Relato do Ato #TemerÉInaceitável no Rio de Janeiro

por Guanyin*

Realizada na saída do trabalho e batizada de “Inaceitável“, a manifestação na noite desta terça-feira (24) contou com a presença de artistas e pedia a saída de Temer do cargo. 

O ato foi idealizado por Paula Lavigne. A empresária e produtora que se destacou pela atuação nos bastidores da Indústria do Entretenimento e assumiu mais recentemente o papel de liderança da “Procure Saber”, agremiação criada por medalhões da música popular brasileira (entre eles Caetano, Chico Buarque, Roberto Carlos e Gilberto Gil), cuja intenção inicial foi lutar a favor dos direitos autorais e contra biografias piratas (leia-se não autorizadas). A Mídia Ninja, empresa de marketing político (do mesmo ramo do Movimento Brasil Livre) e pertencente ao grupo Fora do Eixo de Pablo Capilé, foi a responsável pela divulgação e cobertura do ato.

Apesar da aparente descompatibilidade ideológica com os organizadores do evento, resolvi conferir. O nome “Inaceitável”, é uma excelente hashtag: há inúmeras coisas inaceitáveis que ocorrem todos os dias. Da corrupção escandalosa no congresso, a perseguição falso-moralista aos artistas, etc etc.

Chegando às 18 horas na Igreja da Candelária já era possível acompanhar a concentração. Não havia muitas pessoas por lá. Alguns estandartes e uma banda davam um clima “cirandeiro“, como se costuma dizer.

uma bonita festa em tom carnavelesco pela avenida Rio Branco

Cânticos de “Fora Temer” invadiram as ruas em direção a Cinelândia. Pessoas trabalhadoras que saíam de seus serviços, somaram ao ato queencorpado, fazia uma bonita festa em tom carnavelesco pela avenida Rio Branco. Em meio a algumas bandeiras de sindicatos e de apenas dois partidos (PT e PSOL), um grupo de jovens vestidos de preto levantava uma pequena bandeira negra, com um “A” dentro de um círculo. Como seguidor fiel do “Guia Pirata de Manifestações me aproximei do grupo, questionando de forma ácida “vocês não se importam em participar de manifestação da Rede Globo?” não obtendo resposta, apenas alguns sorrisos sem graça.

Encontrei o vereador David Miranda. Ainda que eleito pelo PSOL, um político independente, como foi sua campanha para câmara. Congratulei-o em nome de uma amiga que, ainda que anarquista, sempre elogia a atuação do vereador, que ela considera muito boa. David tem pautas muito próximas do Partido Pirata e é um cara legal.

Em um dado momento ao lado dos anarcoteens, senhoras vestidas de vermelho começaram a cantar “Volta Dilma! Volta Dilma!”, enquanto que os jovens respondiam “Eleição é Farsa! Desça do apartamento e vem pra praça!” (não era bem isso, mas foi algo do tipo.) Uma das senhora de vermelho olhou e disse: “Eles não acreditam em eleição? O que eles querem? Ditadura?” E retruquei: “Eles querem revolução.”

“E vai ter revolução? Agora?”  Ela perguntava, indignada!

“Eles são jovens,” ponderei. “Se não puderem nem sonhar, o que espera deles? Que votem Temer vice presidente em 2018?”

O ato seguia, a multidão gritava “Fora Temer” e os jovens retrucavam “Morra Temer”. A mesma senhora, realmente incomodada, se aproximou: “Vocês são fascistas?” E se iniciou um quase bate-boca. “Não, nós somos antifascistas. Você esquece que Dilma colocou tanques nas favelas! Você esquece que removeram a Vila Autódromo, as casas derrubadas no Orto! Essa aliança burguesa que mata a periferia!”

“Vocês precisam estudar História!”, respondeu a senhora dilmista, com uma variação do tradicional vá estudar.

“Quando a PM atacar vocês, somos nós que iremos proteger os manifestantes!” Retrucou o jovem, estufando o peito.

Os ânimos estavam exaltados e resolvendo intervir, puxei o jovem anarco-teen e disse: “Anarquia é muito legal… mas a estética anarquista é muito importante também. Você, um garoto gritando com uma senhorinha, não é legal.” E então meio que todos entenderam o recado e decidiram se afastar dali, saíram cantando “Poder, Poder Popular,” alguns metros distantes.

Segui com os garotos e garotas vestidas de preto com camisas de Nirvana e do Polenguinho, (oops, do Pink Floyd) . A manifestação chegou então na Cinelândia, onde os manifestantes subiram a escadaria da Câmara Municipal com seus diversos cartazes.

Duas mulheres seguravam um cartaz contra uma lei que pretende acabar com exame de patentes. Como membro do Partido Pirata, essencialmente contra patentes, perguntei educadamente do que se tratava. Ela me explicou sobre a complexidade da questão. Sobre grandes transnacionais que pegam anos de pesquisa desenvolvida no Brasil e remetem para o exterior; sobre biodiversidade e tudo mais... e percebi que aquilo valia uma boa discussão. Um assunto que não poderia ser tratado simplesmente como preto no branco. Quando fui pedir um contato para fazermos tal debate, olhei para o alto da escadaria e os anarcoteens estavam pichando as paredes da câmara.

Em poucos minutos, quatro policiais militares subiram as escadas e foram intervir naquela “obra de arte”. Bombas de gás foram jogadas, a multidão correu. Fui calmamente andando (não dê as costas e jamais corra em situações como essa) e parei em frente ao bar Amarelinho, um estabelecimento tradicional. Quando vi, policiais apontavam seus lança-bombas na minha direção, e levantei os braços.

O PM atirou, por cima de mim, e o artefato foi parar no segundo andar do estabelecimento. 

Em menos de cinco minutos todos haviam ido embora. Não teve nenhum jovem anarquista protegendo ninguém. Apesar de não ter sido nada próximo da violência protagonizada pela polícia em atos passados. Eu não sei se o gás lacrimogênio estava mais fraco do que de costume ou se eu é que estou acostumado, mas fiquei praticamente sozinho enquanto todos correram.

Além da janela do restaurante, um carro da “Lei Seca” também havia sido atingido pela péssima mira. Um colaborador da “Lei Seca”, cadeirante, passou e eu gritei para ele: “Você tem que fazer bafómetro nesses policiais!” Ele riu alto e acenou de volta. Me sentei nas escadarias, sozinho, e tirei essa selfie:

*Este texto é opinião do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Partido Pirata.


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