“Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero”, por Juno

Para complementar um dos pontos do artigo, que trata da acessibilidade de textos que utilizam “X”, “@” e outros marcadores, gostaríamos de lembrar que pessoas com as mais variadas dificuldades de leitura e processamento de dados visuais também acabam não podendo ler e compreender esses textos, assim como no caso de pessoas que necessitam de leitores de tela. Uma experiência visual interessante e instrutiva para pessoas não-disléxicas pode ser esta página: https://geon.github.io/programming/2016/03/03/dsxyliea. A partir dos relatos de uma amiga disléxica, uma pessoa resolveu tentar mostrar como pessoas na mesma condição se relacionam visualmente com textos; é necessária uma dose considerável de foco e esforço para qualquer leitura, e o uso de “X” e outras coisas certamente dificulta ainda mais a vida dessas pessoas.

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Sobre esta proposta

(Quando aqui falo do “X”, estou falando de construções como “todxs”, “meninxs”, “queridx”, “bonitx”. Embora eu vá me focar no X, porque é o mais utilizado, o mesmo vale para outras utilizações como @, *, entre outras.)

Desde que escrevi esse texto, o que faz um bocado de tempo, muitas pessoas reagiram de diversas formas. Uma boa parte, muito apegada à gramática, não gostou nenhum pouco da proposta porque ela realmente propõe alterações que brincam com o que hoje se considera “certo” ou a maneira “adequada” de falar. Obviamente, ao propor novas formas de fazer linguagem uma pessoa estará rompendo com uma determinada norma. Nunca foi minha intenção trabalhar dentro dos limites da gramática normativa.

Entendemos que muitas pessoas simplesmente não querem se dar ao trabalho. Este é um caso para ser julgado entre os indivíduos. Se você não gostaria de fazer um esforço por outra pessoa, é uma questão ética entre você e o restante da sociedade. Muitas vezes na vida tomamos a decisão de não nos importarmos. Uma pessoa possui certas questões da construção da identidade dela, da forma como ela está tentando se entender, que requerem esforço da parte dos outros. Quando esta solidariedade é suprimida, resta a marginalização daquela pessoa na direção de ter de se guetificar junto com as outras que são como elas, que é o que costuma acontecer com as pessoas trans no geral, seja por não quererem lhes tratar de forma neutra ou por insistirem em dizer ele onde seria ela ou ela onde seria ele.

A linguagem neutra é uma ferramenta para universalizar a possibilidade de superar esta questão de forma que resolva a questão, ela não é uma imposição moral. A imposição moral está nas demandas que fazemos enquanto um povo, e existe hoje a demanda para que as pessoas trans sejam respeitadas e consideradas sujeitos de sua própria liberdade, autonomia e identidade. Muitas pessoas no caminho não irão se dispor a ajudar, e algumas irão se dispor apenas parcialmente. No grosso, é raro que as pessoas se adequem bem à linguagem neutra a não ser que elas consigam entender isto como um exercício calmo, paciente. Isto envolve muitas irritações no processo de aprendizagem porque as pessoas não estão acostumadas a se importar com estas questões.

A linguagem neutra não é um exercício constante, o exercício está em aprendê-la, dispor-se a tentar, e não em exercê-la. A linguagem neutra não é mais difícil do que aprender qualquer outra forma de falar, ela basta ser aprendida, e então poderá ser usada fluentemente. Ela é um conjunto curto e muito rápido de entender, basta desenvolver a prática, o costume. Mas por mais simples e fácil que se torne depois que a pessoa efetivamente tenta, o processo de tentar acompanha um certo desprezo, um certo desdém pela proposta. Nesse sentido a grande maioria das pessoas desistem de serem tratadas de forma neutra. Assim cria-se o conceito da “fase”.

Nós chamamos de “fase” muitas coisas que, através da pressão social, forçamos as pessoas a abandonarem. Por exemplo, uma identidade feminina, que uma pessoa adota, e depois de um tempo volta a apresentar-se da forma como era antes. A isto muitas vezes não se deve simplesmente o fato de “passou” ou “foi uma fase”, mas que foi insuportável tentar, e que foi mais fácil desistir. Nós constantemente desistimos daquilo que queríamos por causa das dificuldades. Não é difícil com pessoas que possuem maiores ambições na construção de suas identidades, que ousam querer ser algo considerado pela maioria como absurdo, irracional, anti-científico.

Eu já pedi às pessoas que me tratassem de forma neutra, depois pedi que o fizessem no feminino, hoje em dia digo-lhes que tanto faz, que façam como preferirem. Acaba que a pessoa não consegue se sentir confortável com nada, e perdura um sentimento constante de alienação em relação ao gênero e todas as suas categorias. O acesso negado a todas elas. A incompatibilidade com qualquer coisa. É um fato de uma sociedade onde nossos potenciais estão extremamente castrados. As pessoas não participam desse sistema por má fé, não negam o tratamento neutro porque querem o pior (ao menos não todas), mas elas acabam executando esta ordem, a ordem de manter as bases do nosso mundo, assim como nós o conhecemos, exatamente como estão.

Para aprender linguagem neutra e usá-la basta querer. Ela é útil por diversos motivos. Se você não gostaria de usá-la, você pode usar o X ou pode falar como preferir. A questão é que neste processo você estará decidindo se afastar de um determinado grupo de pessoas, e que estas pessoas estão extremamente isoladas devido à decisão constante da maioria de fazer isso. Através deste mecanismo não só as pessoas trans estão excluídas, no desemprego, nos modernos circos dos horrores da mídia de massa, mas todo o povo oprimido. Tem a ver com a forma como a cultura e a opressão exercida pelas elites se atravessa e molda nossa visão de mundo. Quanto mais solidariedade, maior será o poder do povo. Venha de onde vier.

Peculiaridades das pessoas não-binárias

Pessoas trans* frequentemente possuem preferências por formas de se falar que estão desalinhadas com aquela designada a elas. Na maioria, mulheres trans* preferirão serem tratadas no feminino, homens trans* no masculino e muitas pessoas não-binárias de forma neutra, ou no masculino ou feminino de forma alinhada ou não à designada a elas no nascimento.

Nos três problemas enumerados acima, podemos notar que as pessoas trans* não-binárias possuem peculiaridades ao lidar com todos eles.

Em (1), não existe uma passabilidade para pessoas não-binárias. Nunca aparentam-se não-binárias porque ninguém jamais presumirá, ao olhar para como se vestem, falam, isto é, “como são” que não são “nenhum dos dois”. Sempre será presumido que uma pessoa é homem ou mulher. Desta forma, é virtualmente impossível que alguém “acerte” estas marcações, exceto nas raras vezes que o fizerem não porque percebem serem pessoas não-binárias, mas porque não conseguem decidir se as encaixam como homens ou como mulheres. Dessa forma, estarão sempre à margem das soluções que indicam às pessoas que simplesmente “chutem” de acordo com como a pessoa se apresenta.

Desde a publicação deste texto originalmente, foi levantado que algumas pessoas podem ser dar a entender serem não-binárias pela sua aparência. Este entendimento é falso, faz sentido somente ao observador. Androginia não é sinônimo de não-binariedade, uma pessoa cis (que não é trans) pode muito bem ser extremamente andrógina e uma pessoa trans pode muito bem aparentar ser do gênero considerado “oposto” ao dela, bem como pode ser andrógina também.[1]

Em (2), não existe nenhum país no mundo onde pessoas não-binárias possam efetivamente, de forma regulamentada, serem reconhecidas em seus documentos. É muito mais complicado que uma pessoa não-binária consiga ser reconhecida nas burocracias do Estado, das instituições, de universidades, empregos, etc como completamente fora das opções do que como uma delas, ainda que essa posição seja contestada. Frequentemente o caso é não o de quem é expulso de uma categoria, mas o de quem não possui uma categoria.

Algumas pessoas levantaram que há países no mundo onde isto é sim possível. Estou ciente destas notícias e agradeço se alguém quiser encaminhar-me quaisquer novas notícias, mas se você ler o acima disposto verá que não, não há país no mundo onde as pessoas trans não-binárias possam de forma regulamentada e desburocratizada fazer isso. Assim como no Brasil isto não é realidade nem para homens e mulheres trans. Precisar da aprovação de um juiz ou de um parecer médico não é satisfatório.

Em (3), os gêneros das pessoas não-binárias costumam ser muito mais difíceis de explicar às pessoas, de forma que “não ser”, “ser nenhum dos dois”, ou ser qualquer um deles de forma não-normativa (bigênera, multigênera, pangênera, etc) será algo encarado como uma invenção, uma tolice, etc, porque estas experiências são apagadas, e estão sempre na margem. É certamente mais complicado explicar a alguém que você não é nem homem, nem mulher do que explicar que você é homem ou mulher, apesar de não assim terem te designado no nascimento.

Estas dificuldades demonstram no geral como o sistema está orientado no sentido de preservar uma estrutura rígida, de dois gêneros. Todas as práticas que retornam a estas afirmações são dificuldades encaradas porque organizamos o mundo ao redor destas duas categorias.

Por todos esses motivos, é importante perceber que construções neutras de gênero são importantes para tornar o mundo mais vivível às pessoas trans* não-binárias, e que elas ocupam um local importante nesta discussão sobre neutralidade e sobre o uso da linguagem demarcada. Em nossos cotidianos, as marcações de gênero e as tentativas de torná-las neutras ou melhores frequentemente falham nesse quesito específico, como em “todas e todos”, “homens e mulheres”, “senhoras e senhores”, “masculino e feminino”, “todos/as”, “srs(as)” etc.

Se você recebeu esse texto de uma pessoa não-binária que queria que você aprendesse como referir-se a ela: por favor, tenha empatia e não trate isto tudo com leviandade. Isto é importante e são pouquíssimas as pessoas que realmente se importam. Tente ao máximo que conseguir, não se acanhe em parar no meio da frase e pensar ou pedir ajuda, aprenda junto com a pessoa e aos poucos você pegará o costume e falará naturalmente com ela. Não é um bicho de sete cabeças e conjuntamente é possível que consigam aprender cada vez melhor.

Por que abandonar o X?

  1. O X não é acessível para leitores de tela. Pessoas com deficiência visual não conseguirão fazer programas de leitura de tela pronunciarem corretamente o texto.
  2. O X não torna as coisas mais fáceis de entender. Quanto mais simples e direta for a nossa linguagem, melhor poderemos nos fazer entender  Quando a intenção é fazer textos fáceis e didáticos, o X pode ser um constante entrave para quem está lendo.
  3. O X não é pronunciável. Nós não podemos, em voz alta, usar o X. Isso é problemático especialmente para pessoas trans* não-binárias, para quem essa vocalidade é necessária no dia-a-dia.
  4. O X não transformará a linguagem. Se o X é restrito à língua escrita, então ele não irá alterar a forma como falamos! Isso significa que ele não influenciará como, no dia-a-dia, nos referimos às pessoas, e que no fim das contas, ele não alterará nem a linguagem escrita, perpetuando-a como binária, e a forma neutra como restrita a determinados contextos “feministas”, “lgbt”, “trans”, “de esquerda”.

Como falar de forma neutra sem o uso do X?

Tenha calma e aprenda no processo

Não pense que você vai ler o que está descrito abaixo e pegar o jeito de uma hora para a outra. Conforme você se pegar no meio das frases, conversar com a pessoa, se você e ela se ajudarem, a linguagem neutra vai se tornando hábito. Pense nos exemplos abaixo como formas de começar e de elaborar, e construa a linguagem neutra de forma natural.

Junto com a outra pessoa, vá falando de forma neutra, se deixe corrigir sem estresse quando necessário, e aos poucos aprenderá a falar de forma neutra. É uma questão de prática.

Utilize generosamente termos neutros como “pessoa”, “indivíduo”, etc. para retirar o gênero marcado diretamente. Coloquialmente, qualquer palavra serve.

Ela partiu > A pessoa partiu / essa pessoa partiu

A casa dela > A casa da pessoa

Todas as presentes > Todas as pessoas presentes

Quantas temos aqui? > Quantas pessoas temos aqui?

As presentes cujas bolsas ficaram no jardim > As pessoas presentes cujas bolsas ficaram no jardim

Boa tarde a todas > Boa tarde a todas as pessoas / boa tarde a vocês / boa tarde

Elas avançaram na competição > As pessoas (ou “estas pessoas”) avançaram na competição

Ele nunca vai embora > Essa pessoa nunca vai embora

Sua namorada > A pessoa com quem você namora / A pessoa que namora com você

Minha > A pessoa minha irmã

Minha irmã > A pessoa minha irmã

Tua irmã > A pessoa sua irmã / A pessoa que é sua irmã

Nossa irmã > A pessoa nossa irmã

(Nota: O português provavelmente não oferece uma forma melhor de fazer isso com palavras como a acima. O que podemos fazer é literalmente sugerir a desgenerificação ao propor que “irmã” se refere a “pessoa”. Como a construção não é usual, ela já impõe um motivo.)

Aquelas que ganharam estão liberadas para ir > Quem ganhou pode ir / Aquelas pessoas que ganharam estão liberadas para ir

Ao invés de usar um pronome, repita o nome ou suprima o pronome (melhor)

Ariel estava aqui ontem e desde então ela foi embora > Ariel estava aqui ontem e deste então Ariel foi embora / e desde então foi embora

Se eu quisesse ficar com Ariel, teria dito a ela > Se eu quisesse ficar com Ariel, teria dito a Ariel / teria lhe dito

A casa dela > A casa de Ariel

O Rio a inspira profissionalmente > O Rio inspira Ariel profissionalmente

Suprima artigos e pronomes desnecessários

A Ariel > Ariel

com a Ariel > com Ariel

Ela partiu > Ariel partiu

Eu fiquei com a Ariel > Eu fiquei com Ariel

Como pintora ela conquistou muito dinheiro > Pintando, conquistou muito dinheiro

Logo ela explicará seus motivos > Logo explicará seus motivos / Logo Ariel explicará seus motivos

Prefira alternativas neutras como “de” (ao invés de da/do) e “lhe” (ao invés de a/o)

da Ariel > de Ariel

Essa carteira é da Ariel > Essa carteira é de Ariel

Se eu quisesse ficar com Ariel, teria dito a ela > Se eu quisesse ficar com Ariel, teria lhe dito

A casa da Ariel > A casa de Ariel

Utilizar a voz passiva e o gerúndio, entre outras mudanças, são formas interessantes de desgenerificar. Do manual para uso não-sexista da linguagem:

“S. Semântico: Todos os trabalhadores poderão ir ao jantar com as suas esposas
Alternativa: O pessoal poderá ir ao jantar acompanhado.
S. Semântico: Os estudantes não poderão receber visitas femininas nos
dormitórios.
Alternativa: Não se permitem visitas nos dormitórios

[…]

Por exemplo, podemos dizer: O nível de vida em São Paulo é bom
Em lugar de: Os paulistanos têm um bom nível de vida
Podemos dizer: O pessoal docente da Universidade protestou por…
Em lugar de: Os professores da Universidade protestaram por…”

Mude a estrutura dos verbos na frase:

Você é muito requisitada? > Te requisitam muito?

Você está toda molhada > Você se molhou totalmente

Você está cansada? > Você se cansou?

Você é baiana? > Você é da Bahia?

Você está linda > Você está uma pessoa linda / Que lindeza você está / Sua roupa está linda / Seu corpo é lindo

Você está registrada > Eu te registrei / seu registro está feito

Manual para uso não sexista da linguagem

Para uma referência mais extensiva sobre linguagem neutra em português, recomendo o material “Manual para o uso não sexista da linguagem”, de Paki Venegas Franco e Julia Pérez Cervera pela UNIFEM. Clique para baixá-lo. O manual deve ser lido com um olhar crítico, possui passagens onde faz abordagens teóricas sobre gênero que talvez não sejam as mais adequadas, mas pragmaticamente falando tem um bocado de exemplos e dicas úteis.

Notas:

[1]. A variedade de configurações possíveis no fim transforma o próprio conceito de “passabilidade” em algo muito limitado. A questão não é como nos veem, mas principalmente como nos tratam. Configurar-se como sujeito de uma opressão na sociedade não tem a ver simplesmente com te verem de uma determinada forma (como começamos a pensar se nos deixamos levar muito pela política identitária, quer ela se pretenda “feminista radical” ou não), mas como suas condições te forçam e limitam no sentido de como você vai conseguir ser visto. Neste sentido por exemplo a passabilidade muitas vezes é mediada pela classe. As opressões não existem separadamente, os sujeitos não são oprimidos por isto ou por aquilo, os sujeitos são oprimidos porque são entendidos como sujeitos a se oprimir. Delimitar um determinado “motivo” (por exemplo, “ser lido como homem”, “ter sido socializado como homem”) sem se perguntar sobre o sem-número de outras questões que marginalizam, segregam e matam alguém no máximo será capaz de criar correntes de pensamento e militância política que, fadadas a serem só isto, correntes políticas sectárias, no serão um fardo a ser arrastado por motores mais transformadores que visem realmente enfrentar as formas de marginalização, todas elas, que incidem sobre as pessoas.

Texto retirado de: https://naobinario.wordpress.com/2014/11/01/deixando-o-x-para-tras-na-linguagem-neutra-de-genero/


Kommentare

7 comments for “Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero”, por Juno

  1. Morvan Deon commented at

    Tantas coisas importantíssimas a serem descobertas e inventadas pelos homens para a melhoria de nossas vidas, e ao invés disso, criam coisas que não levam a nada e acrescentam mais complicações para colocar na cabeça das pessoas.Que inventem coisas construtivas, ideias que revolucionam e que tenham o propósito da união e da compreensão de todas as pessoas. O mundo se tornará melhor com pensamentos edificantes.

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Diga aos deputados: não censurem nossa Internet

Olá congressista!

O projeto de lei 5.204/16 propõe o bloqueio de acesso a sites "precipuamente dedicados ao crime" hospedados no exterior e sem representação no Brasil, excluindo, expressamente, a possibilidade de bloqueio de aplicativos de troca instantânea de mensagens (sim, o WhatsApp).

Em sua justificativa, anexa ao projeto, argumenta-se que hoje, para se retirar do ar sites criminosos - incluindo aqueles de ponografia infantil e de tráfico de drogas - tem que se expedir uma carta rogatória (documento que pede cumprimento de ordem judicial brasileira no exterior) para o servidor. Por ser demorada, não seria medida adequada de combate a esses crimes, devendo-se, então, bloquear o acesso de brasileiros a tais sites.

Contudo, há um grande problema nessa lógica de combate ao crime: sites que cometem crimes hediondos e torpes, como a pornografia infantil, NÃO estão na internet normal (surface web), e sim na internet não-indexada (deep web). O que isso quer dizer? Que não há como bloquear acesso a esses sites pelas medidas propostas pelo PL. E mesmo que essas trocas de material ilegal na internet esteja sendo feita em território brasileiro, a justiça já tem meios para combatê-las (a operação DarkWeb II da Polícia Federal,  de combate a pornografia infantil online, criminalizada no art. 241-A do Estatuto da Criança e Adolescente, estourou no dia 22/11/2016).

Ou seja, a título de combate a crimes graves, estão dando de um jeitinho de bloquear sites que desatendem aos interesses da indústria fonográfica, punindo a população ao dificultar acesso à informação, cultura e conhecimento.

Ainda que a primeira coisa que venha à mente nessas situações sejam os sites que disponibilizam filmes e séries inteiras para download ilegal, como o MegaFilmesHD e outros sites que já foram fechados, o PL não é nada claro com relação ao que seria considerado um provedor "precipuamente dedicado à pratica de crime", e as violações estabelecidas pela Lei de Direitos Autorais não se limitam ao compartilhamento ilegal de obras protegidas.

Na verdade, está bem longe disso.

A utilização derradeira de determinadas obras protegidas para produção de alguns tipos de obras derivadas –como remix de músicas, fotos para memes e vídeos que utilizam trechos de filmes para desenvolver críticas a eles (O Partido Pirata até já satirizou a #CPICIBER através de um vídeo) – não é permitida pela lei, consistindo em violação ao direito autoral, o que é abrangido pelo PL em questão. A utilização pode ter finalidade lucrativa ou não, o autor da obra derivada pode ser profissional ou amador - não importa, não pode! É possível que esse tipo de utilização bastasse para justificar o bloqueio de determinado provedor de aplicação.

Plataformas que viabilizam o compartilhamento desse tipo de conteúdo em massa e que poderiam eventualmente ser bloqueadas pelo PL são: o Vimeo (plataforma de vídeos); O YouTube (plataforma de vídeo); o SoundCloud (plataforma de músicas); o Flickr (plataforma de fotografia); o MemeGenerator (site que facilita a elaboração de memes) e até mesmo sites dedicados ao compartilhamento de FanFiction –outro tipo de manifestação cultural que é considerada ilegal pela Lei de Direitos Autorais. Nesse sentido, o bloqueio proposto pelo PL 5.204/16 é problemático sob quatro óticas distintas: para os provedores de aplicação, para os autores dos conteúdos, para os usuários e para o interesse público como um todo.

Para os provedores de aplicação, a medida é desproporcional, pois enseja no bloqueio de todos os seus serviços no país, independente de parte dele estar dentro da legalidade ou não. Por exemplo, o SoundCloud, caso bloqueado, o será por completo, apesar de servir também como plataforma para o compartilhamento de obras de forma legal. Já o YouTube poderá ser censurado por disponibilizar vídeos de paródias de músicas, trailers feito por usuários, etc.

Para os autores, o grande problema é a insegurança jurídica gerada pela medida. Como muitas das utilizações não são permitidas pela lei atual, não é possível saber até que ponto elas serão usadas para bloquear o acesso a suas obras. No mais, criadores de conteúdo que produzem obras completamente permitidas pela lei e disponibilizam-nas nessas plataformas serão penalizados por causa daqueles que compartilham obras de forma ilegal. Já para os usuários, a medida é problemática por prejudicar o livre acesso à internet e o acesso às demais obras (legais) hospedadas nessas plataformas –elementos essenciais do direito constitucional de acesso à cultura.

E, por último, para o interesse público, o PL é potencialmente ainda mais perigoso, já que o bloqueio a determinados serviços, com a justificativa de violação ao direito autoral, pode ser utilizado para cercear a liberdade de expressão. O exemplo dos vídeos que utilizam trechos de filmes para criticá-los é ilustrativo, mas grandes produtoras cinematográficas poderão solicitar o bloqueio de sites que hospedem esse tipo de vídeo com o argumento de que seus direitos autorais foram violados.

Este projeto de lei, portanto, se caracteriza como uma medida de combate direto à cultura de compartilhamento, já difundida na nossa geração. O objetivo explicitado no anexo fica em segundo plano, deixando margem para interpretá-lo apenas como um pretexto. Sendo assim, pode-se dizer que não é exagero especular que se trata de uma manobra movida pelo lobby da indústria audiovisual para esconder uma medida conhecidamente impopular.

Assine a petição, entre em contato com seu deputado: lute por uma Internet Livre e contra projetos de censura!

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