A Renda Básica Universal é uma resposta acessível e viável ao coronavírus

Um pagamento em dinheiro realizado a todos, sem restrições, pode manter trabalhadores durante a crise

por DANIEL SUSSKIND

link original do artigo do Financial Times aqui

 Esse artigo é parte de uma série do FT sobre as curas econômicas para a crise do coronavírus, na qual importantes comentaristas e formuladores de políticas dão suas opiniões sobre como aliviar uma recessão global devastadora. O autor é um colega em ciências econômicas no Balliol College, Universidade de Oxford, e o autor do livro ‘A World Without Work’ (sem tradução no Brasil).

A crise do coronavírus é um desastre para muitos trabalhadores. No Reino Unido, por exemplo, muitas vezes esquecemos que a prosperidade não está em um punhado de gigantes dos negócios bem-apessoados e grandes empresas – muitas das quais estão agora pressionando visivelmente o governo por suporte financeiro.

Também depende dos quase 5 milhões de trabalhadores autônomos e 6 milhões de pequenos empresários que vivem uma situação econômica relativamente oculta, longe dos olhos do público, e com pouca influência sobre a política. A pandemia nos fornece um lembrete dramático da contribuição desses agentes. E são eles os mais ameaçados atualmente.

Mas os nossos instrumentos políticos tradicionais não conseguem chegar até eles. Mudanças nas taxas de juros não são de nenhuma ajuda a profissionais autônomos que enfrentam perda dos rendimentos e ausência de licença médica.

Pacotes de estabilidade financeira não são garantia para o grande número de restaurantes, teatros, cafés, bares e lojas que continuarão vendo o colapso cada vez mais próximo nos dias por vir. Grandes investimentos em infraestrutura não sustentam esses pequenos negócios – 99% de todas as empresas do Reino Unido – cujos colchões não estocam dinheiro suficiente para sobreviver a quebradeira dos próximos meses.

Portanto, é hora de algo completamente diferente – uma Renda Básica Universal. Um pagamento em dinheiro feito a todos, sem restrições, pode garantir sustento a essas pessoas e suas famílias. Fornecer £1.000 por mês a todos no Reino Unido seria uma injeção direta e instantânea de alívio financeiro às milhões de pessoas incapazes de prover por suas necessidades básicas.

Eu vejo a ideia de uma RBU com certo ceticismo. Nos últimos anos, o conceito se popularizou. Muitos o viram como uma resposta necessária à ameaça da automatização (do trabalho), uma forma de sustentar trabalhadores que perderam sua posição e acabem se vendo sem um emprego, e sem renda, no futuro.

Mas na minha própria pesquisa investigando o impacto da tecnologia no mercado de trabalho, eu tendia a ver essa saída como uma resposta imperfeita a um desafio que nós ainda não estamos enfrentando. Por ora o problema não é um mundo sem empregos suficientes, e sim um mundo em que as pessoas não tem as habilidades necessárias para executar as tarefas que precisam ser feitas.

A chegada do coronavírus mudou minha atitude. Robôs talvez não tenham roubado todos os empregos, mas a pandemia está dizimando a demanda de que esses empregos dependem. Andrew Yang, o candidato a presidente americano, que construiu sua campanha sobre a promessa de uma RBU, expressou bem no Twitter: “eu deveria ter falado em uma pandemia em vez de automatização.”

A RBU poderia ser viável. Por exemplo, entregar £1.000 por mês a cada pessoa custaria ao governo por volta de £66 bilhões por mês – uma parte dos quase £500 bilhões que o Reino Unido precisou desembolsar para não afundar na crise de 2008. Seria apenas uma medida temporária.

O governo diz que o Reuno Unido terá metade dos casos de coronavírus em um período de três a quatro semanas antes e depois do pico das infecções, sendo 95% dos casos em um período de 9 a 10 semanas. Ainda podemos esperar que essa seja uma crise de curto prazo, exigindo medidas apenas temporárias, mas extraordinárias.

Seria também politicamente viável, e não apenas no Reino Unido. A RBU vem despontando como uma daquelas raras propostas políticas capazes de dobrar o espectro político, com pessoas em lados opostos concordando com veemência.

Jason Furman, presidente do Conselho de Assessoria Econômica na gestão Barack Obama, escreve: “o Congresso deveria enviar a você $1.000 – e mais $500 para cada um de seus filhos – o mais rápido possível”. E Steven Mnuchin, o secretário do Tesouro americano, está agora “analisando enviar cheques aos americanos imediatamente”.

Enquanto uma RBU como essa pode parecer um tanto simples, sua simplicidade é seu ponto forte. Não há necessidade de monitoramento ou análise de meios complexa, nem burocracias desajeitadas e administração. Na Inglaterra, todo mundo recebe £1,000 – simples assim. Dessa forma, podemos agir com rapidez; e se o pico da crise ocorrer em algumas semanas, essa é uma virtude que para não subestimar.

Em 1942, em meio à devastação da 2ª Guerra Mundial, William Beveridge publicou Seguridade Social e Serviços Aliados (tradução livre), transformando as vidas de pessoas comuns num momento de grande crise ao levá-los à criação do Serviço Nacional de Saúde e à expansão da Seguridade Social.

“Um momento revolucionário na história do mundo”, ele escreve nas primeiras páginas, “é um tempo para revoluções, não para remendos”.

Nossa crise é diferente. Mas como Beveridge, devemos responder a ela com imaginação e mente aberta. Torcer e esticar modelos que existem não é o bastante. Devemos ser muito mais ousados.


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