Economia do compartilhamento substituirá o capitalismo, diz livro

Trecho do livro “Sociedade com Custo Marginal Zero”, do futurólogo americano Jeremy Rifkin, que prevê a substituição do capitalismo pela economia do compartilhamento:

“O capitalismo está dando à luz uma descendência. Chama-se economia do compartilhamento. Esse é o primeiro novo sistema econômico a entrar no palco mundial desde o advento do capitalismo e do socialismo. A economia do compartilhamento já está mudando a forma como organizamos a vida econômica, oferecendo a possibilidade de reduzir drasticamente a divisão de renda, democratizar a economia global e criar uma sociedade mais ecologicamente sustentável.

Mercados estão começando a dar lugar a redes, a posse está se tornando menos importante do que o acesso, a busca do interesse próprio está sendo moderada pela pressão de interesses colaborativos e o tradicional sonho de enriquecimento financeiro está sendo suplantado pelo sonho de uma qualidade de vida sustentável. Os jovens colaborativistas estão tomando emprestado as virtudes do capitalismo e do socialismo e eliminando a natureza centralizadora tanto do livre mercado quanto do estado burocrático.

Esses jovens não apenas produzem e compartilham as próprias informações, entretenimento, energia renovável, imprimem em 3D e frequentam cursos online abertos a um custo marginal próximo de zero. Eles também compartilham carro, casa e até roupas em sites de mídia social, locadoras, clubes de redistribuição e cooperativas a um custo marginal baixo ou de quase zero.

Jovens empreendedores criam empresas ecologicamente sensíveis e novos negócios com a ajuda do crowdfunding. Com isso, o ‘valor de troca’ no mercado está cada vez mais sendo substituído pelo ‘valor de compartilhamento’. À medida que mais jovens passam a compartilhar seus bens e serviços, as regras que regem uma economia de mercado se tornam menos relevantes para a vida da sociedade como um todo.

Na fase atual, estamos testemunhando o surgimento de uma economia híbrida. Uma parte é uma economia de mercado capitalista e a outra é uma economia compartilhada. Mas, mesmo nesse momento muito inicial, tem se tornado cada vez mais claro que o sistema capitalista, que forneceu uma narrativa tão convincente da natureza humana, atingiu o auge e começou seu lento declínio.

Embora os indicadores da grande transformação para um novo sistema econômico ainda sejam suaves e, em grande parte, anedóticos, a economia de compartilhamento está em ascensão e, em 2050, provavelmente terá se estabelecido como principal árbitro da vida econômica. Um sistema capitalista cada vez mais ágil continua­rá a prosperar, encontrando vulnerabilidades para explorar, principalmente como um agregador de serviços de rede e soluções.

Entendo que isso pareça totalmente inverossímil para a maioria das pessoas, de tão condicionados que nos tornamos à crença de que o capitalismo é tão indispensável para nosso bem-estar quanto o ar que respiramos. Mas, a despeito dos esforços de economistas ao longo dos séculos para atribuir as premissas operacionais do capitalismo às mesmas leis que governam a natureza, os paradigmas econômicos são apenas construções do homem, não fenômenos naturais.

A razão de ser do capitalismo é levar cada aspecto da vida humana para a área econômica, na qual é transformado em uma mercadoria que será negociada como um bem. Muito pouco do esforço humano escapou dessa transformação. A comida que comemos, a água que bebemos, os artefatos que produzimos e usamos, as relações sociais em que nos envolvemos, as ideias que trazemos à luz, o tempo que gastamos e até mesmo o DNA que determina tanto do que somos, tudo foi lançado no caldeirão capitalista — sendo reorganizado, precificado e levado ao mercado.

Durante a maior parte da história, os mercados eram pontos de encontro ocasionais onde bens eram negociados. Hoje, praticamente cada aspecto de nossa vida cotidiana está de algum modo conectado a trocas comerciais. O mercado nos define. E, numa economia de mercado, o lucro é obtido nas margens. Por exemplo, como autor, vendo meu produto de trabalho intelectual para uma editora.

O livro, então, passa por diversas mãos em seu caminho até o consumidor, incluindo serviços de editoração e impressão. Cada parte envolvida no processo aumenta o custo da transação ao incluir uma margem de lucro. Mas e se o custo marginal de produzir e distribuir um livro despencasse para praticamente zero? Na verdade, isso já está acontecendo. Um número crescente de autores está escrevendo livros e disponibilizando-os por um preço muito baixo, ou até mesmo de graça, na internet.

Momento histórico

Atualmente, mais de um terço da raça humana está produzindo a própria informação e compartilhando-a por meio de vídeos, áudios e texto por um custo marginal próximo de zero. Essa revolução está começando a afetar setores como a indústria e a educação. Falo da impressão 3D e dos cursos online. Já existem milhões de consumidores que se tornaram produtores, gerando a própria energia renovável por um custo marginal próximo de zero.

Dentro das próximas duas ou três décadas, esses produtores-consumidores estarão produzindo e compartilhando energia renovável, assim como bens físicos e serviços. E, dessa forma, levando a economia mundial a uma nova era: um tempo em que as coisas serão praticamente gratuitas. Com isso, o mercado capitalista continuará a encolher. Empresas com fins lucrativos sobreviverão somente à margem da economia, com uma base reduzida de clientes de produtos e serviços altamente especializados.

A relutância atual em lidar com o advento do custo marginal próximo de zero é compreensível. Para poder entender as imensas mudanças econômicas, sociais, políticas e psicológicas que deverão vir é útil comparar este momento a outros igualmente disruptivos, como a passagem da economia feudal para a de mercado no final da Idade Média e, novamente, da economia de mercado para a economia capitalista na era moderna.”


Kommentare

3 comments for Economia do compartilhamento substituirá o capitalismo, diz livro

  1. Nave da Vertente commented at

    Escrevi um livro – A Admirável Cidade Rural – dividida em Núcleo, setor 1 e setor 2. Ou seja, no núcleo morariam as pessoas de comportamento meritório e idealistas, em termos de convivência sadia, criatividade, proteção à infância e à velhice,bem como capitalismo comunitário. No setor 1,fixariam residência as pessoas de baixo comportamento meritório mas com a firme necessidade de adquirirem o comportamento dos habitantes do núcleo.E no setor 2 morariam as pessoas desejosas de continuarem com os mesmos vícios de suas cidades de origem: capitalismo selvagem, corrupção política e econômica e praticamente nenhuma vida ligada à espiritualidade. Ou seja, a cidade não seria dividida em 3 classes sociais baseadas na renda per capita e sim em 3 comportamentos diferentes.Edição eletrônica gratuita em nossanave33@gmail.com

  2. Assis Utsch commented at

    Quando o empresário junta sua iniciativa e sua capacidade para empreender, ele agrega capitais próprios e/ou de terceiros, matéria prima ou insumos, e contrata força de trabalho. E nesse processo – se tiver sucesso – ele estará se enriquecendo e simultaneamente criando bens e riquezas, utilidades, satisfazendo necessidades, remunerando trabalhadores, fornecedores, financiadores, transportadores, distribuidores, locadores, assistentes técnicos, pagando impostos, taxas, encargos sociais… . Embora todos esses custos sejam repassados ao consumidor, este se beneficia com a aquisição do produto final; e tal dinâmica sempre se iniciará com um empresário, um capitalista.
    Será que toda essa complexidade poderá ser substituída por compartilhamentos ? A propósito, toda essa gente que oferece suas ações colaborativas só o fazem porque têm atrás de si um suporte econômico. Desde Thomas Morus, passando por Max e muitos outros, todos previram o fim do capitalismo e isto não aconteceu.
    Ademais, o escambo – a troca de produtos por produtos é impraticável. Todos precisamos de dinheiro, e só o capitalismo gera dinheiro.

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Diga aos deputados: não censurem nossa Internet

Olá congressista!

O projeto de lei 5.204/16 propõe o bloqueio de acesso a sites "precipuamente dedicados ao crime" hospedados no exterior e sem representação no Brasil, excluindo, expressamente, a possibilidade de bloqueio de aplicativos de troca instantânea de mensagens (sim, o WhatsApp).

Em sua justificativa, anexa ao projeto, argumenta-se que hoje, para se retirar do ar sites criminosos - incluindo aqueles de ponografia infantil e de tráfico de drogas - tem que se expedir uma carta rogatória (documento que pede cumprimento de ordem judicial brasileira no exterior) para o servidor. Por ser demorada, não seria medida adequada de combate a esses crimes, devendo-se, então, bloquear o acesso de brasileiros a tais sites.

Contudo, há um grande problema nessa lógica de combate ao crime: sites que cometem crimes hediondos e torpes, como a pornografia infantil, NÃO estão na internet normal (surface web), e sim na internet não-indexada (deep web). O que isso quer dizer? Que não há como bloquear acesso a esses sites pelas medidas propostas pelo PL. E mesmo que essas trocas de material ilegal na internet esteja sendo feita em território brasileiro, a justiça já tem meios para combatê-las (a operação DarkWeb II da Polícia Federal,  de combate a pornografia infantil online, criminalizada no art. 241-A do Estatuto da Criança e Adolescente, estourou no dia 22/11/2016).

Ou seja, a título de combate a crimes graves, estão dando de um jeitinho de bloquear sites que desatendem aos interesses da indústria fonográfica, punindo a população ao dificultar acesso à informação, cultura e conhecimento.

Ainda que a primeira coisa que venha à mente nessas situações sejam os sites que disponibilizam filmes e séries inteiras para download ilegal, como o MegaFilmesHD e outros sites que já foram fechados, o PL não é nada claro com relação ao que seria considerado um provedor "precipuamente dedicado à pratica de crime", e as violações estabelecidas pela Lei de Direitos Autorais não se limitam ao compartilhamento ilegal de obras protegidas.

Na verdade, está bem longe disso.

A utilização derradeira de determinadas obras protegidas para produção de alguns tipos de obras derivadas –como remix de músicas, fotos para memes e vídeos que utilizam trechos de filmes para desenvolver críticas a eles (O Partido Pirata até já satirizou a #CPICIBER através de um vídeo) – não é permitida pela lei, consistindo em violação ao direito autoral, o que é abrangido pelo PL em questão. A utilização pode ter finalidade lucrativa ou não, o autor da obra derivada pode ser profissional ou amador - não importa, não pode! É possível que esse tipo de utilização bastasse para justificar o bloqueio de determinado provedor de aplicação.

Plataformas que viabilizam o compartilhamento desse tipo de conteúdo em massa e que poderiam eventualmente ser bloqueadas pelo PL são: o Vimeo (plataforma de vídeos); O YouTube (plataforma de vídeo); o SoundCloud (plataforma de músicas); o Flickr (plataforma de fotografia); o MemeGenerator (site que facilita a elaboração de memes) e até mesmo sites dedicados ao compartilhamento de FanFiction –outro tipo de manifestação cultural que é considerada ilegal pela Lei de Direitos Autorais. Nesse sentido, o bloqueio proposto pelo PL 5.204/16 é problemático sob quatro óticas distintas: para os provedores de aplicação, para os autores dos conteúdos, para os usuários e para o interesse público como um todo.

Para os provedores de aplicação, a medida é desproporcional, pois enseja no bloqueio de todos os seus serviços no país, independente de parte dele estar dentro da legalidade ou não. Por exemplo, o SoundCloud, caso bloqueado, o será por completo, apesar de servir também como plataforma para o compartilhamento de obras de forma legal. Já o YouTube poderá ser censurado por disponibilizar vídeos de paródias de músicas, trailers feito por usuários, etc.

Para os autores, o grande problema é a insegurança jurídica gerada pela medida. Como muitas das utilizações não são permitidas pela lei atual, não é possível saber até que ponto elas serão usadas para bloquear o acesso a suas obras. No mais, criadores de conteúdo que produzem obras completamente permitidas pela lei e disponibilizam-nas nessas plataformas serão penalizados por causa daqueles que compartilham obras de forma ilegal. Já para os usuários, a medida é problemática por prejudicar o livre acesso à internet e o acesso às demais obras (legais) hospedadas nessas plataformas –elementos essenciais do direito constitucional de acesso à cultura.

E, por último, para o interesse público, o PL é potencialmente ainda mais perigoso, já que o bloqueio a determinados serviços, com a justificativa de violação ao direito autoral, pode ser utilizado para cercear a liberdade de expressão. O exemplo dos vídeos que utilizam trechos de filmes para criticá-los é ilustrativo, mas grandes produtoras cinematográficas poderão solicitar o bloqueio de sites que hospedem esse tipo de vídeo com o argumento de que seus direitos autorais foram violados.

Este projeto de lei, portanto, se caracteriza como uma medida de combate direto à cultura de compartilhamento, já difundida na nossa geração. O objetivo explicitado no anexo fica em segundo plano, deixando margem para interpretá-lo apenas como um pretexto. Sendo assim, pode-se dizer que não é exagero especular que se trata de uma manobra movida pelo lobby da indústria audiovisual para esconder uma medida conhecidamente impopular.

Assine a petição, entre em contato com seu deputado: lute por uma Internet Livre e contra projetos de censura!

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