Admita, sua política é chata pra caralho

Este texto é uma tradução de “Your Politics Are Boring As Fuck”
por Nadia C. do coletivo CrimethInc.

 

Você sabe que é verdade. Se não é verdade, então por que todo mundo se afasta quando você fala sobre isso? Por que o número de pessoas presentes em seu grupo de debates teóricos sobre anarco-comunismo está mais baixo do que nunca? Por que o proletariado oprimido ainda não se tocou e se juntou à sua luta pela libertação mundial?

Talvez, depois de anos lutando para educá-lo sobre seu caráter de vítima, você tenha resolvido culpar essas pessoas por sua própria condição. Elas devem estar querendo viver sob o controle do capitalismo imperialista! Se não fosse assim, por que elas não mostrariam interesse nas suas causas políticas? Por que elas ainda não se juntaram a você e passaram a se acorrentar em móveis feitos de madeira tropical, ou cantar palavras de ordem em protestos cuidadosamente planejados e orquestrados, ou frequentar livrarias anarquistas? Por que essas pessoas ainda não sentaram pra estudar toda a terminologia necessária pra entender verdadeiramente todas as complexidades da teoria econômica marxista?

A verdade é: sua política é um saco pra essas pessoas porque ela é realmente irrelevante. Elas sabem que suas formas antiquadas de protesto – as marchas, os cartazes, os encontros – já não têm mais poder de produzir mudanças reais porque acabaram virando uma parte previsível do status quo. Elas sabem que suas expressões pós-marxistas afastam as pessoas porque se trata de uma linguagem de meras disputas acadêmicas, e não de uma arma capaz de enfraquecer sistemas de controle. Elas sabem que suas brigas internas, os rachas entre grupos e suas discussões intermináveis sobre teorias efêmeras são incapazes de causar mudanças reais no mundo que elas experimentam dia após dia. Elas sabem que, não importa quem governe, que leis estejam nos livros, sob que “ismo” intelectuais estão marchando, o conteúdo de suas vidas vai ser o mesmo. Elas sabem, e nós sabemos, que nosso tédio é prova de que essas “políticas” não são a chave para mudar a vida de verdade. Nossas vidas já são um tédio! 

E você também sabe disso. Para quantas pessoas a política é uma responsabilidade? Algo que você faz porque acha que deve fazer, quando lá no fundo você preferia estar fazendo milhões de outras coisas? Seu trabalho voluntário – ele é seu passatempo favorito, ou você só faz porque se sente na obrigação? Por que você acha que é tão difícil convencer outras pessoas a fazer o mesmo trabalho voluntário que você? Será que, acima de tudo, é um sentimento de culpa que te faz cumprir seu “dever” de ser uma pessoa politicamente ativa? Talvez você esteja tentando (de forma consciente ou não) tornar seu “trabalho” mais interessante arrumando confusão com as autoridades, indo parar na delegacia: e não porque isso vai ajudar em algo na sua causa, mas pras coisas ficarem mais excitantes, pra retomar algo do romance de épocas turbulentas que agora estão longe no passado. Você já se sentiu como se estivesse participando de um ritual, de uma tradição há muito estabelecida de manifestações marginais, que servem apenas pra fortalecer a posição dominante? Você já quis secretamente fugir da estagnação e do tédio de suas “responsabilidades” políticas? 

Não é nenhuma supresa que ninguém tenha se juntado a você nas suas aventuras políticas. Talvez você ache que elas são um trabalho duro, ingrato, que alguém tem de fazer. Bem, a resposta é… NÃO.

Você na verdade faz um desfavor a todo mundo com sua política cansativa e entendiante. Porque, de fato, não tem nada mais importante que política. NÃO essa política da “democracia” americana e da lei, de quem é eleito pra legislar num estado e assinar as mesmas leis e perpetuar o mesmo sistema. Não é a política do anarquista do tipo “Eu me envolvi com a esquerda radical porque curto perder tempo discutindo detalhes triviais e escrever de forma retória sobre uma utopia que não podemos alcançar”. Não é a política de qualquer líder ou ideologia que exige sacrifícios “pela causa”. Mas a política de nosso cotidiano. Quando você separa a política das experiências imediatas e cotidianas de homens e mulheres, ela se torna completamente irrelevante. E ela se torna o domínio particular de intelectuais confortáveis e com grana, que podem se dar o luxo de se preocupar com coisas tão teóricas e deprimentes. Quando você se mete na política por um senso de obrigação, e transforma a ação política em uma responsabilidade entendiante e não em um jogo excitante que vale a pena por si só, você espanta as pessoas cujas vidas já são entediantes demais pra aguentar qualquer tédio adicional. Quando você faz da política uma coisa sem vida, sem alegria, uma responsabilidade terrível, ela vira apenas mais um peso nas costas das pessoas, em vez de ser uma forma de tirar o peso de cima delas. E assim você acaba com a ideia de política pra quem mais precisa. Todas as pessoas precisam pesar riscos e recompensas ao pensar na sua própria vida e se perguntarem o que querem dela e como vão alcançar seus objetivos. Mas você faz com que política pareça pra elas um jogo de classe média/boêmio, sem sentido, miserável e circular; um jogo que não tem relevância alguma pras vidas reais que elas estão vivendo.   

O que deveríamos considerar como coisas “políticas”? Que possamos curtir o que fazemos pra conseguir comida e casa. Que sintamos que nossas interações cotidianos com pessoas amigas, vizinhas, e que trabalham conosco, tragam satisfação. Que tenhamos a oportunidade de viver cada dia da forma que desejamos. E “política” deveria consistir não apenas de discutir essas coisas, mas de agir de forma direta pra melhorar nossas vidas no presente imediato. Agir de forma que seja ela mesma divertida, excitante, alegre – porque uma ação política que seja entendiante, cansativa, e opressora só pode perpetuar o tédio, o cansaço e a opressão em nossas vidas. Chega de perder tempo discutindo coisas sobre coisas que se tornarão irrelevantes quando formos trabalhar no dia seguinte. Chega de protestos rituais previsíveis com os quais as autoridades já sabem muito bem como lidar – chega de prostestos rituais e chatos que não vão parecer uma coisa divertida pra se fazer num sábado de tarde para as pessoas que poderiam ser voluntárias – essas coisas claramente não vão nos levar a lugar algum. Nunca mais vamos nos “sacrificar pela causa”. Porque nós, a felicidade em nossas vidas e nas vidas das pessoas próximas devem ser nossa causa!

Depois de tornarmos a política algo relevante e excitante, vem o resto. Mas de uma política deprimente, meramente teórica e/ou ritualizada, nada de valor pode surgir. Isso não quer dizer que não devemos mostrar interesse no bem-estar de seres humanos, animais ou ecossistemas que não estão em contato direto conosco na nossa existência cotidiana. Mas o fundamento da política deve ser concreto: deve ser imediato, deve ser óbvio pra todo mundo o porquê disso valer nosso esforço, deve ser algo por si só divertido. Como podemos fazer algo positivo pra vida de outras pessoas se não curtimos nossas próprias vidas? Vamos dar exemplos concretos disso por um momento: uma tarde catando alimentos que teriam sido jogados fora por comerciantes e alimentando pessoas famintas e as que estão cansadas de pagar por comida – isso é uma boa ação política, mas só se você curtir fazer isso. Se você faz algo com pessoas que são suas amigas, se você faz novas amizades durante a ação, se você se apaixona ou troca histórias divertidas ou simplesmente sente orgulho por ter ajudado uma mulher ao amenizar suas necessidades financeiras; então é uma boa ação política. Por outro lado, se você passa sua tarde escrevendo uma carta raivosa pra um jornal obscuro de esquerda, argumentando contra o uso do termo “anarco-sindicalista” por algum colunista, isso não vai servir de porra nenhuma, e você sabe disso. 

Talvez esteja na hora de um novo termo pra falar de “política”, já que você transformou a palavra num palavrão. Porque ninguém deveria se afastar quando falamos de agir em conjunto pra melhorar nossas vidas. E assim apresentamos nossas demandas, que não são negociáveis, e devem ser atendidas o mais rápido possível – porque não vamos viver pra sempre, né?

1 – Façam com que política volte a ser algo relevante em nossa experiência cotidiana de vida novamente. Quanto mais longe estiver o objeto de nossas preocupações políticas, menos ele vai significar pra nós, menos real e urgente ele vai parecer pra nós, e mais cansativa será a política. 

2 – Toda atividade política deve ser algo alegre e excitante por si só. Não dá pra escapar da infelicidade com mais infelicidade. 

3 – Para cumprir esses dois primeiros passos, abordagens e métodos políticos completamente novos deverão ser criados. Os velhos são ultrapassados e estão desatualizados. Talvez eles NUNCA tenha sido bons, e deve ser por isso que nosso mundo está do jeito que está no momento. 

4 – Divirtam-se! Nunca tenham uma desculpa pra estarem entediadas e entediados… ou para serem entediantes!

Junte-se a nós pra fazer da “revolução” um jogo divertido; um jogo que seja jogado pelas recompensas mais altas de todas, mas ainda assim um jogo alegre e despreocupado.

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Kommentare

6 comments for Admita, sua política é chata pra caralho

  1. Henrique commented at

    Muito bom, texto excelente. Poderia ser atualizado com mais e mais perspectivas entediantes para que possamos rir e aprender o que devemos melhorar!

    • Luís Gustavo commented at

      Este sim é um texto que traduz o estado das coisas no presente. Parabéns!

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