Como alguém que ama cultura pode defender o Monopólio do Copyright?

por Rick Falkvinge*, via TorrentFreak

 

Ativistas pela reforma ou abolição do pernicioso monopólio sobre o direito de cópia – copyright – são às vezes taxados como se “odiassem a cultura”. Isso é tão desconcertante quanto errado, visto o quão ameaçador é esse monopólio para os artistas e a cultura. Nós amamos a cultura e é exatamente por isso que criticamos o monopólio.

Uma das acusações mais desconcertantes lançadas contra mim e outros críticos do copyright é que “odiamos a cultura”. Isso não é só estranho à la Igreja Batista de Westboro** (“se você não seguir o nosso dogma, você odeia nosso estilo de vida, independência, liberdade e os gatinhos fofinhos também”), como também é completamente alheio à realidade.

É precisamente por amar a cultura, o conhecimento, a liberdade de expressão que eu critico incansavelmente o monopólio da indústria cultural. De longe, ela é a maior inibidora de criatividade na sociedade atual, conforme basicamente todas as pesquisas realizadas que não tenham sido financiadas pela própria indústria do copyright.

Foquemos em duas áreas aqui: disponibilidade de cultura e compensação aos artistas.

Na primeira área podemos observar que hoje há mais cultura disponível do que nunca houve, e não por causa do monopólio de copyright, mas apesar dele. As pessoas criam como nunca antes, apesar de, muitas vezes, isso ser ilegal. Felizmente, a maioria das pessoas-potencialmente-artistas tem um profundo e saudável desrespeito por essa estrutura monopolista que os impediria de produzir e reproduzir cultura: a cada minuto, 100 horas de vídeo sobem para o Youtube. São 6 mil vezes mais conteúdo do que uma transmissão única em tempo real. Isso significa que pessoas-artistas estão criando hoje programação para 6 mil canais mundiais de TV que funcionam 24 horas, 7 dias por semana, apenas num website de vídeo. A maioria desse trabalho é ilegal por conta da monopolização dos direitos de cópia.

Mas fica pior. Quando você vê a cultura disponível nesse velho sistema baseado em monopólio de copyright, descobre que há um enorme buraco negro em nossa herança cultural onde não é de interesse publicar o que foi cultura há algumas décadas. Somente quando esse monopólio expira é que essa cultura fica novamente disponível através de novas publicações. Há um buraco negro do monopólio do copyright que retira de circulação 90% da nossa cultura, desde o início do século XX. Isso foi ilustrado da forma mais clara o possível por Paul J. Heald, que realizou uma pesquisa no catálogo da Amazon Books e descobriu que livros de 20 anos atrás não estavam mais disponíveis em sua maioria, ao menos não até o monopólio sobre direitos autorais expirar – 90% da nossa cultura desaparece por conta do monopólio do copyright:

 

O sistema atual baseado neste monopólio cria um buraco negro que garante que 90% da produção cultural moderna morra e que nunca se torne disponível novamente durante uma vida humana inteira. Como pode alguém que ama a cultura defender isso? É um sistema que alguém que despreza toda forma de cultura criaria: primeiro faz da criação algo ilegal e depois assegura que 90% da cultura morra e fique indisponível dentro de poucos anos.

A segunda objeção à redução ou abolição do monopólio do copyright tende a ser “como os artistas serão pagos?”. Isso beira à obscenidade quando vem de alguém que defende a ordem atual baseada no monopólio sobre o direito de cópia, na qual 99% dos artistas não conseguem assinar com uma grande editora ou gravadora, e dentre aqueles que conseguem, menos de 0,05% verão alguma vez royalties (esses números são das gravadoras, mas com base na experiência, é seguro afirmar que os números são similares no mercado editorial).

O sistema de atual assegura que 99,995% de artistas batalhadores nunca recebam um centavo. Como alguém que ama a cultura pode defender esse sistema?

O que o sistema de hoje faz, no entanto, é enriquecer atravessadores, parasitas intermediários inerentes ao sistema – que fraudulentamente alegam “falar pelos artistas”, mas que na realidade, os roubam à luz do dia (histórias de editores e produtores medíocres e parasitas roubando descaradamente o resto de dinheiro daqueles últimos 0,005% de artistas que recebem royalties acontecem todos os dias).

Em suma, o monopólio do copyright proíbe artistas em potencial de produzir de cultura, impedem a arte e a cultura de alcançar o público, isola os artistas de seus fãs, impede artistas de receber dinheiro por sua arte e assegura que 90% da cultura moderna tenha uma morte prematura. Essa construção pode apenas ser defendida por gente que diz amar a cultura se estiverem afetadas por uma negação de pensamento racional em um nível religioso.

É hora de pegar o touro pelo chifre e combater os monopolistas nesta questão fundamental: se eles de fato tem qualquer apreço pela cultura. Esse monopólio mata a cultura e talentos artísticos, e isto é fato conhecido e comprovado por dados concretos.

——

* Rick Falkvinge é fundador do primeiro Partido Pirata, o da Suécia. Seu blog é o falkvinge.net, sobre políticas de informação.
**  Igreja conhecida pelo seu ultraconservadorismo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Batista_de_Westboro

Já que você está aqui…

… nós estamos pedindo por um pequeno favor. Diferente de outras organizações, não recebemos dinheiro de governos e nem de empresas. Também não cobramos por acessos às nossas ferramentas. O Partido Pirata é uma organização independente que luta por direitos digitais, o livre compartilhamento de informações, privacidade para as pessoas e transparência de governos e corporações. Somos pessoas voluntárias tentando construir dia após dia o partido e precisamos de dinheiro para colocar algumas ideias em prática e cobrir diversos gastos. Isso requer muito trabalho e fazemos pois acreditamos que a nossa perspectiva importa porque –  também pode ser sua perspectiva.


Kommentare

One comment for Como alguém que ama cultura pode defender o Monopólio do Copyright?

  1. Pingback: ESPIONAGEM E O MARCO CIVIL NA INTERNET | O BARBEIRO

Deixe uma resposta

Notice: Comments reflect the opionions of those who did wrote theme. Allowing people comment here, doenst mean, that we also agree with them.

Your email address won't be displayed. Required fields are marked with this sign: *

More information