Opinião: O desenvolvimento histórico da LGBTfobia no Brasil

As raízes históricas da opressão contra a diversidade sexual e de gênero

por Tavvvvvvv

Desde o início da colonização, as populações sexualmente diversas foram vítimas de diversos processos de violência e destruição de suas identidades. Partindo da chegada do homem branco às terras brasileiras, é possível observar a imposição cultural da binaridade de gênero (ou seja, da imposição da ideia de que homem e mulher sejam vistos como os únicos padrões possíveis) sobre os povos originários, que não tinham uma visão similar equivalente aos pensamentos europeus de padronização sexual advindos do dogma religioso católico vigente na época. Com isso, é observável e bastante patente que a violência cometida hoje com os cidadãos LGBTQIA+ não seja algo decorrente apenas de fatores políticos recentes, mas que passa por raízes históricas muito antigas.

Inicialmente, um fato importante a se destacar é o da visão do papel de gênero das tribos, que associavam o gênero e a posição hierárquica dentro das comunidades ao papel exercido nas relações interpessoais dentro do grupo e não de acordo com o sexo biológico, como ocorre nos períodos atuais. Lá, os tecelões eram associados ao que hoje é visto como “gênero feminino”, já os caçadores ao que hoje é visto como “gênero masculino”.

Essa visão entretanto não era algo criado pelos próprios povos, mas sim imposto pelos representantes do clero e da nobreza, que horrorizavam-se ao perceber que poderiam haver outras concepções do que era o gênero para além das suas visões ocidentais. Com a chegada dos jesuítas pela Companhia de Jesus e o seu domínio indisputado sobre a administração da colônia, tais visões da identidade pessoal e cultural dos povos da terra passaram a ser ainda mais deturpadas, iniciando-se um processo de aculturação de nossas raízes originárias, que perdura até os tempos atuais.

Após o estabelecimento dos primeiros colonizadores/invasores e da observação das formas como os povos nativos agiam, passou a ocorrer gradativamente o processo de dizimação das populações que aqui viviam, sendo os métodos de assassinato mais agressivos direcionados para os nativos que não se adequavam aos padrões que tentavam ser impostos pelos primeiros catequistas católicos, e que ao perceberem a existência de uma minoria dentro das comunidades dos povos da região, iniciaram o sadismo dentro do próprio sadismo que já propiciavam

Isso pode ser evidenciado pela pesquisa dos historiadores Estevão Fernandes e Barbara Arisi, que afirmam “Eles vão ser atacados por serem considerados sodomitas, mas isso se soma ao lugar da subalternidade por serem índios. O colonialismo ainda não acabou e, em larga medida, o discurso homofóbico e racista permanece. A cura gay não é coisa de cinco séculos atrás, é coisa de hoje. A retórica é a mesma. Vemos pastores super bem intencionados tentando salvar a alma das pessoas. Nossa conclusão é dizer que isso molda o Brasil.”

Os métodos de tortura usados eram extremamente degradantes e com nenhuma finalidade além de mostrar que eles podiam, e gostavam, de realizar tais atos, um deles, descrito pelos historiadores e direcionado ao que eles achavam ser um nativo intersexo, consistiu em matar o não conformista, o amarrando na boca de um canhão e ativando a arma, que despedaçou o corpo e não deixou oportunidades para futuros ritos fúnebres pelos membros da tribo, demonstrando-se assim os requintes de crueldade direcionados a essa população, além de diversas outras práticas, como, mutilações genitais, torturas físicas, psicológicas e o ato de queimar vivo os que, mesmo após tantas violências, não cediam à padronização de comportamentos dos que vieram do velho continente, que ainda imputavam essas violências a outros comportamentos, como a amamentação a longo prazo, a expressividade através da dança e os comportamentos não monoteístas.

Bandeirantes atacando nativos

Tal movimento de tentar “normalizar” os comportamentos dos povos da terra não ocorreram apenas no Brasil, havendo casos em todo mundo da tentativa de impor a hegemonia da tradição heteronormativa da igreja, que na sua própria história tenta esconder os diversos documentos que demostram a existência de padres que realizaram casamentos entre vassalos (“lésbicas” e “gays”) homossexuais.

É importante também mencionar a subjugação dos nativos que fugiam dos padrões impostos de gênero e que foram sobreviventes do extermínio branco perante a sociedade que se construía. Esses acabaram se prostituindo para os colonos que aqui chegavam com o intuito de usufruirem dos seus corpos. Prática que, mesmo após a forte intervenção da igreja contra a “sodomia”, continuou sendo perpassada, principalmente em comunidades interioranas, estabelecidas pelos bandeirantes, que violentavam através do estupro e do assassinato ao levar a colonização Brasil adentro, prática que foi naturalizada durante os anos e hoje volta a tornar-se cotidiana.

Ademais, houve ainda a tentativa de apagar os santos que tiveram relações homoafetivas registradas, como São Sérgio e São Baco, figuras históricas que hoje já são vistos revisitados e adimitidos como um casal pelos historiadores que se especializaram em estudar os personagens católicos que eram gays ou lésbicas.

São Sérgio e São Baco

Por anos a criminalização das relações e a proibição de manifestações identitárias continuaram a ser fiscalizadas pelas autoridades religiosas que mantiveram, e ainda mantém, grande força nas instituições políticas, o que mais uma vez contribuiu para a falta de discussão e o apagamento de figuras históricas que tiveram suas sexualidades e identidades apagadas pela história.

Um grande exemplo é o do criador do avião, Santos Dumont, que claramente (em diversos casos) afirmava não se identificar com a norma sexual e de gênero da época em que vivia, em momentos, até declarando que se via como “macho e fêmea”. Historiadores ainda afirmam que ele era afeminado, vaidoso, tímido e muito preocupado com a sua aparência física, deixando a dúvida sobre o mesmo ser assexual, bissexual ou homossexual, sendo possivelmente bissexual, já que escritos do próprio afirmavam que ele já tivera relações tanto hetero, tanto homoafetivas.

Nos jornais da época corriam os boatos de que Dumont manteve relações com a poetisa Mercedes de Acosta, que posteriormente, declarou-se como lésbica e riu das especulações, afirmando ser apenas uma grande amiga do aviador. Mercedes manteve diversas relações com grandes atrizes de sua época, o seu relacionamento mais controverso sendo com uma mulher, Greta Garbo, grande artista que após ter sua sexualidade revelada por Acosta, encerrou o relacionamento e a amizade com a mesma, negando a revelação, que após a morte de ambas, foi confirmada por historiadores, que descobriram as cartas românticas trocadas entre elas, sendo parte delas reveladas ao público.

Novamente sobre o pai da aviação, Dumont é considerado por seus descendentes como alguém que não demonstrava interesse no sexo, mas que apreciava a “beleza das donzelas da sociedade”, tentando mais uma vez destituírem a possibilidade de termos na história figuras LGBTQIA+ de importância, ao contribuírem assim para a violência estrutural da sociedade para com essa população, que continua sendo marginalizada e diariamente morta.

Outra figura sexualmente diversa de destaque na história do Brasil é a de João Francisco dos Santos, Drag Queen que ao desfilar no carnaval do Rio de Janeiro, ficou conhecida pelo nome de Madame Satã, ao utilizar fantasia de mesmo nome no bloco “Caçador de Veados”, pavimentando os caminhos para outros artistas que hoje podem se expressar livremente. Por meio da sua luta tornou-se uma grande representante e defensora dos direitos das mulheres negras, travestis, gays e prostitutas. Em que nos embates policiais posicionava-se ao lado dos mais fracos, tendo sido presa diversas vezes por causar convulsão social e desacato, revelando não ter medo de enfrentar a figura autoritária do estado, ao utilizar de suas raízes na capoeira para abarcar as formas de se assegurar contra as forças que a atacavam por sua expressividade.

Morreu aos 76 anos da pneumonia nascida da sua última prisão, local onde voltou constantemente, passando entre idas e vindas cerca de 27 anos no cárcere. Já foi representada em filmes e livros, mas nunca teve seu nome marcado pelo perdão, tendo sua existência transformada num entretenimento para aqueles que a degradavam. Até hoje, o estado do Rio e outras instituições não a reconhecem como figura de importância, a colocando no cemitério do esquecimento, não fosse pelos artistas que mesmo depois de tantos anos ainda tem orgulho de a representar, demonstrando a força de sua história.

O apagamento histórico de tais figuras nos leva a pensar que vidas queer não tem valor, ou não importam. Porém não devemos esquecer que a sociedade não teria os avanços que tem hoje sem os grandes nomes LGBTQIA+, como Safo, Maquiavel, Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Jane Addams, Alan Turing, Oscar Wilde, Simone de Beauvoir, Angela Davis, Laerte Coutinho, Edinanci Silva, etc. Todos essas existências contribuíram para a formação e desenvolvimento do planeta em diversos contextos, cada um com suas histórias e lutas, marcados pelo preconceito mas resistindo, ao mostrar que há vida depois da dor e esperança depois da queda.

E uma grande queda para a democracia e para o avanço das questões da tolerância foi o regime ditatorial, iniciado em 64 e marcado por 21 anos de tortura, repressão, violência e retrocesso. Ao se reavivar a antípoda que era o estado brasileiro na época, percebe-se o confronto entre a figura do militar autoritário com a da travesti que luta por sua sobrevivência. Expostas ao medo, muitas foram torturadas e invadidas sexualmente e psicologicamente, destruindo os espaços já guetead

Madame Satã, filho de Iansã e Ogum e devoto de Josephine Baker

os que sobravam, obrigando-as a fugirem para regiões do interior. Muitas morreram e se esconderam, já outras foram (e são) usadas como produto de exportação. As restantes, foram acolhidas no espaço artístico, onde puderam se expressar, enfrentando ainda a repressão crescente que se iniciou nos períodos da linha dura da ditadura.

Apesar de tamanha vida severina, foi realizada nesse período a primeira cirurgia de redesignação, alcançada com a determinação de um ícone de perseverança, Waldirene, mulher que com coragem e muita força decidiu passar por tal processo num momento histórico de tantas dificuldades, conseguindo com sucesso realizar um de seus sonhos. Após o ato cirúrgico e a recuperação, pensando que seu sofrimento acabaria por dar um fim a parte de suas disforias, a moça mais uma vez foi ferida.

Raptada por militares do governo durante uma aula de inglês que cursava, foi levada ao IML, onde foi fotografada e inspecionada. Fizeram-na testes, introduziram-na espéculos e a machucaram psiquicamente, ao colocarem até mesmo uma fita métrica para medir o tamanho do seu canal vaginal. Lá, Waldirene e todos nós fomos estuprados pelo governo militar, que mostrou poder fazer o que quiser, passando por cima até mesmo de um pedido de Habeas Corpus da moça. Levaram-na e demonstraram que o corpo que diverge não tem dono, é apenas mais um produto do estado e de suas forças.

Documento do IML, com foto de Waldirene, 1976

Após tamanha destruição, foi encaminhada para o ministério público de São Paulo, onde foram mostrados, surpreendentemente, os laudos médicos que a identificavam como mulher, não fazendo nada menos do que a própria obrigação de a reconhecerem como ela realmente é. Porém, a promotoria negou os dados médicos, frutos da violação passada, e os promotores então verbalizaram os mais de 400 anos de colonização:

“Não há nem pode haver, com essas operações, qualquer mudança de sexo. O que consegue é a criação de eunucos estilizados, para melhor aprazimento de suas lastimáveis perversões sexuais e, também, dos devassos que neles se satisfazem. Tais indivíduos, portanto, não são transformados em mulheres, e sim em verdadeiros monstros”,

“Admitindo-se que ele (Waldir) possa oferecer sua neovagina a homens, então somos forçados a concluir que agora ele é uma prostituta”, “Embora mutilado, continuará sendo o que sempre foi, ou seja, um homem que mantémrelações sexuais com outros homens. Mas a prática de relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo será sempre uma aberração, tanto à natureza como à lei.”.

Após o processo tão doloroso, a moça tentou anos depois conseguir registrar legalmente o seu verdadeiro nome, o nome o qual ela se identificava, mas a situação pouco mudou, com o promotor do novo caso afirmando: “Não deve o jurista impressionar-se com as atitudes sentimentais expressas por Waldir e afirmadas, com certo sensacionalismo pelos médicos, mediante alusões ao ‘seu sonho de ser mulher’. A realidade é outra (…) Waldir Nogueira é um doente mental”.

Monstro, prostituta, doente mental. Vocabulário não muito distante do que hoje fazem certos policiais e a mídia de massa de entretenimento pela violência, que depreciam e escarnecem a falta de oportunidade e a marginalização causada pela sociedade para com a população trans. Waldirene sobreviveu, para contar sua história, ainda hoje coberta de medo, mas com a disposição em fazer sua voz ser ouvida. Hoje, já idosa, vive como manicure, por ter sido impedida legalmente de seguir a sua carreira na contabilidade, curso que pretendia estudar.

Declarações do Ministério Público sobe Waldirene, 1976

Ainda em plena ditadura surgem os primeiros grupos de resistência à violência advinda da repressão do (des)governo ditatorial. Manifesta-se o primeiro jornal alternativo de caráter homossexual, o Snob, que abre espaço para outros como o mais conhecido Lampião Da Esquina, em que já em seu primeiro editorial, afirmava-se contra a higienização e a formação de guetos que ocorria nas cidades brasileiras, expressando “É preciso dizer não ao gueto e, em consequência, sair dele. O que nos interessa é destruir a imagem-padrão do homossexual, segundo a qual ele é um ser que vive nas sombras, que prefere a noite, que encara sua preferência sexual como uma espécie de maldição”. Com o fim dos anos de ferro da ditadura, a publicação ganhou maior notoriedade e abriu espaço para ainda outras publicações como o chanacomchana, dedicado às mulheres lésbicas que tinham espaço próprio na luta e protagonizaram “O Stonewall Brasileiro”, ao combaterem a proibição da venda do jornal no ferro’s bar, um dos points de encontro da comunidade.

Com a chegada da redemocratização e a continuação das lutas por direitos, as revistas e os movimentos ganharam outras formas de organização, passando a focar na conscientização popular a respeito das vivências das comunidades sexualmente diversas, mais tarde se posicionando e vocalizando a respeito das questões relacionadas ao HIV, o qual chegou ao Brasil e atingiu majoritariamente os cidadãos LGBTQI+, ao revelar pro mundo que sim, haviam vidas não heteronormativas e elas estavam em todos os lugares.

Em pouco tempo as mídias passaram a debater sobre a AIDS, síndrome manifestada pelo vírus da imunodeficiência humana, gerando sucessivamente uma discussão sobre as vidas mais afetadas pelo vírus, vendo que artistas e outras figuras de representatividade estavam morrendo, não só por terem sua imunidade afetada, mas também por estarem cansados de enfrentar a ignorância cotidiana dos atos de intolerância, deturpando o psicológico até dos mais fortes e bem quistos. A revelação dessa vida íntima dos acometidos pelo HIV removeu coercitivamente muitos para fora de seus armários, forçando-os a falarem a respeito do que os afligia, dando espaço para importantes movimentos os defenderem e os protegerem, como o Grupo Gay da Bahia (o qual teve fundamental importância na verbalização do que vinha acontecendo) e o lar Brenda Lee, que acolhia travestis e transexuais para um tratamento e conscientização humanizados.

Apesar de tantos processos degradantes, houveram os frutos do sangue derramado pelas lutas e resistências, em que na década de 80 conquistou a despatologização da homossexualidade, e em 2011, pelo STF conquistou a possibilidade de se alcançar a união estável entre pessoas “do mesmo sexo”. Algo que trouxe enormes benefícios, mas que como todos os direitos das pessoas minoritárias, foi discutido por pessoas hetero, de maioria branca, sendo quase todos homens e cis, demonstrando que as elites continuam se afastando da verdadeira face do povo brasileiro, que é múltiplo e diverso, não cabendo num poder jurídico tão pouco representativo.

No próximo dia 14 de novembro mais uma vez a voz dos que já morreram ecoará por entre os vivos e teremos a decisão sobre a criminalização da LGBTfobia, em que novamente os nossos direitos serão decididos por outros, sem ao menos se perguntarem, “seria correto discutirmos tal assunto sem a devida colocação de pessoas com propriedade para discutirem o tema?”, o que traz outra questão, a da exclusão da participação política e social das classes minoritárias dentro da sociedade, não sendo permitida a participação das vozes LGBTQIA+ para falar das questões que os atingem, nem deixando espaço para se debater a respeito de outros temas não diretamente ligados à sexualidade, pois pasmem, há muito mais conhecimento para além do próprio gênero e orientação sexual.

Dados de 2013 já alarmantes

Com isso podemos perceber que a violência centrada nas vivências sexualmente diversas não vem de hoje, mas está paralelamente ligada à história Brasileira e mundial, demonstrando que os dados hoje divulgados não são apenas contextualizados ao momento político para impor ideais e vitimismos, mas reflexos de uma história, que por conta do apagamento, continua permitindo que a violência seja perpassada e cresça com a ascensão das expressões do fascismo bancado pelos velhos financiadores do sofrimento LGBTQIA+. Dessa forma o Brasil continua a ser o país que mais mata pessoas trans, o país em que a vida de uma lésbica está condenada ao eterno sofrimento de agressões diárias e cotidianas, o país em que um bisexual não pode andar na rua com o seu marido sem atrair olhares agressivos, um país em que a ignorância e a intolerância prevalecem, um país que a morte cerca a vida e as histórias de inúmeros nomes. Marielle, Dandara, Itaberli, Luana, Rafael. Todas essas vidas. O que elas são se não uma grande marca na face do Brasil? Que se caracteriza por ser a nação que é, de sofrimento e angústia aplicadas sobre vidas que apenas são por serem, sem culpa, mas marcadas pelo medo, que no contexto atual cresce de formas absurdas, tocando ainda mais nas feridas profundas dos indivíduos que estão se sentindo ameaçados por todos aqueles que validam as posições de Jair Messias Bolsonaro. Indivíduo que em diversas ocasiões já declarou ser contra a existência de pessoas LGBTQIA+, usando da sua posição de poder para propagar a intolerância. Seguem algumas de suas varias frases LGBTfobicas:

Ao ser estrevistado por Stephen Fry:
“Não existe homofobia no Brasil”

Quando foi questionado em relação ao respeito direcionado aos cidadãos LGBTQIA+:
“Que respeitar homossexual. Eles que tem que nos respeitar”

Ao se referir à filhos de casais homossexuais:
“90% dos adotados vão ser homossexuais e vão ser garotos de programa deste casal”

Para uma entrevista da Playboy:
“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”

Ao ser perguntado como reagiria se alguém de sua família “se assumisse gay”:
“Seria problema dele. Se essa fosse sua opção para ser feliz não estaria (nem poderia) ser proibido por mim mas, certamente, não iria me convencer a frequentar minha casa”

Ao ser perguntado sobre o que achava dos movimentos em defesa da liberdade de orientação sexual:
“Eu estou me lixando para esse pessoal. Criaram aí a frente parlamentar de combate à homofobia, frente gay aí. O que esse pessoal tem para oferecer para a sociedade? Casamento gay? Adoção de filhos? Dizer que se seus jovens, um dia, forem ter um filho, que se for gay é legal? Esse pessoal não tem nada a oferecer.”

Declaração à Folha de São Paulo, após o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso apoiar a união estável “entre homossexuais”:
“Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”

Em um debate para a TV câmara:
“O filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro e muda o comportamento dele.”

As afirmações ganharam força e hoje representam o que diz o atual candidato a presidência, em que tal comportamento refletiu em muitos de seus apoiadores, gabaritando as suas atitudes LGBTfobicas e permitindo a escalada do genocídio contra essa comunidade. Em 2017 uma pessoa LGBTQIA+ morreu a cada 19 horas. Foram 445 mortes. Dessas, 32 espancamentos, 22 asfixias, 136 mortes relacionadas a arma de fogo. Os dados contam ainda com a morte de 12 heterossexuais, que de alguma forma estão ligados com o genocídio, seja por terem sido “confundidos”, seja por estarem próximos durante alguma tentativa de assassinato. Estaríamos nós realmente mais seguros com a flexibilização da posse de armas?

 

Itaberli Lozano, morto a facadas e queimado pela mãe

Rafael Melo, morto a pedradas

Luana Santos, morta após ser espancada por PMs

Dandara dos Santos, linchada, teve sua morte filmada ao ser enterrada viva

Quem matou Marielle Franco?

O fato é que as vidas LGBTQIA+ estão sendo tiradas e a cada ano mais e mais se vão. Tendo um presidente tão intolerante as mortes não vão diminuir, apenas aumentar. Por isso nos pronunciamos através desse contra todo e qualquer ato de violência direcionado as pessoas de minorias sexuais e identitárias, manifestando ainda o repúdio contra o genocídio histórico que ocorre desde o processo de colonização. O PIRATAS é a favor da vida e em seu programa defende as liberdades individuais.

Segue a cláusula 26 do PROGRAMA PIRATA:

Diversidade sexual e de gênero
É função do Estado coletar dados sobre sexo e gênero, critérios a serem analisados distintamente, para a promoção de políticas públicas. Sendo assim, em vez de sexo e gênero serem registrados automaticamente pelo governo, as pessoas devem ter a possibilidade de auto-declaração e criação de categorias, tendo o direito à abstenção.
Que toda criança ao ter seu nascimento registrado não tenha gênero e/ou sexo declarado. A determinação da identidade de gênero não deve ser feita pelas pessoas genitoras ou responsáveis legais de uma criança, e sim declarada pela própria ao atingir o discernimento necessário sobre a questão. A morfologia biológica de uma pessoa não deve ser objeto de divulgação pública por meio dos documentos oficiais, ao invés disso deve ser informada apenas em casos de necessidade médica. Que cada pessoa tenha direito à livre auto-determinação de identidade sexual e de gênero e que tais identidades auto-determinadas recebam reconhecimento e proteção universais e irrestritas. Piratas defendem que tal reconhecimento implica no direito à mudança do nome nos documentos oficiais (RG, CPF, certidões de nascimento e casamento, etc.), atendendo à necessidade de aceitação social pública da identidade auto-determinada. Apesar de sermos contra a definição de gênero nos documentos oficiais, pragmaticamente, enquanto houver essa definição, a redefinição deve poder ser solicitada pela própria pessoa a qualquer momento e quantas vezes isso for desejado, sem necessidade de avaliação médica ou decisão judicial. A solicitação deve ser atendida com o mínimo de burocracia.

Também pautamos:
I. Reconhecimento do intergênero e do gênero neutro como opções válidas de identidade de gênero, reconhecidas juridicamente;
II. Compromisso com os movimentos ALGBTI (Assexuais, Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans* e Intersexuais) no diálogo e na cooperação;
III. O combate a todas formas de opressão direcionadas à sexualidade ou gênero, tanto em suas expressões físicas quanto verbais e morais;
IV. A adoção de programas permanentes de conscientização da diversidade sexual e de gênero no ensino básico, assim como a adoção de políticas públicas nesse sentido;
V. Adoção de programas sociais e educativos que favoreçam a permanência de jovens ALGBTI na escola até a conclusão do ensino básico e incentivem sua entrada no ensino superior;
VI. A adoção de programas de facilitação da inserção e permanência no mercado de trabalho formal para as comunidades ALGBTI, e combate a todas as formas de discriminação no ambiente de trabalho;
VII. A concessão de asilo político a pessoas perseguidas devido à sua orientação e/ou identidade sexual e de gênero, sem que tal direito seja condicionado à exigência de prova da identidade ou orientação sexual;
VIII. Que orientação e identidade sexual e/ou de gênero destoantes do normatismo social majoritário não devam nunca ser classificadas como doença, perversão ou crime.

Luta e resistência,

Ahoy!

Referências Bibliográficas

Breve histórico da imprensa homossexual no Brasil, Marcus Antônio Assis Lima

Homossexualidade indígena no Brasil: Um roteiro histórico-bibliográfico, Estevão Rafael Fernandes
Dept. de C. Sociais/ Univ. Fed. de Rondônia

Devassos no Paraíso – A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade, João Silvério Trevisan

‘Monstro, prostituta, bichinha’: como a Justiça condenou a 1ª cirurgia de mudança de sexo do Brasil e sentenciou médico à prisão – matéria BBC Brasil – https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/31/opinion/1541012773_439954.html

A história de Luana: mãe, negra, pobre e lésbica, ela morreu após ser espancada por três PMs – matéria da Ponte – https://ponte.org/a-historia-de-luana-mae-negra-pobre-e-lesbica-ela-morreu-apos-ser-espancada-por-tres-pms/

Suspeitos de matar jovem e queimar corpo, mãe e padrasto são presos – matéria do G1 – http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2017/01/suspeitos-de-matar-jovem-e-queimar-corpo-mae-e-padrasto-sao-presos.html

100 frases homofóbicas de Jair Bolsonaro – Revista do A – https://revistaladoa.com.br/2016/03/noticias/100-frases-homofobicas-jair-bolsonaro/amp/


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