já que ninguém se importou em informá-la) vale aproximadamente uns 30 mil aos olhos da Associação de Filmes e da milícia federal (perdão, eu não consegui encontrar outra palavra depreciativa). Eu acredito que deveria processá-los por isso, mas não tenho tempo ou disposição para lidar com “quem é seu patrão – nós não queremos você, queremos o chefe” novamente, então simplesmente revelei tudo neste fórum, para que outros possam aprender a partir da minha experiência.
  • Acredito que, até que se familiarizem com o Google Glass e entendam o que eles são, as pessoas não deveriam usá-los no cinema. Eu gostaria que tivessem me dito alguma coisa antes de eu ir ao cinema, mas pode ter sido erro meu assumir que, se eu fui e assisti a filmes duas vezes – usando estes óculos – sem nenhum incidente, também não haveria na terceira vez. Quanto aos agentes federais e seu nível de compreensão… eu imagino que, se eles lidam com pequenos criminosos todos os dias, todas as pessoas passam a se parecer pequenos criminosos. Novamente, eu gostaria que tivessem me ouvido quando lhes disse como averiguar que eu não havia feito nada ilegal, ou pelo menos se desculpassem depois, mas veja… este é o país livre que todos louvam. Pode ser ainda pior em algum outro canto.
Louco, hein? A história dele parece algo retirado do filme de Jack Ryan que foi assistir com sua esposa. Existem outros usuários do Google Glass por aí que foram tratados mal apenas por conta de seus dispositivos? Se não, você está considerando usar um par para o próximo filme que for assistir?

Texto original


Kommentare

2 comments for Sala de cinema da AMC chama “agentes federais” para prender um usuário do Google Glass

  1. Gilberto commented at

    Sinceramente, ele deveria sim processar o cinema, a associação de filmes e o FBI. Mesmo que isso seja, de certo modo, um transtorno. Mas não podem fazer isso e ficar por isso mesmo!

  2. Claudemir Todo Bom commented at

    A história é toda cabulosa… mas… o que aconteceria se o cara apenas pedisse o direito do advogado e que ninguém acessasse nada no Glass dele antes de ter um mandado? O abuso sobre os direitos começa quando as pessoas assim permitem!

Deixe uma resposta

Notice: Comments reflect the opionions of those who did wrote theme. Allowing people comment here, doenst mean, that we also agree with them.

Your email address won't be displayed. Required fields are marked with this sign: *

More information

Assine a petição!

 

673 signatures

Diga aos deputados: não censurem nossa Internet

Olá congressista!

O projeto de lei 5.204/16 propõe o bloqueio de acesso a sites "precipuamente dedicados ao crime" hospedados no exterior e sem representação no Brasil, excluindo, expressamente, a possibilidade de bloqueio de aplicativos de troca instantânea de mensagens (sim, o WhatsApp).

Em sua justificativa, anexa ao projeto, argumenta-se que hoje, para se retirar do ar sites criminosos - incluindo aqueles de ponografia infantil e de tráfico de drogas - tem que se expedir uma carta rogatória (documento que pede cumprimento de ordem judicial brasileira no exterior) para o servidor. Por ser demorada, não seria medida adequada de combate a esses crimes, devendo-se, então, bloquear o acesso de brasileiros a tais sites.

Contudo, há um grande problema nessa lógica de combate ao crime: sites que cometem crimes hediondos e torpes, como a pornografia infantil, NÃO estão na internet normal (surface web), e sim na internet não-indexada (deep web). O que isso quer dizer? Que não há como bloquear acesso a esses sites pelas medidas propostas pelo PL. E mesmo que essas trocas de material ilegal na internet esteja sendo feita em território brasileiro, a justiça já tem meios para combatê-las (a operação DarkWeb II da Polícia Federal,  de combate a pornografia infantil online, criminalizada no art. 241-A do Estatuto da Criança e Adolescente, estourou no dia 22/11/2016).

Ou seja, a título de combate a crimes graves, estão dando de um jeitinho de bloquear sites que desatendem aos interesses da indústria fonográfica, punindo a população ao dificultar acesso à informação, cultura e conhecimento.

Ainda que a primeira coisa que venha à mente nessas situações sejam os sites que disponibilizam filmes e séries inteiras para download ilegal, como o MegaFilmesHD e outros sites que já foram fechados, o PL não é nada claro com relação ao que seria considerado um provedor "precipuamente dedicado à pratica de crime", e as violações estabelecidas pela Lei de Direitos Autorais não se limitam ao compartilhamento ilegal de obras protegidas.

Na verdade, está bem longe disso.

A utilização derradeira de determinadas obras protegidas para produção de alguns tipos de obras derivadas –como remix de músicas, fotos para memes e vídeos que utilizam trechos de filmes para desenvolver críticas a eles (O Partido Pirata até já satirizou a #CPICIBER através de um vídeo) – não é permitida pela lei, consistindo em violação ao direito autoral, o que é abrangido pelo PL em questão. A utilização pode ter finalidade lucrativa ou não, o autor da obra derivada pode ser profissional ou amador - não importa, não pode! É possível que esse tipo de utilização bastasse para justificar o bloqueio de determinado provedor de aplicação.

Plataformas que viabilizam o compartilhamento desse tipo de conteúdo em massa e que poderiam eventualmente ser bloqueadas pelo PL são: o Vimeo (plataforma de vídeos); O YouTube (plataforma de vídeo); o SoundCloud (plataforma de músicas); o Flickr (plataforma de fotografia); o MemeGenerator (site que facilita a elaboração de memes) e até mesmo sites dedicados ao compartilhamento de FanFiction –outro tipo de manifestação cultural que é considerada ilegal pela Lei de Direitos Autorais. Nesse sentido, o bloqueio proposto pelo PL 5.204/16 é problemático sob quatro óticas distintas: para os provedores de aplicação, para os autores dos conteúdos, para os usuários e para o interesse público como um todo.

Para os provedores de aplicação, a medida é desproporcional, pois enseja no bloqueio de todos os seus serviços no país, independente de parte dele estar dentro da legalidade ou não. Por exemplo, o SoundCloud, caso bloqueado, o será por completo, apesar de servir também como plataforma para o compartilhamento de obras de forma legal. Já o YouTube poderá ser censurado por disponibilizar vídeos de paródias de músicas, trailers feito por usuários, etc.

Para os autores, o grande problema é a insegurança jurídica gerada pela medida. Como muitas das utilizações não são permitidas pela lei atual, não é possível saber até que ponto elas serão usadas para bloquear o acesso a suas obras. No mais, criadores de conteúdo que produzem obras completamente permitidas pela lei e disponibilizam-nas nessas plataformas serão penalizados por causa daqueles que compartilham obras de forma ilegal. Já para os usuários, a medida é problemática por prejudicar o livre acesso à internet e o acesso às demais obras (legais) hospedadas nessas plataformas –elementos essenciais do direito constitucional de acesso à cultura.

E, por último, para o interesse público, o PL é potencialmente ainda mais perigoso, já que o bloqueio a determinados serviços, com a justificativa de violação ao direito autoral, pode ser utilizado para cercear a liberdade de expressão. O exemplo dos vídeos que utilizam trechos de filmes para criticá-los é ilustrativo, mas grandes produtoras cinematográficas poderão solicitar o bloqueio de sites que hospedem esse tipo de vídeo com o argumento de que seus direitos autorais foram violados.

Este projeto de lei, portanto, se caracteriza como uma medida de combate direto à cultura de compartilhamento, já difundida na nossa geração. O objetivo explicitado no anexo fica em segundo plano, deixando margem para interpretá-lo apenas como um pretexto. Sendo assim, pode-se dizer que não é exagero especular que se trata de uma manobra movida pelo lobby da indústria audiovisual para esconder uma medida conhecidamente impopular.

Assine a petição, entre em contato com seu deputado: lute por uma Internet Livre e contra projetos de censura!

[your signature]

Compartilhe com seus amigos:

Publicações