Utopia é um ideal perigoso. Melhor buscar a Protopia

por Michael Shermer

pirateado da Aeon

Utopias são visões idealizadas de uma sociedade perfeita. Utopianismos são aquelas ideias colocadas em prática. É aí que o problema começa. Thomas More cunhou o neologismo Utopia para o seu trabalho de 1516, considerado como aquele que lançou o gênero literário moderno por uma boa razão. A palavra significa “nenhum lugar” porque quando humanos imperfeitos buscam a perfeição – pessoal, política, econômica e social – eles falham. Portanto, o espelho negro das utopias são distopias – experimentos sociais que falharam, regimes políticos repressivos e sistemas econômicos opressivos que resultam de sonhos utópicos postos em prática.

A crença de que humanos são capazes de atingir a perfeição levam, inevitavelmente, a erros quando ‘uma sociedade perfeita’ é desenvolvida para uma espécie imperfeita. Não há uma maneira melhor do que todas a outras para viver porque há muitas variações de como as pessoas querem viver. Portanto, não há uma sociedade que seja melhor, apenas múltiplas variações de um conjunto de temas como ditados pela nossa natureza.

Por exemplo, utopias são especialmente vulneráveis quando uma teoria social baseado na propriedade coletiva, trabalho comunal, governo autoritário e uma economia sob estrito controle colidem com nosso desejo natural por autonomia, liberdade individual e escolha. Além disso, as diferenças naturais em habilidades, interesses e preferências dentro de qualquer grupo de pessoas levam a desigualdades produtivas e condições de vida e trabalho imperfeitos que utopias comprometidas com igualdade de renda não podem tolerar. Como um dos cidadãos originais da comunidade New Harmony em Indiana, no século 19 de Robert Owen, uma vez explicou:

Nós tentamos toda forma concebível de organização e governo. Nós tínhamos um mundo em miniatura. Nós havíamos reencenado a Revolução Francesa diversas vezes com corações desesperados ao invés de cadáveres como resultado… parecia que a própria lei da diversidade inerente na natureza que havia nos conquistado… nossos interesses ‘unidos’ foram direcionados para uma guerra com as individualidades das pessoas e suas circunstâncias, assim como o instinto de auto-preservação.

A maior parte dos experimentos utópicos do século 19 foram relativamente inofensivos porque, sem um grande número de membros, eles careciam de poder político e econômico. Mas acrescente esses fatores e sonhadores utópicos podem se tornar assassinos distópicos. Pessoa agem de acordo com suas crenças e se você acreditar que a única coisa que impede você e/ou sua família, clã, tribo, raça ou religião de atingir os céus (ou de alcançar a terra no céu) são os outros ou algum outro grupo, então as ações não conhecem limites.

Do homicídio ao genocídio, o assassinato de outros em nome de alguma crença religiosa ou ideológica é responsável pelas maiores contagens de corpos na história dos conflitos, das Cruzadas, Inquisição, caça as bruxas e guerra religiosas dos séculos passados aos cultos religiosos, guerras mundiais, pilhagens e genocídios do século passado.

Nós podemos ver que o cálculo entre a lógica utópica e o agora famoso “problema do bonde” (trolley problem) no qual a maioria das pessoas afirma que estariam dispostas a matar uma pessoa para salvar cinco. Aqui está a configuração: você se encontra próximo da bifurcação de um trilho de trem com uma alavanca para desviar o vagão do bonde que está a prestes a matar cinco pessoas no caminho.

Se você puxar a alavanca, ela irá desviar o bonde para um trilho paralelo onde matará uma pessoa. Se você não fizer nada, o bonde mata cinco. O que você faria? A maior parte das pessoas dos países ocidentais esclarecidos hoje concordam que seria moralmente permissível matar uma pessoa para salvar cinco, imagine o quão fácil seria convencer pessoas vivendo em estados autocráticos com aspirações utópicas que matar 1.000 pessoas salvaria 5.000 ou exterminar 1.000.000 para que 5.000.000 talvez prosperem. O que é alguns zeros quando estamos falando sobre felicidade infinita e bençãos eternas?

A falha fatal no utopianismo utilitarista é encontrado em outro experimento mental: você é um espectador saudável passando pela sala de espera de um hospital no qual o médico do Pronto Socorro tem cinco pacientes morrendo de diferentes condições, todas as quais podem ser salvas ao sacrificar você e recolhendo seus órgãos. Alguém gostaria de viver em uma sociedade na qual eles pudessem ser aquele espectador inocente? É claro que não, que é porque qualquer médico que tentasse tal atrocidade seria julgado e condenado por assassinato.

Ainda assim, isso é precisamente o que aconteceu com os grandes experimentos do século 20 em ideologias socialistas utópicas como manifestadas a Russia Marxista/Leninista/Stalinista (1917-1989), Itália Fascista (1922-1943) e Alemanha Nazista (1933-1945), todas tentativas em larga escala de atingir perfeição política, econômica, social (até mesmo racial), resultando em dezenas de milhões de pessoas mortas por seus próprios Estados ou assassinadas em conflito com outros Estados percebidos como bloqueando a estrada para o paraíso. O teorista e revolucionário marxista Leon Trotsky expressou a visão utópica em um panfleto de 1924:

A espécie humana, o Homo Sapiens coagulado, irá uma vez mais entrar em um estado de transformação radical e, por suas próprias mãos, irá se tornar um objeto dos mais complicados métodos de seleção artificial e treinamento psico-físicos… O ser humano médio irá ascender aos limites de um Aristóteles, um Goethe ou um Marx. E sobre esse cume novos picos irão surgir

Esse objetivo irrealizável levou a bizarros experimentos como aqueles conduzidos por Ilya Ivanov, que foi designada por Stalin em 1920 em cruzar seres humanos e gorilas com o objetivo de criar ‘um novo ser humano invencível’. Quando Ivanov falhou em produzir o híbrido de homem-gorila, Stalin a havia sido presa, encarcerada e exilada para o Kazaquistão.

Já quanto a Trotsky, uma vez que ele ganhou poder como um dos sete membros fundadores do Politburo soviético, ele estabeleceu campos de concentração para aqueles que se recusaram a se unir em seu grande experimento utópico, em última instância levando ao arquipélago de gulags que matou milhões de cidadãos russos que também eram creditados como obstáculos no caminho do paraíso utópico que estava à vista. Quando sua própria teoria Trotskista opôs aquela do Stalinismo, o ditador teve Trotsky assassinado no México em 1940. Sic semper tyrannis.

Na segunda metade do século 20, o Marxismo revolucionário em Cambodia, Coreia do Norte e numerosos estados na América do Sul e África levaram a assassinatos, pogroms, genocídios, limpezas étnicas, revoluções, guerras civis e conflitos patrocinados pelo estado, todos em nome de estabelecer um céu na Terra que requeriu a eliminação de desertores recalcitrantes. Tudo somado, algo como 94 milhões de pessoas morreram nas mãos dos Marxistas revolucionários e comunistas utópicos na Russia, China, Coreia do Norte e outros estados, um número abismante quando comparado com os 28 milhões mortos pelos fascistas. Quando você precisa assassinar pessoas nas dezenas de milhões para atingir seu sonho utópico, você alcançou apenas um pesadelo distópico.

A jornada utópica por felicidade perfeita foi exposta como um objetivo falho que segue aquele feita por George Orwell em seu review de 1940 de Mein Kampf:

Hitler … percebeu a falsidade da atitude hedonística em relação a vida. Quase todo o pensamento ocidental desde a última guerra certamente todo pensamento ‘progressista’, assumiram de maneira tácita que seres humanos não desejavam nada além de facilidades, segurança e evitar a dor … [Hitler] sabe que seres humanos não apenas querem conforto, segurança, horas de trabalho curtas, higiene, controle de nascimento e, em geral, senso comum, eles também, pelo menos de maneira intermitente, querem conflito e auto-sacrifício…

Sobre o amplo apelo do Fascismo e Socialismo, Orwell acrescentou:

Enquanto Socialismo e até mesmo capitalismo de maneira mais crua, disseram para as pessoas ‘Eu lhe ofereço um bom tempo’ Hitler disse a eles ‘eu ofereço conflito, perigo e morte’ e como resultado toda a nação se acomodou aos seus pés … nós não devemos subestimar o seu apelo emocional.

O que, então, deve substituir a ideia de utopia? Uma resposta pode ser encontrada em outro neologismo – protopia – progressos incrementais com passos buscando aperfeiçoamento, não a perfeição. Como o futurista Kevin Kelly descreve em sua definição:

Protopia é um estado que é melhor hoje do que era ontem, ainda que talvez apenas um pouco melhor. Protopia é muito mais difícil de visualizar. Como a protopia contem tanto novos problemas quanto novos benefícios, essa interação complexa de trabalhar é muito difícil de prever.

Em meu livro ‘The Moral Arc’ (2015 – sem versão em português), eu mostro como progresso protópico descreve melhor os monumentais sucessos morais dos séculos passados: a atenuação da guerra, a abolição da escravidão, o fim da tortura e da pena de morte, sufrágio universal, democracia liberal, direitos civis e liberdades, casamento do mesmo sexo e direitos dos animais. Esses são todos exemplos de sucessos protópicos no sentido que todos eles aconteceram um passo por vez.

Um futuro protópico não é apenas prático, ele é realizável

Michael Shermer é editor do jornal Skeptic, colunista mensal do Scientific American e associado à Universidade de Chapman na California.

Esse ensaio é baseado em Heavens on Earth: The Scientific Search for the Afterlife, Immortality, and Utopia publicado pelo autor em 2018


Deixe uma resposta

Notice: Comments reflect the opionions of those who did wrote theme. Allowing people comment here, doenst mean, that we also agree with them.

Your email address won't be displayed. Required fields are marked with this sign: *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

More information

Arquivo de posts