[Tradução] A visão de Douglas Rushkoff sobre um mundo melhor, um mundo novo

Texto original: http://kernelmag.dailydot.com/issue-sections/features-issue-sections/15982/douglas-rushkoff-throwing-rocks-at-the-google-bus-interview

Entrevista por Jesse Hicks

Por mais de duas décadas, Douglas Rushkoff providenciou comentários incisivos sobre o mundo cada vez mais conectado, digitalizado e corporativizado em que vivemos. De “Cyberia: Vida nas Trincheiras do Cyberespaço” a “Vida S.A.: Como o mundo se tornou uma Corporação e como tomá-la de volta” para seu novo, “Jogando Pedras no Ônibus Google: Como crescimento se tornou o inimigo da Prosperidade”, ele narrou tanto a promessa quanto o perigo de uma sociedade global sendo refeita pela Internet e as Corporações de alta tecnologia.

Em seu novo trabalho, ele argumenta que, apesar das aparências apontarem para o oposto, os atuais colossos da vida online – pense em empresas como Facebook, Apple, Google e outras semelhantes – ainda não revolucionaram nossa economia. Ao invés disso, eles reproduziram o modelo corporativo da Era Industrial em escala global, mas com todos benefícios da inovação digital. Lá no fundo, no entanto, essas empresas foram concebidas para extrair valor e perseguir seu crescimento acima de todo o resto. O autor argumenta que essa missão está se tornando cada vez mais insustentável, e talvez uma alternativa esteja se desenhando pela primeira vez: empresas que usam a tecnologia para espalhar a abundância em vez de amontoar riqueza para si mesmas. Mas, para garantir que isso aconteça, é preciso repensar algumas de nossas suposições mais básicas sobre o que fazem corporações e o motivo de suas existências.

Por e-mail, pouco antes do lançamento de seu livro na SXSW, conversamos sobre por que nossa economia global continua presa em uma mentalidade da Era Industrial, por que Wall Street considera o Twitter um fracasso, e por que o Vale do Silício precisa começar a desenvolver empresas que não sejam voltadas apenas para ser vendidas por um retorno de investimentos saudável.

P: O que o motivou a escrever um livro sobre os fracassos da economia digital?

R: Tive a ideia no dia em que o Twitter lançou ações na bolsa, quando vi meu amigo, um dos co-fundadores, estampado na capa do Wall Street Journal com o número de bilhões que ele tinha feito naquele dia. Eu não sabia se deveria ficar feliz ou pesaroso por ele. Sim, ele estava rico, e ele havia rompido a indústria da comunicação – mas ele estava submetendo toda essa ruptura para a maior e mais perversa indústria desse grupo: a financeira.

Pior ainda, o Twitter teria de alguma maneira fornecer retornos impossíveis a seus novos investidores. Eles exigiam crescimento. Então  mesmo hoje, o Twitter – que fatura meio bilhão de dólares por semestre – é considerado uma falha abjeta por Wall Street. 

E pior do que isso tudo, essa obrigação de crescer tornou companhias antes promissoras em monopólios extrativistas. Para crescer, se valem de práticas predatórias que sugam valor de pessoas e lugares e os transformam em capital para seus acionistas. Essa obrigação de  crescimento é a causa da crescente desigualdade de riquezas, e tem sido energizada e acelerada pela tecnologia digital. Tecnologias digitais deveriam distribuir essas riquezas entre mais pessoas, não empobrecer muitos pela riqueza de alguns.

P: O alvo principal de suas críticas é o que você chama de “armadilha  do crescimento”. Desde ao menos o nascimento da corporação, você diz, nosso pensamento econômico tem sido dominado por uma implacável busca pelo crescimento. As companhias precisam continuar a extrair mais e mais  valor para serem vistas com bem sucedidas. Você sugere que chegamos a um ponto em que isso não é mais sustentável – e que particularmente a tecnologia digital pode representar uma nova forma de pensar. Você pode explicar a armadilha do crescimento e como ela fortalece nosso pensamento atual?

R: Bom, seria necessário um livro para explicar de maneira adequada, porque a exigência de crescimento para as empresas realmente vem desde a instituição do câmbio voltado a interesses, o que requer que a economia cresça para pagar por aquele interesse.

Hoje, o equivalente àqueles banqueiros são os acionistas. Eles esperam que não apenas interesse, mas incríveis ganhos sobre seus investimentos iniciais. Eles testemunharam o sucesso do Facebook e do Google e querem aquele tipo de retorno também. Então eles investem em uma empresa como o Twitter, e então esperam um retorno de 100 a 1000 vezes sobre seu investimento inicial. O fato de o Twitter render 500 milhões de dólares por bimestre é considerado uma falha abominável pelos investidores. Então o Twitter deve procurar alguma maneira de “pivotear” – ou seja, se transmutar de uma empresa muito bem sucedida, que permite às pessoas enviar mensagens de 140 caracteres, para alguma outra coisa.

Empresas comuns estão na mesma posição. Pepsi, McDonald’s, Exxon, todas tem acionistas que exigem que as ações sejam valorizadas – que a  empresa cresça. E quanto maiores as empresas ficam, mais difícil é para elas crescer. Elas já valem bilhões de dólares. De fato, os lucros  corporativos sobre o valor total tem declinado por mais de 75 anos. Os CEOs dessas empresas leem meus artigos sobre sair da armadilha do  crescimento, e me ligam implorando pela saída. Todos eles sabem que não podem continuar crescendo no ritmo exigido pelos acionistas. Eles podem fingir por um tempo, mas no fim, essa política extrativista acaba sufocando os mercados e consumidores dos quais eles dependem. Bem, no fim de tudo, eles acabam extraindo todo o valor das pessoas e lugares até não restar mais nada.

Crescimento depende de expansão. Não apenas isso, mas uma expansão  acelerada. Você precisa crescer cada vez mais rápido. E simplesmente não é possível para empresas deste tamanho fazer isso. Em vez disso elas devem aprender a pagar os acionistas com dividendos. Se gerenciarem como negócios de família, a longo prazo.

P: Você percebeu que no começo da Internet, havia expectativas profundas e sérias de que não se tornasse, como você caracterizou, uma faixa de mercado. Hoje temos as “mídias sociais” que basicamente recrutam pessoas para se tornar publicitários de seus amigos, e uma “economia de compartilhamento” dirigida pela ideia de que se você não está monetizando cada fatia do seu tempo, o está desperdiçando. Parece diferente agora – que nesses tempos talvez a Internet tenha um papel em genuinamente repensar nosso mundo econômico?

R: Bem, o que parece diferente para mim é que praticamente todo mundo vê que isso não é  sustentável. Como todo mundo pode ser pago pra fazer propaganda? O que ainda resta para anunciar? Marketing nunca representou mais de 3 ou 4% do PIB. E agora se espera que seja nossa principal indústria? Isso, e finanças? Ambos são abstrações. Quando vemos uma empresa tão bem  sucedida quanto o Twitter enfraquecendo, acabamos entendendo que o próprio modelo está doente.

Já sobre o “compartilhamento”, os motoristas do Uber nos ensinaram que isso é balela. Os motoristas desempregados do Uber estão agora tão espertos sobre políticas trabalhistas quanto os motoristas de táxi de Londres. O monopólio e as políticas do Uber se tornaram bem claras. E sim, enquanto não prego soluções tecnológicas, acredito mesmo que tecnologias em rede poderiam tornar possível uma prosperidade muito  melhor distribuída. A economia digital, até agora, não passa de industrialismo corporativo turbinado: extrair valor de pessoas e locais. Companhias digitais são como software programado para tirar moeda de circulação, e entregar a acionistas. Eles poderiam facilmente – mais  facilmente, na verdade – ser otimizadas para promover a circulação de capital. Colocado de maneira simples, menos como a Amazon, mais como o eBay. Se trata de coisas simples como deixar os motoristas do Uber receberem sua parte nos lucros da empresa, proporcionais ao trabalho que realizaram. E isso seria bem simples de calcular e autenticar com algo como um blockchain (N.T.: sistema de banco de dados distribuído, utilizado nas transações em bitcoins). Tecnologias em rede tendem para soluções mais distribuídas. É para isso que foram originalmente concebidas.

Mas o verdadeiro problema aqui é que nosso desenvolvimento tecnológico é dirigido unicamente pelas necessidades do capital.

P: O título do livro vem de um incidente em que manifestantes em Oakland, frustrados com a maneira que as empresas do Vale do Silício estão recriando a estrutura social de São Francisco, atiraram pedras no ônibus que leva os funcionários do Google ao trabalho. O que você acha que esse evento elucidou, e por que você acha que essas pedras foram apontadas na direção errada?

R: Eu não sei se pedras deveriam ser atiradas em qualquer direção. Não ainda. Os protestos originalmente não envolviam pedras, e estavam totalmente bem fundamentados – ainda estão. O Google e outras empresas do Vale do Silício estão se comportando como empresas estrangeiras. Os funcionários se mudam para São Francisco, afetando os aluguéis, empurrando negócios locais para fora dos bairros. Então usam as paradas de ônibus do transporte público para pegar ônibus privados que levam para locais de trabalho fora da cidade.

E essa crise de má distribuição de riquezas é ao mesmo tempo real e simbólica de um descontentamento maior que todos temos com os ganhos mal distribuídos da expansão da economia digital. Tento não culpar indivíduos por isso – como se houvesse algumas pessoas más causando isso. Eles não são tão maus quanto sem noção. Eles criaram negócios rompentes – realmente rompentes -, mas não chegaram a romper com o sistema operacional econômico no qual estão operando. Não são de fato empresas digitais tanto quanto empresas industriais funcionando sob esteroides digitais.

P: Você aponta a popularidade de livros como The Second Machine Age [A Segunda Era das Máquinas, tradução livre] como evidência de que apesar de estarmos em um ambiente econômico totalmente novo, ainda estamos amarrados ao pensamento da Era Industrial. Por que esse é o caso, e qual é o novo pensamento que devemos adotar?

R: Nós procuramos por esperança lá mesmo no desespero. Cada pessoa que não consegue emprego em uma grande corporação é outra pessoa que acaba descobrindo como criar e trocar valor no mundo real. Cada pessoa que não consegue empréstimo é mais uma pessoa querendo entender como moedas alternativas, bancos de trocas e ambientes comuns funcionam. Cada cidade cuja economia foi destruída por uma grande corporação é uma comunidade prestes a aprender que as únicas coisas necessárias para uma economia próspera são pessoas com talentos e pessoas com necessidades.

No momento em que deixarmos de otimizar a economia digital para o crescimento de capital, e a otimizarmos para a circulação de valor entre as pessoas, as coisas vão começar a melhorar bem rápido.

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