OPINIÃO: Vale a pena atropelar as pessoas com deficiência para o bem delas?

por Hassan Ali

É praticamente gritante que a campanha que foi lançada hoje em Curitiba em nome de um suposto Movimento pela Reforma dos Direitos (MRD) é parte de um marketing viral.

Ubuntu?

Muitos elementos denunciam isso:

  • a sigla do movimento ‘MRD’ é ‘merda’ escrito sem as vogais;
  • o símbolo é igual ao do Ubuntu (ah, os danos morais que teriam de ser pagos se não fosse uma campanha viral);
  • o design dos cartazes é profissional e todos os textos são escritos sem erros gramaticais (algo inédito nas usuais campanhas discriminatórias);
  • os autores foram mantidos anônimos pelos sites e pelas agências envolvidas nos anúncios, arriscando eles mesmos serem implicados em denúncias pelo conteúdo divulgado (não fariam isso se não soubessem que se trata de uma campanha viral);
  • os autores vão apagando da página todos os comentários toscos e deixando só a indignação legítima, que alegam que será encaminhada para futuras iniciativas legislativas (só isso já revela um deslize na campanha, indicando que pretendem utilizar a indignação gerada contra a campanha para fundamentar algo positivo mais à frente);
  • a imprensa já sabia da coisa antes mesmo deles terem meia dúzia de curtidas, o que indica que teve release de imprensa antes do lançamento (os portais locais já estavam publicando a coisa quando a campanha tinha apenas duas curtidas, provavelmente dos próprios envolvidos).

Além de tudo isso, cabe lembrar que, ainda nesta semana, no dia 3 de dezembro, será celebrado o Dia Internacional das Nações Unidas Para As Pessoas com Deficiência, e que os temas deste ano são ‘cidades inclusivas e acessíveis’, ‘aperfeiçoando dados e estatísticas’ e ‘deficiências invisíveis’.

Tendo em vista tudo isso, tenho a impressão de que já não é mais a questão de saber se é ou não marketing viral, mas de saber quem foi que teve a brilhante ideia de promover conteúdos capacitistas durante vários dias, mesmo que sob o pretexto de se denunciar esse conteúdo, mas, acima de tudo, de saber se existe chancela pública ou mesmo dinheiro público envolvido nisso.

Porque, afinal de contas, envolver fundos públicos na criação e divulgação de uma campanha que dissemina conteúdos discriminatórios, com o único objetivo de gerar um efeito de choque e possivelmente de permitir aos criadores disputar prêmios de marketing social e ganhar reconhecimento e visibilidade para si mesmos, é algo que ultrapassa o limite daquilo que seria aceitável mesmo para uma campanha de uma agência privada, quanto mais se for uma campanha promovida por agentes públicos.

Tampouco seria surpreendente se os criadores da campanha não acabassem revelando que a ideia foi gestada ou aprovada ‘com a participação de pessoas com deficiência’ que ‘trabalham aqui na agência e até ajudam às vezes com a criação’ e que ‘não viram problema nenhum na campanha’ e até ‘deram a maior força’, mas que terão de desempenhar o papel de tokens para debelar a justificada revolta do público com a completa falta de noção dessa campanha.

É intolerável ver essa campanha desastrada se desdobrando por mais 3 dias. Já não importa saber o que será revelado no dia 3 de dezembro. Importa saber quem é responsável por promover a visibilidade de conteúdos discriminatórios ao longo de vários dias, mesmo que seja sob o pretexto de dar visibilidade à causa, que, no caso, é muito difícil de imaginar que não seja tão somente a causa própria dos próprios marketeiros.


Kommentare

6 comments for OPINIÃO: Vale a pena atropelar as pessoas com deficiência para o bem delas?

  1. Hugo Oliveira commented at

    Sou a favor em parte desse movimento, principalmente na questão que Obriga as empresas a empregarem deficientes. Quem não tem experiência e quer iniciar no mercado de trabalho em sua área de formação, não encontra mais vagas disponíveis, pois muitas estão destinadas a PCD ou PPD e p/ as vagas que restam (na área administrativa por exemplo) são contratados profissionais com experiência anterior. É um absurdo essa situação.
    Estou a procura de um abaixo assinado na internet a favor da redução da lei de cotas par deficientes nas empresas tendo em vista todo impacto negativo que ela tem causado na sociedade, mas não consigo encontrar em parte alguma, como a pessoas ainda não perceberam o quão grave isso é para geração de empregos do país? Mais uma vez os políticos criaram uma lei sem qualquer estudo sério e que acabou por prejudicar o povo, tudo para reduzir os gastos do da previdência com benefícios aos deficientes, pois já que trabalham não precisão receber mais do INSS, esse pensamento está correto, mas não é justo com outras parcelas da sociedade e por isso acredito que esta pauta deveria ser debatia amplamente antes de sua aprovação.

  2. Rafael Gomes commented at

    “Porque, afinal de contas, envolver fundos públicos na criação e divulgação de uma campanha que dissemina conteúdos discriminatórios, com o único objetivo de gerar um efeito de choque e possivelmente de permitir aos criadores disputar prêmios de marketing social e ganhar reconhecimento e visibilidade para si mesmos, é algo que ultrapassa o limite daquilo que seria aceitável mesmo para uma campanha de uma agência privada, quanto mais se for uma campanha promovida por agentes públicos.”
    .
    Este é um argumento que necessita ser demonstrado, especialmente por se sustentar em uma única premissa que pode, diga-se, ser perfeitamente falsa.

  3. armando netto commented at

    perfeita analise meu amigo, acho que fiquei mais irritado quando vi que era um “bait” feito Ja Pensando Em Prêmio do que nos primeiros momentos quando vi o outdoor.

    se fosse uma campanha pro dia ds consciência negra, botariam outdoor com ofensas racistas??? opa, quer dizer….. ja fizeram esse também

  4. Armação do Luzi vendido martins commented at

    Quem posto isso foi o DePUTAdo vendido ( vendeu seu voto contra aposentados estaduais e apoio PM bater nos trabalhadores) ..
    isso fede armaçaõ dele

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Diga aos deputados: não censurem nossa Internet

Olá congressista!

O projeto de lei 5.204/16 propõe o bloqueio de acesso a sites "precipuamente dedicados ao crime" hospedados no exterior e sem representação no Brasil, excluindo, expressamente, a possibilidade de bloqueio de aplicativos de troca instantânea de mensagens (sim, o WhatsApp).

Em sua justificativa, anexa ao projeto, argumenta-se que hoje, para se retirar do ar sites criminosos - incluindo aqueles de ponografia infantil e de tráfico de drogas - tem que se expedir uma carta rogatória (documento que pede cumprimento de ordem judicial brasileira no exterior) para o servidor. Por ser demorada, não seria medida adequada de combate a esses crimes, devendo-se, então, bloquear o acesso de brasileiros a tais sites.

Contudo, há um grande problema nessa lógica de combate ao crime: sites que cometem crimes hediondos e torpes, como a pornografia infantil, NÃO estão na internet normal (surface web), e sim na internet não-indexada (deep web). O que isso quer dizer? Que não há como bloquear acesso a esses sites pelas medidas propostas pelo PL. E mesmo que essas trocas de material ilegal na internet esteja sendo feita em território brasileiro, a justiça já tem meios para combatê-las (a operação DarkWeb II da Polícia Federal,  de combate a pornografia infantil online, criminalizada no art. 241-A do Estatuto da Criança e Adolescente, estourou no dia 22/11/2016).

Ou seja, a título de combate a crimes graves, estão dando de um jeitinho de bloquear sites que desatendem aos interesses da indústria fonográfica, punindo a população ao dificultar acesso à informação, cultura e conhecimento.

Ainda que a primeira coisa que venha à mente nessas situações sejam os sites que disponibilizam filmes e séries inteiras para download ilegal, como o MegaFilmesHD e outros sites que já foram fechados, o PL não é nada claro com relação ao que seria considerado um provedor "precipuamente dedicado à pratica de crime", e as violações estabelecidas pela Lei de Direitos Autorais não se limitam ao compartilhamento ilegal de obras protegidas.

Na verdade, está bem longe disso.

A utilização derradeira de determinadas obras protegidas para produção de alguns tipos de obras derivadas –como remix de músicas, fotos para memes e vídeos que utilizam trechos de filmes para desenvolver críticas a eles (O Partido Pirata até já satirizou a #CPICIBER através de um vídeo) – não é permitida pela lei, consistindo em violação ao direito autoral, o que é abrangido pelo PL em questão. A utilização pode ter finalidade lucrativa ou não, o autor da obra derivada pode ser profissional ou amador - não importa, não pode! É possível que esse tipo de utilização bastasse para justificar o bloqueio de determinado provedor de aplicação.

Plataformas que viabilizam o compartilhamento desse tipo de conteúdo em massa e que poderiam eventualmente ser bloqueadas pelo PL são: o Vimeo (plataforma de vídeos); O YouTube (plataforma de vídeo); o SoundCloud (plataforma de músicas); o Flickr (plataforma de fotografia); o MemeGenerator (site que facilita a elaboração de memes) e até mesmo sites dedicados ao compartilhamento de FanFiction –outro tipo de manifestação cultural que é considerada ilegal pela Lei de Direitos Autorais. Nesse sentido, o bloqueio proposto pelo PL 5.204/16 é problemático sob quatro óticas distintas: para os provedores de aplicação, para os autores dos conteúdos, para os usuários e para o interesse público como um todo.

Para os provedores de aplicação, a medida é desproporcional, pois enseja no bloqueio de todos os seus serviços no país, independente de parte dele estar dentro da legalidade ou não. Por exemplo, o SoundCloud, caso bloqueado, o será por completo, apesar de servir também como plataforma para o compartilhamento de obras de forma legal. Já o YouTube poderá ser censurado por disponibilizar vídeos de paródias de músicas, trailers feito por usuários, etc.

Para os autores, o grande problema é a insegurança jurídica gerada pela medida. Como muitas das utilizações não são permitidas pela lei atual, não é possível saber até que ponto elas serão usadas para bloquear o acesso a suas obras. No mais, criadores de conteúdo que produzem obras completamente permitidas pela lei e disponibilizam-nas nessas plataformas serão penalizados por causa daqueles que compartilham obras de forma ilegal. Já para os usuários, a medida é problemática por prejudicar o livre acesso à internet e o acesso às demais obras (legais) hospedadas nessas plataformas –elementos essenciais do direito constitucional de acesso à cultura.

E, por último, para o interesse público, o PL é potencialmente ainda mais perigoso, já que o bloqueio a determinados serviços, com a justificativa de violação ao direito autoral, pode ser utilizado para cercear a liberdade de expressão. O exemplo dos vídeos que utilizam trechos de filmes para criticá-los é ilustrativo, mas grandes produtoras cinematográficas poderão solicitar o bloqueio de sites que hospedem esse tipo de vídeo com o argumento de que seus direitos autorais foram violados.

Este projeto de lei, portanto, se caracteriza como uma medida de combate direto à cultura de compartilhamento, já difundida na nossa geração. O objetivo explicitado no anexo fica em segundo plano, deixando margem para interpretá-lo apenas como um pretexto. Sendo assim, pode-se dizer que não é exagero especular que se trata de uma manobra movida pelo lobby da indústria audiovisual para esconder uma medida conhecidamente impopular.

Assine a petição, entre em contato com seu deputado: lute por uma Internet Livre e contra projetos de censura!

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