Do grito #fuckFIFA à queda de Joseph Blatter

texto de autoria de Bernardo Gutiérrez, publicado originalmente em futuramedia.net

Durante a Copa da FIFA 2014 uma gigantesca onda de indignação explodiu em todos os cantos do mundo. A mesma mídia que agora publica tudo sobre a queda do Joseph Blatter como máximo responsável da FIFA escondia então qualquer notícia sobre a corrupção e más práticas do principal órgão do futebol mundial. O grito de raiva contra a FIFA surgiu nas ruas e nas redes do Brasil. Depois chegou a expansão global. Os enviados especiais e correspondentes no Brasil focavam as crônicas no território brasileiro. Mas deixavam a FIFA quase intacta. O mundo interconectado não existia nas coberturas. No dia dois de julho de 2014 foi publicado um texto no Al Jazeera English titulado The anti-FIFA shout as a reconnection of global struggles sobre essa surpreendente conexão de lutas e movimentos do mundo (aqui versão em espanhol). O editor de Al Jazzera, curiosamente, eliminou o #fuckFIFA do título e do texto todo em inglês: “#fuckFIFA é o novo grito global. Nasce ocupando a lateral dos vagões de um trem no Rio de Janeiro e explode dentro de um cartaz de Bangalore, na Índia. Se escreve com laser numa projeção em um muro de Belém do Pará. Circula, abraçado por muitas mãos, pelas ruas de Atenas. Penetra como um vírus nas Fan Fest made in FIFA do Brasil, em cartazes gigantescos. Se mistura com as demandas de direitos civis nas praças de Turquia”.

mapafuckfifa

Mineração de dados: Alex González (Outliers Collective). Gráfico: Bernardo Gutiérrez. 25.429 tweets extraídos do hahstag #fuckFIFA entre o 26/03/2013 ao 30/09/2014. Programa: GEPHI

 

As campanhas dos Comitês Populares da Copa do Brasil e de outros coletivos brasileiros ganharam  o apoio de centenas de redes e coletivos do mundo. Por enquanto a repressão crescia nas ruas do Brasil, as redes digitais lançavam a sua ira contra a FIFA e seu apoio ao povo brasileiro. Poucos dias antes da inauguração da COPA, a rede @OccupyWorldCup (que se definia como “global activism for a World Cup of the 99%. Supporting Comites Populares da Copa”) irrompia nas redes digitais, ativando conexões globais ao redor da indignação anti FIFA. A hashtag #fuckFIFA, que estava sendo usada timidamente desde o ano 2013, virou o território de diálogo e ação de milhares de nós do mundo inteiro. E desordenou qualquer previsão das forças de segurança sobre a atividade dos movimentos sociais e ativistas brasileiros. Em português, a hashtag #NãoVaiTerCopa que surgiu durante as revoltas de junho do ano 2013, continuou sendo muito usado. Mas o #fuckFIFA foi o espaço comum de todas as línguas, países e lutas. A glocalidade – termo que define a mistura do local e do global – esteve presente no processo todo. O governo do Brasil – que ativou a narrativa #VaiTerCopa e que tentou criminalizar as vozes críticas contra a COPA – parecia não estar entendendo a explosão de indignação contra a FIFA, que não era exatamente contra o governo.

A continuação, são analisados os gráficos realizados a partir de um data set de 25.429 tweets do hashtag de Twitter #FuckFIFA, compilado e arrumado por Alex González, do Outliers Collective.

fuckFIFAbr

Em primeiro lugar, o gráfico reflete uma forte componente glocal. Não há muitas barreiras geográficas ou lingüísticas no diálogo existente no grito-território-hashtag #fuckFIFA, embora que o inglês seja a língua mais usada. O nó mais influente em todas as variantes do gráfico é @OccupyWorldCup, fortemente retuitado e citado. Usando parâmetros como a centralidade de grau (degree centrality) ou proximidade (closeness) OccupyWorldCup é com muita diferença o nó mais importante (e central) do gráfico. Porém, devido ao forte caráter midiático da Copa, usando ditos parâmetros, o gráfico estaria protagonizado também por parte da grande mídia, que usou a hashtag ou foi citada por outras contas, como ViceNews ou Al Jazeera English. Com o parâmetro closeness também aparecem contas tão heterogêneas como Anonymous Rio, @FotoMovimiento (15M Espana), @blogdiva ou @Calle13Oficial (René Pérez, Calle13) . Por isso, o parâmetro usado para a realização do mesmo foi a intermediação (betweenness centrality), que mede a frequência ou o número de vezes que um nó age como ponte ao longo do caminho mais curto entre outros dois nós. A intermediação revela importantes detalhes na conversa do #fuckFIFA.

Atrás de @OccupyWorldCup, aparecem como nós “mediadores” e “ponte” algumas contas internacionais independentes, habituais nas revoltas globais, como @syndicalisms, @enough14 (que ainda usa no seu perfil a foto do trem do Rio de Janeiro pintado com a frase “fuck FIFA” ), @deliri019 (uma conta brasileira), @newsrevo ou @OccupyBrazil (o nó brasileiro da onda de Occupy Wall Street) ou @takethesquare (uns dos braços internacionais do 15M espanhol). O pesquisador autônomo Pedro Mendes (@pebmen no Twitter), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e aos movimentos sociais, é a conta mais importante do Brasil na “intermediação”, o que prova o potencial da ferramenta Twitter, onde o diálogo transversal é possível, influente e explosivo. Outra característica revelada pelos gráficos do processo crítico contra a Copa é que a função estatística de modularidade (que acha as diferentes comunidades) não influi quase nada na topologia da rede. Apenas existem comunidades isoladas por idiomas, ideologias ou territórios. O @fotomovimiento é uma exceção, pois sendo uma conta relevante e muito replicada, não é vital na intermediação e aparece na periferia do gráfico.

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E como aparecem os movimentos, coletivos e redes brasileiras na conversa global do #fuckFIFA? Apesar de que o Facebook é muito mais popular que Twitter no Brasil, ditos coletivos têm um peso importante no processo. De fato, sem a indignação brasileira não teria existido nem o #fuckFIFA nem a campanha global. A rede – plataforma Occupy Word Cup (que hoje em dia mutou para @occupyolimpics) foi lançada desde o Brasil. Ademais do citado Pedro Mendes, no centro do gráfico (a região mais relevante da conversa) aparecem @OccupyBrazil, @BrnasRuas (surgida durante as jornadas de junho) ou @PersonalEscrito. Alguns dos movimentos, coletivos e redes mais ativos na luta contra os excessos da FIFA e os diferentes governos do Brasil (despejos, questões urbanas, direitos humanos…. ) continuam aparecendo visíveis no gráfico depois de aplicar um filtro de grau que elimina os nós de menor importância. Destacam o Rafucko, Das Lutas, Mídia dos Advogados Ativistas (@Midia_AA, desativada na atualidade ), @BrunoCava e Universidade Nômade, entre muitas outras contas. Não existiu, como afirmavam desde a base governista, uma “conspiração internacional” para desestabilizar o Brasil, se não uma indignação coral made in Brazil.

O estudo das redes do #fuckFIFA e das conversas revela alguns pontos chave das lutas sociais e indignações no Brasil. Além da característica glocal e da força do diálogo relacional, destacaria a transversalidade e coralidade do que poderíamos definir como una coreografia transnacional, não linear e agregadora que vai muito além das afinidades ideológicas de seus participantes. A tentativa do Governo do Brasil de polarizar entre os defensores e detratores da Copa não funcionou. A dicotomia, repetida meses depois durante a campanha eleitoral, era em boa medida artificial. A dura repressão nas ruas também não silenciou as críticas nos espaços digitais. Foi bem o contrário: a repressão potencializou as vozes críticas. Sem existir uma causalidade direta entre a explosão indignada #fuckFIFA – #NãoVaiTerCopa e a queda do Joseph Blatter e o desprestígio da FIFA, podemos afirmar que ditas campanhas e subjetividades foram de grande relevância. Os movimentos sociais e redes brasileiras, tão criticados pela base governista durante a Copa, têm uma importância central no fim da atual era da FIFA.

Esse texto forma parte do processo de pesquisa #tecnopolíticaLATAM realizado por Bernardo Gutiérrez para OXFAM.


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