A Psicologia da Cryptomnesia: Como nós plagiarizamos inconscientemente idéias existentes

“Qualquer experiência que o escritor já sofreu”, afirmou William Faulkner em uma audiência de uma Universidade em 1958, “irá influenciar o que ele faz, e isso não é apenas o que ele leu, mas a música que ele ouviu, as fotos que ele viu”. Essa noção – que ‘nossas’ idéias são o produto combinatório de todos os tipos de idéias existentes que nós observamos no curso de uma vida em que estamos vivos e despertos no mundo – é algo que muitos criadores articularam, talvez nenhum deles de forma mais sucinta que Paula Scher. Essa fusão de pedaços existentes em novas combinações é em grande parte um processo inconsciente e por todo o seu funcionamento miraculoso, um sério fator negativo que frequentemente oblitera os traços de fontes originais que nós inconscientemente desenvolvemos em “novas” idéias. Helen Keller experienciou as repercussões desse fenômeno quando ela foi acusada de plagiarismo. Henry Miller questionou isso quando ele escreveu “E o seu caminho, ele é realmente o seu caminho?” e Coleridge frequentemente pulou sobre a “fina linha entre o inconsciente, a inspiração e o plágio deliberado
Em 1989, década antes do lendário neurologista Oliver Sacks ter explorado porque a mente é suscetível a isso, os psicólogos Alan Brown e Dana Murphy criaram um termo para esse fenômeno: cryptomnesia.
No esclarecedor volume de 1984 “A Psicologia da Escrita” – que também nos dá as condições das rotinas diárias perfeitas e um ambiente criativo ideal – o psicólogo cognitivo Ronald T. Kellogg define cryptomnesia como “a crença que um pensamento é um Romance quando na verdade se trata de uma memória” e ele examina como isso ocorre.

Ilustração de John Vernon Lord do “Pensamento através do Espelho e o que Alice encontrou lá”

Percebendo que escritores frequentemente escrevem sobre fontes existentes de uma maneira consciente – incluindo citações, expansões ou resumos, apresentações ou pontos de vista alternativos que diferem daqueles do escritor e imitando o estilo de outros” – Kellog se volta para os mecanismos inconscientes que dirigem a cryptomnesia:
Muito do que o escritor sabe, particularmente discurso e conhecimento sociocultural, existe somente em forma tácita. Por exemplo, padrões de sentença assim como crenças culturais são compartilhadas por membros da mesma comunidade de discurso e são atraídas livremente por todos sem percepção consciente. O mesmo tipo de cópia inconsciente talvez também ocorra com frases específicas, fatos e argumento – formas de conhecimento de domínio específico. Quando isso ocorre, no entanto, o autor está sujeito a acusações plágio…  [Cryptomnesia] pode levar a um plagiarismo inadvertido se um escritor falha em reconhecer involuntariamente uma fonte anterior devido à falha de reconhecer seus próprios pensamentos e palavras como não originais. 
Em outras casos, Kellogg afirma, “o escritor empresta sem perceber de seus próprios trabalhos publicados” – o tipo de plágio inadvertido que os escritores extremamente prolíficos de hoje são especialmente suscetíveis enquanto eles misturam em uma batedeira enormes volumes de trabalho com grande regularidade sob o industrialismo tirânico de publicações modernas, online e outras. 
Certamente a noção de cryptomnesia, em todas as suas permutações, parece mais desconfortável duas décadas depois: a expansão da Internet, particularmente das redes sociais, resultaram em conectividade ainda maior e em aceleração do fluxo de idéias entre originador e recipiente, seguido pela sempre crescente absorção dessas idéias em um campo comum – ou o que Vannevar Bush tão poeticamente chamou “o arquivo comum” em 1945 – no qual todos nós estamos cada vez mais imersos. Sob essas condições, cryptomnesia invariavelmente se tornou nossa patologia criativa coletiva.

Ilustração de ‘Neurocomic’, um romance gráfico sobre como cérebro funciona

Kellogg ilustra os mecanismos cognitivos desse fenômeno profundamente humano com evidência empírica:
Em um trabalho de laboratório seminal de cryptomnesia, Brown e Murphy (1989) fizeram com que grupos de quatro estudantes alternassem turnos gerando exemplos de categorias (criar). Então cada estudante no grupo tentou relembrar exemplos que ele ou ela gerou (relembrar velhos), sob instruções de não nomear itens gerados por outros. Finalmente, eles geraram exemplos adicionais (relembrar novos) com instruções de duplicar as suas respostas anteriores ou a de outros. No teste de relembrar velhos, 75% dos participantes produziram ao menos um item plagiado e no teste de relembrar novos, 70% fizeram o mesmo. Itens auto-plagiarizados… eram raros em uma tarefa de laboratório; quase todos os itens foram tirados de outros estudantes.
O padrão de resultados nos três experimentos reportados por Brown e Murphy indicaram que o plagio ocorreu mais frequentemente em tarefas escritas que em tarefas orais. Ao ter ouvido material, alguém é mais provável de plagiar isso quando escreve do que quando fala. Se o padrão reverso ocorre depois de ter o material lido é algo que ainda precisa ser visto. Mas baseado em resultados apenas, escritores talvez sejam mais suscetíveis a emprestar ideias sem perceber que ele ganharam por meio de palestras, discussões e outras formas de informação auricular… idéias que são expressas frequentemente – que estão “no ar” – são especialmente abertas para o empréstimo.
À medida que a Internet se torna cada vez mais “o ar”, não se pode deixar de se ponderar – e se preocupar – sobre como a ameaça crescente da cryptomnesia epidêmica irá impactar a saúde da cultura criativa.  
Mas novamente, talvez esse seja um destino da criatividade e sempre foi uma parte de sua natureza essencial – como Pete Seeger colocou muito antes das redes sociais existirem e um ano antes do estudo de Brown e Murphy, “Todos nós, nós somos links em uma corrente. E se nos fizermos nosso trabalho direito, haverá muitos e muitos links a caminho
A Psicologia de Escrever é, tristemente, há muito tempo sem reimpressões mas vale o esforço e também está disponível no Kindle. Complemente isso com o relacionamento entre memória e criatividade.
artigo original em inglês aqui


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Diga aos deputados: não censurem nossa Internet

Olá congressista!

O projeto de lei 5.204/16 propõe o bloqueio de acesso a sites "precipuamente dedicados ao crime" hospedados no exterior e sem representação no Brasil, excluindo, expressamente, a possibilidade de bloqueio de aplicativos de troca instantânea de mensagens (sim, o WhatsApp).

Em sua justificativa, anexa ao projeto, argumenta-se que hoje, para se retirar do ar sites criminosos - incluindo aqueles de ponografia infantil e de tráfico de drogas - tem que se expedir uma carta rogatória (documento que pede cumprimento de ordem judicial brasileira no exterior) para o servidor. Por ser demorada, não seria medida adequada de combate a esses crimes, devendo-se, então, bloquear o acesso de brasileiros a tais sites.

Contudo, há um grande problema nessa lógica de combate ao crime: sites que cometem crimes hediondos e torpes, como a pornografia infantil, NÃO estão na internet normal (surface web), e sim na internet não-indexada (deep web). O que isso quer dizer? Que não há como bloquear acesso a esses sites pelas medidas propostas pelo PL. E mesmo que essas trocas de material ilegal na internet esteja sendo feita em território brasileiro, a justiça já tem meios para combatê-las (a operação DarkWeb II da Polícia Federal,  de combate a pornografia infantil online, criminalizada no art. 241-A do Estatuto da Criança e Adolescente, estourou no dia 22/11/2016).

Ou seja, a título de combate a crimes graves, estão dando de um jeitinho de bloquear sites que desatendem aos interesses da indústria fonográfica, punindo a população ao dificultar acesso à informação, cultura e conhecimento.

Ainda que a primeira coisa que venha à mente nessas situações sejam os sites que disponibilizam filmes e séries inteiras para download ilegal, como o MegaFilmesHD e outros sites que já foram fechados, o PL não é nada claro com relação ao que seria considerado um provedor "precipuamente dedicado à pratica de crime", e as violações estabelecidas pela Lei de Direitos Autorais não se limitam ao compartilhamento ilegal de obras protegidas.

Na verdade, está bem longe disso.

A utilização derradeira de determinadas obras protegidas para produção de alguns tipos de obras derivadas –como remix de músicas, fotos para memes e vídeos que utilizam trechos de filmes para desenvolver críticas a eles (O Partido Pirata até já satirizou a #CPICIBER através de um vídeo) – não é permitida pela lei, consistindo em violação ao direito autoral, o que é abrangido pelo PL em questão. A utilização pode ter finalidade lucrativa ou não, o autor da obra derivada pode ser profissional ou amador - não importa, não pode! É possível que esse tipo de utilização bastasse para justificar o bloqueio de determinado provedor de aplicação.

Plataformas que viabilizam o compartilhamento desse tipo de conteúdo em massa e que poderiam eventualmente ser bloqueadas pelo PL são: o Vimeo (plataforma de vídeos); O YouTube (plataforma de vídeo); o SoundCloud (plataforma de músicas); o Flickr (plataforma de fotografia); o MemeGenerator (site que facilita a elaboração de memes) e até mesmo sites dedicados ao compartilhamento de FanFiction –outro tipo de manifestação cultural que é considerada ilegal pela Lei de Direitos Autorais. Nesse sentido, o bloqueio proposto pelo PL 5.204/16 é problemático sob quatro óticas distintas: para os provedores de aplicação, para os autores dos conteúdos, para os usuários e para o interesse público como um todo.

Para os provedores de aplicação, a medida é desproporcional, pois enseja no bloqueio de todos os seus serviços no país, independente de parte dele estar dentro da legalidade ou não. Por exemplo, o SoundCloud, caso bloqueado, o será por completo, apesar de servir também como plataforma para o compartilhamento de obras de forma legal. Já o YouTube poderá ser censurado por disponibilizar vídeos de paródias de músicas, trailers feito por usuários, etc.

Para os autores, o grande problema é a insegurança jurídica gerada pela medida. Como muitas das utilizações não são permitidas pela lei atual, não é possível saber até que ponto elas serão usadas para bloquear o acesso a suas obras. No mais, criadores de conteúdo que produzem obras completamente permitidas pela lei e disponibilizam-nas nessas plataformas serão penalizados por causa daqueles que compartilham obras de forma ilegal. Já para os usuários, a medida é problemática por prejudicar o livre acesso à internet e o acesso às demais obras (legais) hospedadas nessas plataformas –elementos essenciais do direito constitucional de acesso à cultura.

E, por último, para o interesse público, o PL é potencialmente ainda mais perigoso, já que o bloqueio a determinados serviços, com a justificativa de violação ao direito autoral, pode ser utilizado para cercear a liberdade de expressão. O exemplo dos vídeos que utilizam trechos de filmes para criticá-los é ilustrativo, mas grandes produtoras cinematográficas poderão solicitar o bloqueio de sites que hospedem esse tipo de vídeo com o argumento de que seus direitos autorais foram violados.

Este projeto de lei, portanto, se caracteriza como uma medida de combate direto à cultura de compartilhamento, já difundida na nossa geração. O objetivo explicitado no anexo fica em segundo plano, deixando margem para interpretá-lo apenas como um pretexto. Sendo assim, pode-se dizer que não é exagero especular que se trata de uma manobra movida pelo lobby da indústria audiovisual para esconder uma medida conhecidamente impopular.

Assine a petição, entre em contato com seu deputado: lute por uma Internet Livre e contra projetos de censura!

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