Google e outros gigantes da tecnologia estão comprando na surdina a parte mais importante da internet

texto por Tyler Cooper, link original aqui

 Imagem em destaque por ANDER GILLENEA/Getty Images

O Google produz bilhões de dólares com sua plataforma em nuvem. Agora, está usando esses bilhões para adquirir a própria internet – ou ao menos os cabos submarinos que compõem a espinha dorsal da internet.

Em fevereiro, a empresa anunciou sua intenção de seguir adiante com o desenvolvimento do cabo Curie, uma nova linha submarina que iria da Califórnia ao Chile. Será o primeiro cabo intercontinental privado construído por uma grande empresa fora do setor de comunicações.

E se você der uma olhada no retrovisor para os cabos intercontinentais já construídos, muitos deles já foram completamente financiados pelo Google; foi uma das primeiras empresas a construir uma linha submarina totalmente privada.

E o Google não está sozinho. Historicamente, as linhas de transmissão já pertenciam a grupos de empresas privadas – em sua maioria provedores de telecomunicações – mas em 2016 viu-se o o começo de uma grande expansão de linhas submarinas, e dessa vez, os compradores são provedores de conteúdo. Corporações como Facebook, Microsoft e Amazon parecem compartilhar com o Google as aspirações de domínio do fundo-do-mar.

Tenho acompanhado a evolução dessa tendência, já que eu mesmo estou nesse ambiente de banda larga, e os movimentos mais recentes são de fato preocupantes. O controle da espinha dorsal da internet por grandes empresas de tecnologia terá implicações de longo alcance, mas familiares. É a mesma relação de consumo já conhecida, mais conveniência por menos controle – e também menos privacidade.

Estamos à beira do próximo nível de maturidade da internet, em que apenas os maiores participantes e mais inclinados sobre o sistema conseguem sucesso na mídia.

Muito em breve, consumidores terão de decidir exatamente quanta confiança querem depositar nessas empresas para construir a internet do futuro. Precisamos decidir também com cuidado, pois essas são as mesmas empresas que estão ganhando acesso a uma porção cada vez maior de nossa vida particular.

 

Colocando um muro no jardim

Se você quiser medir a extensão física da internet, um bom começo são os cabos submarinos de fibra ótica. Esses singelos cabos cruzam o fundo do mar no mundo todo, levando de 95 a 99% de toda a informação internacional através de maços de fibra ótica do diâmetro de mangueiras de jardim. Juntando tudo, há mais de 1.000.000 km (um milhão!) de cabos submarinos em uso.

Enquanto no passado os investidores alavancaram a posse dos cabos para vender espaço de banda, hoje os provedores de conteúdo implantam linhas privadas deliberadamente.

É comum explicar a internet como uma nuvem. Na verdade, é um conjunto de tubos frágeis e molhados, e o Google está prestes a possuir uma quantidade alarmante deles. Os números falam por si: o Google será proprietário de quase 17.000km de cabos submarinos quando a linha Curie estiver pronta, no final do ano. Essa soma dispara para além de 100.000km quando incluímos os cabos do Google em consórcio com Facebook, Microsoft e Amazon. Inlcuindo essas linhas de propriedade compartilhada, a empresa tem infraestrutura submarina suficiente para dar duas voltas e meia ao mundo na linha do Equador (e com folga).

 

O impulso dos projetos submarinos do Google

Essa rápida expansão das linhas subarinas faz mais sentido se olharmos para o crescimento do tráfego na internet na última década.

No Atlântico e no Pacífico, provedores de conteúdo responderam por mais da metade do total da demanda em 2017. O uso de dados desses provedores subiu como um foguete, de menos de 8% para quase 40%, nos últimos 10 anos.

Leve-se em consideração que esses índices são consideravelmente menores na África e no Oriente Médio, sugerindo que o apetite de países desenvolvidos por conteúdo em vídeo e aplicativos em nuvem é uma locomotiva dessa tendência. Uma evidência disso é o uso generalizado de banda internacional entre países. Em 2017, a Índia usou apenas 4.977 Mbps de banda internacional. Os Estados Unidos usaram nesse mesmo período assombroses 4.960.388 Mbps.

 

O custo da infraestrutura privatizada

Assim como a remoção da neutralidade de rede, a privatização da infraestrutura de internet trouxe apenas redução de preços ao consumidor. O problema que enfrentamos agora é de ordem moral: queremos uma internet privada?

Ou queremos manter o faroeste que temos até agora? Infelizmente, a questão não é tão simples como dividir as otimizações da rede entre vilões e mocinhos. Práticas como edge networking e zero-rating são cruciais para os modelos de negócios de empresas como Netflix e AT&T – e tecnicamente elas também não violam nenhuma regra, e tem prestado serviços muito melhores aos seus clientes.

Ao olharmos para o futuro, precisamos começar a nos perguntar com que a internet vai se parecer de fato caso os serviços de conteúdo que já direcionam tanto nossa atenção passem a controlar também a estrutura da internet. Essa infraestrutura privatizada pode trazer benefícios fabulosos aos consumidores no curto prazo, mas será que não há um custo que não estamos deixando de lado?

 

Texto bônus: O custo da infraestrutura privatizada

Por Andre Sobral

Esse boom de cabos submarinos faz mais sentido quando olhamos para o crescimento de tráfego que aconteceu na década passada. No Atlântico e Pacífico, produtores de conteúdo representavam mais da metade da demanda total em 2017. Dados enviados por produtores de conteúdo decolaram de menos de 8% para quase 40% dos dados nos últimos dez anos. Devemos perceber aqui, que os dados são significantemente menor para África e Oriente Médio, sugerindo que a fome das nações desenvolvidas por conteúdo em vídeo e aplicativos em nuvem que impulsionaram essa tendência. Isso é reforçado pelo uso geral de banda internacional entre países. Em 2017, a Índia só utilizava 4,977 Mbps da banda internacional. Os EUA usaram incríveis 4,960,388 Mbps no mesmo ano.

Como a remoção da Neutralidade a Rede, privatizar a infraestrutura da internet apenas reduziu os preços para consumidores. O dilema que enfrentamos agora é um moral: Nós queremos uma internet privada? Ou nós queremos preservar o “Oeste Selvagem” da rede que nós tivemos até esse ponto?

Infelizmente, a pergunta não é tão simples quanto desenhar uma linha entre “boas” e “más” otimizações de rede. Práticas como “edge networking” (Internet das coisas e processamento local de dados) e “zero-rating” (oferecimento de internet e ou serviços sem custo ou pagos através de propagandas) são críticas para o modelo de negócios de empresas como Netflix e AT&T – eles também tecnicamente não violam as regras, e em última instância entregam serviços muito melhores aos clientes.

Enquanto olhamos para o futuro, precisamos começar a nos perguntar como que a internet deve ser enquanto os serviços de conteúdo que já controlam tanto de nossa atenção passarem a controlar o esqueleto da internet também. Infraestrutura privatizada pode nos trazer benefícios inimagináveis no curto prazo, mas não há outro custo que nós não estamos considerando?

 

Tyler Cooper é especialista em política do consumidor e editor no BroadbandNow. Ele tem mais de uma década de experiência em IT e networking, tem escrito sobre problemas da rede como o abismo digital, a neutralidade da rede, cibersegurança e acesso a internet desde 2015.

André Sobral é sociólogo e doutorando em Informática e Sociedade pelo Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Kommentare

One comment for Google e outros gigantes da tecnologia estão comprando na surdina a parte mais importante da internet

  1. Satyr commented at

    Eu não sei do que eu rio mais… Da parte que as pessoas não sabem que 99% dos cabos submarinos são privados (até os militares), ou da parte que redução de preço ao consumidor é ruim…

    E a Disney Plus vai oferecer streaming a 6,99 USD, 1 hora de salário mínimo para pagar o mês inteiro… A Netflix não pode supostamente fechar por causa da “neutralidade”, ela pode fechar pois não vai ter capacidade de concorrer com preços mais baixos e produtos de mais qualidade.

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