Entrevista com o líder do Partido Pirata do Reino Unido, Loz Kaye

Segue entrevista com Loz Kaye, líder do Partido Pirata no Reino Unido, publicada em 21/01/2014 no site britânico Shout Out UK:

Loz Kaye

1. Conte-nos um pouco sobre o Partido Pirata do Reino Unido? Ele é intimamente ligado ao movimento Pirata internacional?

O Partido Pirata do Reino Unido foi criado em 2009, após o sucesso rompante do Partido Pirata sueco elegendo eurodeputados. Sua postura jovem, fresca, ligada em tecnologia e provocadora foi uma verdadeira lufada de ar fresco.

Nós pensamos em nós mesmos como um movimento coletivo. O partido do Reino Unido é membro da Internacional dos Partidos Pirata formado por grupos com mentalidade semelhante em todo o mundo. Ele possui representantes eleitos na Islândia, Alemanha, República Checa, Suécia, Áustria e Espanha.

2. Quais são os principais objetivos do Partido Pirata do Reino Unido?

É ser um lar para aqueles que se sentem politicamente desabrigados. Nós somos o primeiro partido genuinamente do séc. XXI, nascido na Internet. Então, muitas de nossas questões fundamentais são direitos digitais, oposição à vigilância em massa, a abertura dos benefícios da tecnologia para todos. Mas também pensamos sobre como conseguirmos todos uma parte justa na sociedade e consertarmos nosso sistema político falido.

Somos apaixonados por envolver o público em geral na democracia e na política. O processo de elaboração coletiva e aberta do nosso Manifesto em 2012 foi diferente de qualquer outra coisa na política do Reino Unido, envolvendo milhares de pessoas contribuindo, discutindo e refinando. Todo mundo tem algo a contribuir em nossa sociedade e essa é a hora para um partido que reflita isso.

3. Como você se sentiu quando se tornou líder do Partido Pirata do Reino Unido? É difícil liderar um partido nanico no Reino Unido?

Estou feliz que os membros tenham me apoiado como líder – afinal, é o partido deles, não o meu. E, para ser honesto, quando fui eleito pela primeira vez em 2010, foi meio que uma surpresa. Eu sempre fui interessado em política, mas tinha a ideia de que isso era algo que outras pessoas faziam. Você sabe, aquelas em organizações e instituições e com formação em política. Mas, no fim das contas, a política é importante demais para ser entregue aos políticos.

Acho que isso é uma das coisas mais gratificantes que já fiz, eu diria para quem reclama sobre os políticos: “vá lá e veja o que você pode fazer”. A coisa mais difícil é que nós somos todos ativistas e administrar um partido e concorrer a eleições consome muito tempo. Fico impressionado com a dedicação das pessoas do Partido Pirata e sua paixão frequentemente.

4. Você consegue ver o Partido Pirata do Reino Unido tendo um parlamentar eleito em breve?

Estamos à frente de onde esperávamos estar nesta fase. Nos últimos anos, temos batido em partidos muito maiores com um apoio significativo, como LibDems, Respect, BNP e UKIP. O próximo passo será muito mais difícil e precisamos expandir nossa base de apoio e número de filiados antes que possamos alcançar as vitórias que temos que obter. O plano para 2014 é fazer o partido crescer. O que eu sei é que há um monte de gente lá fora insatisfeita com o status quo – e, se nós não o desafiarmos, quem o fará?

5. Você acredita que o apoio e sucesso do seu partido está sendo cortado e reduzido pelo sistema de maioria relativa?

A maioria das pessoas realmente não dá a mínima para sistemas de votação. O maior problema é a raiva e o ceticismo compreensíveis sobre política, o que implica um comparecimento cada vez menor. A verdadeira barreira são as promessas quebradas, os escândalos de despesas e as estúpidas eminências pardas. Isso significa que os eleitores acham difícil confiar em alguém, o trabalho de reconquistar essa confiança é enorme.

É claro que o sistema atual não reflete as ideias reais da população. Nós apoiamos a reforma por essa razão, não para tornar as coisas mais fáceis para nós mesmos. No entanto, os LibDems acabaram com a melhor chance de mudança que tivemos em uma geração com o referendo do voto alternativo, então eu não acho que veremos uma mudança no sistema de maioria relativa no futuro imediato.

6. Quais sãos suas visões sobre os rumos da Lei Cameron de Censura na internet?

Nós alertamos David Cameron meses atrás de que um “Grande Firewall Britânico” teria consequências graves. Destacamos que o padrão da filtragem resultaria em bloqueio demais e de menos. Que sites inocentes seriam censurados. Que os usuários de Internet ficariam confundidos. Que os próprios pais de crianças o rejeitaram em uma consulta.

Com certeza, a investigação do Newsnight sobre filtragem mostrou bloqueios ao Centro de Estupro e Abuso Sexual de Edimburgo, ao Disque-Socorro para Abuso Doméstico de Doncaster, ao Saúde Sexual da Escócia, entre outros.

No fim das contas, você não pode simplesmente terceirizar a política social para o BT (Telecomunicações Britânicas, na sigla em inglês). Os provedores de internet não são nossos guardiões morais, nem deveriam ser.

7. Você acha que o “Firewall Britânico” serve de fato para proteger as crianças, ou é algo mais sinistro?

O “Firewall Britânico” não protege as crianças, já que nenhum bloqueio é 100% eficaz. Cameron vem enganando os pais. Além disso, os jovens estão sendo impedidos de procurar a ajuda de que necessitam, por exemplo, com o bloqueio de sites que visam jovens LGBT.

Essa política nasce do estilo tea party dos EUA de ignorância puritana. Claire Perry ignorou deliberadamente o conselho de todos que realmente sabiam alguma coisa sobre como funciona a Internet em sua cruzada. Acho realmente alarmante que esse tipo de política que celebra ignorar as evidências esteja tomando conta deste país.

Não pode haver dúvidas de que este governo está interessado em controlar o que lemos e como nos comunicamos na Internet. Uma das primeiras respostas aos tumultos de verão em 2011 foi Cameron culpar as mídias sociais. A estratégia de “prevenção” ao terrorismo afirma que “a filtragem da Internet em toda a arena pública é essencial.”

8. O último chefe do MI5 afirmou que “o povo britânico tem mais com o que se preocupar em relação à sua própria política de estado, do que com relação a terroristas”. Você concorda com isso?

Os dados brutos certamente confirmam isso. Ao longo da última década a Inquest registrou que houve 515 mortes no Reino Unido sob a custódia da polícia e por outras causas, tais como perseguições, incidentes de trânsito e tiroteios. No mesmo período, houve 58 mortes nas mãos de terroristas no Reino Unido, mais uma vez, dependendo de como você o define.

Isso tem consequências graves tanto para os indivíduos, as famílias em luto e a comunidade em geral. As circunstâncias em torno do assassinato de Mark Duggan foram complicadas, confusas e trágicas. Mas o que nos resta depois do veredicto do inquérito é que é lícito atirar em um jovem negro desarmado.

Felizmente, tais incidentes continuam raros em nosso país e devemos trabalhar para mantê-los dessa forma. Para mim, o perigo para todos nós é o clima de medo que cresceu em torno da “guerra ao terrorismo”. É isso é que está sendo usado para justificar a vigilância em massa, o que nos transforma todos os cidadãos em suspeitos.

9. Qual é a postura do Partido Pirata do Reino Unido sobre direitos de autor? Vocês concordam com as ações de sites tais como o Pirate Bay?

Direitos de autor, e todo o conjunto de regras que compõem a “propriedade intelectual”, são remanescentes de uma outra era. O ponto é que a web é, em essência, uma máquina copiadora gigante, portanto um sistema que cria valor através da restrição à cópia está em desacordo fundamental com a Internet. O problema mais urgente é que, para se agarrar a seus mercados, as grandes empresas de entretenimento vêm lançando mão de repressões draconianas ao redor do mundo do tipo “três strikes” para expulsar famílias inteiras da rede por infração, além de amplos poderes de bloqueio de sites.

Para destacar a futilidade dessas medidas, o Partido Pirata do Reino Unido hospedou um proxy do Pirate Bay. Isso até o corpo da indústria de música (o BPI) ameaçar a mim e ao resto da executiva nacional com o Tribunal Superior. Ainda não consigo acreditar que eles pensavam que, ao me arruinar financeiramente, o que teria sido a consequência, iriam conseguir alguma coisa.

Isso é importante para o resto do mundo porque nós sempre dissemos que, se você der a tribunais ou governos o poder de bloquear sites “piratas”, eles vão querer usar esse poder em outros lugares. 2013 provou que tínhamos razão.

10. Você acredita que os oficiais do governo estão completamente desatualizados quando se tratam de políticas em relação aos direitos autorais online e à internet?

Este governo e os políticos são terrivelmente ignorantes sobre as questões atuais que afetam a Internet. Ou é suporte para a imprensa obter oportunidades embaraçosas típicas de “The Thick of It” (seriado de TV que satiriza o funcionamento interno do governo britânico) ou uma fonte de perigo a cada situação.

Você não precisa ser um Alan Turing para ser o ministro responsável pela Internet. Mas você precisa ser capaz de ouvir as pessoas certas e ouvir os conselhos certos. Ed Vaizey, que é o atual responsável, falhou nisso.

11. O que o Partido Pirata do Reino Unido faria de diferente se fosse eleito?

Nossa proposta principal é limitar os direitos autorais a 10 anos. Esse é um compromisso de bom senso. Isso retiraria o incentivo para a indústria da música sentar em cima de catálogos e espremer as últimas gotas de músicos mortos, e a incentivaria a ter que buscar e promover novos e inovadores talentos. Bom para os artistas, bons para os negócios e bom para o público, pois muito mais arte estaria em domínio público.

12. Qual é a postura do Partido Pirata frente à UE e à Grã-Bretanha?

O primeiro-ministro grego disse sobre as próximas eleições europeias que “os eleitores vão escolher se querem ou não a Europa”. Nós queremos uma Europa, só que não esta.

Muitas questões fundamentais têm de ser decididas em nível internacional – do celular em deslocamento à pesca – goste o Sr. Farage ou não. Estou orgulhoso de que os Partidos Pirata em todo o continente defenderão o mesmo núcleo de políticas que abordam segurança, proteção de dados, comércio, tecnologia e reforma da UE. Estou contente que nós tivemos influência em idéias que serão colocadas aos eleitores de Praga a Preston.

Mas as instituições da UE devem ser reformadas e tornadas mais abertas e democráticas. Nós apoiamos um referendo sobre a adesão, que há muito está atrasado. Mas não se trata da renegociação de uma colcha de retalhos de poderes, trata-se de mudanças fundamentais. Caso contrário, as populações vão rejeitar todo o projeto.

13. Você acredita que os dois principais partidos políticos da Grã-Bretanha nos levaram a um loop infinito de grandes gastos e grandes cortes?

A incapacidade de enfrentar as verdadeiras causas do colapso em 2008 significa que a nossa economia e sociedade estão presas numa grande armadilha. À medida que salvamos os bancos e não a população, estamos acumulando problemas para os próximos anos. Nós estamos repetindo os mesmos erros de novo já que os preços das habitações aumentaram 7,5% no ano passado, impulsionados pelo esquema governamental de auxílio à aquisição de propriedades.

14. Você acredita em educação política nas escolas? Por quê?

Eu gostaria de ganhar um diploma para cada vez que eu ouvi “eles deveriam ensinar (assunto x) nas escolas.” Isso normalmente significa “Desejaria que todos fossem um pouco mais como eu, mas vou tornar isso o problema de outra pessoa.” Nossa política é defender que as escolas tenham a liberdade para escolher os métodos de ensino e materiais que considerem mais eficazes para garantir que seus alunos estejam bem equipados. Desejo que o Sr. Gove pare de interferir tentando empurrar a educação de volta para o séc. XIX. Quanto a jovens e política, é algo que tem que vir deles e ser orientado por eles. Não por escolas, partidos ou especialistas.

15. Alguma consideração final?

Se não votar mudasse alguma coisa, seria ilegal.


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