[Opinião] Os Loucos e os Sábios

reflexões sobre o fim da presidência de Donald Trump

por Jacques Rancière – traduzido por Galdino (link original aqui) – arte por Matejko (1862)

É fácil zombar dos erros de Donald Trump e se indignar com a violência de seus fanáticos. No entanto, a explosão da mais pura irracionalidade no coração do processo eleitoral do país mais bem treinado para administrar a alternância no sistema representativo também nos coloca questões sobre o mundo que compartilhamos com ela: um mundo que pensávamos ser aquele do pensamento racional e da democracia pacífica. E, claro, a primeira questão é: como pode haver tanta persistência no não-reconhecimento dos fatos mais comprovados, e como pode essa persistência ser compartilhada e apoiada por tantas pessoas?

Há quem queira se agarrar a uma última esperança de evitar o naufrágio: as pessoas que não querem reconhecer os fatos seriam ignorantes e mal informadas, ou espíritos crédulos enganados por fake news. Trata-se do idílio clássico sobre um bom povo que se deixa levar por sua simplicidade espiritual e que deveria ser ensinado a se informar sobre os fatos e a julgá-los de maneira crítica. Mas como acreditar ainda nessa fábula da ingenuidade popular quando vivemos em um mundo em que os meios de informação, os meios de verificar a informação e os comentários que “decifram” toda e qualquer informação são muitos e existem em quantidade enorme, estando disponíveis para todo mundo?

Assim, é melhor inverter o argumento: se recusamos o que é evidente, não é por idiotice, mas para mostrarmos que somos inteligentes. E a inteligência, como bem se sabe, consiste em desconfiar dos fatos e se perguntar sobre a serventia dessa massa colossal de informações que depositam em nós todos os dias. A resposta que se dá naturalmente é que isso tudo evidentemente serve para enganar o mundo, pois o que se coloca na vitrine para visualização geral está ali, geralmente, para encobrir a verdade, que devemos saber descobrir por trás da aparência falaciosa do que nos é dado.

A força dessa resposta consiste no fato de que satisfaz fanáticos e pessoas céticas ao mesmo tempo. Um dos traços mais marcantes da nova extrema-direita é o lugar que ela destina às teorias da conspiração e negacionistas. Elas apresentam aspectos delirantes, como a teoria da grande conspiração internacional de pedófilos. Mas esse delírio, em última instância, não é nada além da forma extrema de um tipo de racionalidade que geralmente valorizamos em nossas sociedades: aquele que manda ver, em qualquer fato particular, a consequência de uma ordem global, e substituir esse mesmo fato no encadeamento total que o explica, mostrando, ao fim, que se tratava de algo bem diferente do que parecia inicialmente.

Sabemos que esse princípio de explicar os fatos pela totalidade de suas conexões pode ser invertido: podemos sempre negar um fato conjurando a ausência de uma conexão no encadeamento das condições que tornam esse fato possível. É assim que, como sabemos, intelectuais marxistas radicais negaram a existência de câmaras de gás nazistas porque parecia impossível deduzir sua necessidade da lógica geral do sistema capitalista. E, mesmo nos dias de hoje, intelectuais enxergam o coronavírus como uma fábula inventada pelos nossos governos para nos controlar melhor.

As teorias da conspiração e negacionistas se orientam por uma lógica que não é exclusiva dos espíritos simples e cérebros adoecidos. Suas formas extremas nos dão o testemunho de uma parte irracional e supersticiosa que encontramos no coração da forma dominante de racionalidade em nossas sociedades e nos modos de pensar que interpretam seu funcionamento. A possibilidade de tudo negar não está no domínio do “relativismo” colocado em questão por espíritos sérios que se imaginam os guardiões da universalidade racional. Ela é uma perversão inscrita na própria estrutura de nossa razão.

Pode-se dizer que não basta termos as armas intelectuais que permitem tudo negar. Ainda é preciso querer. Justo. Mas temos de ver em que consiste esse querer, ou melhor, esse afeto que nos leva a crer ou não crer.

É pouco provável que setenta e cinco milhões de eleitores de Trump sejam pessoas de cérebro fraco, convencidas por seus discursos e pelas falsas informações que eles carregam. Elas não acreditam no sentido de que tomam o que ele diz como verdade. Elas acreditam no sentido de que ficam felizes de ouvir o que ouvem: um prazer que pode, a cada quatro ou cinco anos, vir através de um recibo eleitoral, mas que também se encontra, diariamente e de modo mais simples, em um like. E aqueles que divulgam as informações falsas não são ingênuos de imaginar que sejam verdadeiras, nem cínicos que sabem que são falsas. São apenas pessoas que querem que elas sejam como são, que querem ver, pensar, sentir e viver na comunidade sensível elaborada por essas palavras.

Como pensar essa comunidade e esse querer? É aqui que uma outra noção produzida pela preguiça satisfeita consigo mesma surge à espreita: populismo. Ela não invoca mais um povo bondoso e ingênuo, mas, ao contrário, um povo frustrado e invejoso, pronto para seguir aquele que souber encarnar seus rancores e representar a causa.

Trump – como nos informam prontamente – é o representante de todos os trabalhadores brancos cheios de angústia e raiva, os que ficaram para trás nas transformações sociais e econômicas, que perderam seus empregos com a desindustrialização e seus marcos identitários com as novas formas de vida e cultura, que se sentem abandonados pelas elites políticas distantes e desprezados pelas elites diplomadas. Não é um discurso novo: o desemprego já era usado nos anos 30 como explicação para o nazismo e foi reutilizado para explicar toda e qualquer força da extrema-direita em nossos países. Mas como podemos acreditar seriamente que setenta e cinco milhões de eleitores de Trump correspondem a esse perfil de vítima da crise, do desemprego e do rebaixamento? Deixemos, então, essa segunda esperança que nos protege em nosso conforto intelectual, a segunda figura do povo tradicionalmente acusado de desempenhar o papel do ator irracional: esse povo frustrado e brutal que serve de contraparte ao povo bondoso e ingênuo.

Devemos, mais profundamente, questionar essa forma de racionalidade pseudo-acadêmica que visa fazer com que as formas políticas de expressão do sujeito-povo sejam os traços pertencentes a esta ou aquela camada social em queda ou ascensão. O povo político não é a expressão de um povo sociológico preexistente. Trata-se de uma criação específica, produto de certo número de instituições, procedimentos, formas de ação, e também de palavras, frases, imagens e representações que não expressam os sentimentos do povo, mas criam certo povo ao criar um regime específico de afetos.

Portanto, trata-se do povo construído pelo sistema específico de afetos que Donald Trump manteve através de seu sistema de comunicação: um sistema de afetos que não se destina a uma classe particular e que não joga com a frustração, mas, ao contrário, com a satisfação dessa condição; não joga com o sentimento de uma desigualdade a ser reparada, mas com o privilégio a ser mantido contra todas as pessoas que atentam contra ele.

A paixão para a qual Trump apela não tem nada de misterioso – é a paixão da desigualdade, aquela que permite igualmente que ricos e pobres encontrem uma multidão de inferiores sobre os quais uma superioridade deve ser mantida a todo custo. Sempre há, de fato, uma superioridade na qual se pode participar: dos homens sobre as mulheres, das mulheres brancas sobre as de cor, das pessoas trabalhadoras sobre as desempregadas, de quem trabalha nas profissões do futuro sobre quem trabalha com o resto, de quem possui bons planos de seguridade social sobre quem depende da solidariedade pública, de pessoas nativas sobre as imigrantes, de nacionais sobre as pessoas estrangeiras e de quem possui cidadania na nação que é mãe da democracia sobre o resto da humanidade.

A presença simultânea, no Capitólio ocupado pelos capangas de Trump, da bandeira dos treze estados originais e da bandeira do sul escravocrata ilustra bem essa reunião singular que faz da igualdade uma prova suprema da desigualdade e da busca pela felicidade um afeto odioso. Mas, essa identificação do poder de todos à coleção inumerável de ódios e superioridades – mais que a uma camada social particular – não pode ser assimilada ao ethos de uma nação específica. Sabemos qual o papel exercido aqui pela oposição entre a França trabalhadora e a França que depende de assistência, entre quem segue adiante e quem ainda se agarra a sistemas de proteção social arcaicos, ou entre cidadãos da terra do Iluminismo e dos direitos humanos e as populações atrasadas e fanáticas que ameaçam sua integridade. E podemos ver, todos os dias na Internet, o ódio a todas as formas de igualdade sendo reeditado até a exaustão nos comentários de leitores de jornais.

Da mesma forma que a insistência na negação não é a marca de espíritos atrasados, mas uma variante da racionalidade que domina, a cultura do ódio não é fruto da ação de camadas sociais desfavorecidas, mas um produto do próprio funcionamento de nossas instituições. É um modo de fazer-povo, uma maneira de criar um povo que é próprio à lógica da desigualdade. Já faz uns duzentos anos que o pensador da emancipação intelectual, Joseph Jacotot, mostrou o modo pelo qual a desrazão desigualitária faz operar uma sociedade em que toda pessoa inferior é capaz de encontrar, em relação a si, uma outra pessoa inferior, e sentir o prazer de sua superioridade sobre ela. Um quarto de século atrás, eu sugeri, por conta própria, que a identificação da democracia ao consenso produz, no lugar de um povo da divisão social considerado arcaico, um povo ainda mais arcaico fundado sobre os afetos do ódio e da exclusão.

No lugar do conforto da indignação e da zombaria, os eventos que marcam o fim da presidência de Donald Trump devem nos incitar a examinar de maneira mais aprofundada as formas de pensamento que consideramos racionais e as formas de comunidade que consideramos democráticas.


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