[Opinião Pirata] Progressistas vs Conservadores

por Wilson Cardoso

Há algum tempo, fiz um texto falando sobre as diferenças entre direita e esquerda e onde o Partido Pirata se encaixava nisso. Para isso, eu procurei fazer uma uma pequena retrospectiva sobre esses dois conceitos, como surgiram e como eles foram se alterando e se adaptando ao longo da História.

Esse tipo de retrospectiva é importante pois mostra que, longe de serem elementos com uma definição única e imutável, direta e esquerda são, na verdade, conceitos que foram alterando seu significado de acordo com os contextos de cada época e local. Isso se deve a duas razões: primeiro por esses dois conceitos estarem relacionados muito mais à uma dimensão ético-moral do que algo com um significado exato. Basta pensar na clássica definição de Deleuze que o de Esquerda é aquele que pensa no outro antes de si mesmo, colocando uma forte ênfase moral e quase missionária sobre quem se posiciona como sendo de esquerda.

Em segundo lugar, porque pelo próprio caráter relativista do conceito, não existe uma “esquerda” propriamente dita, mas apenas elementos que estariam mais ou menos à sua esquerda. O PT, por exemplo, se considera mais de esquerda do que o PSDB, enquanto o PSOL certamente se considera mais de esquerda do que o PT. Já o PSTU e PCO certamente se consideram mais de esquerda do que o PT e o PSOL e assim por diante.

Por esse motivo, embora os conceitos de esquerda e direita sejam muito interessantes para a construção da identidade de um indivíduo ou instituição, e para quem procura se localizar ideologicamente em um determinado ambiente político ou em um equilíbrio de grupos de interesse, eles acabam não sendo muito úteis para aquelas pessoas interessadas em um diagnóstico claro sobre os méritos das ideias que estão em discussão.

Por esse motivo, muitas vezes prefiro evitar esquerda e direita para descrever um determinado cenário político em prol de uma outra terminologia: Progressistas vs Conservadores.

 

Qual a diferença?

Longe de ser um mero detalhe, essa preferência não apenas se refere aos significados mais claros que esses termos carregam; essa divisão explica de maneira muito melhor o ambiente político que passou a transparecer no Brasil após os protestos de junho de 2013, mas principalmente com a ascensão do Governo Temer ao poder que tem não apenas uma retórica, mas também tem em grande parte de sua base de apoio grupos de interesse com características claramente conservadoras.

E qual a principal diferença entre os dois grupos? Como poderíamos caracterizá-los? Bom, enquanto a divisão entre a esquerda e direita me parece estar relacionada muito mais a um posicionamento moral ou a uma postura pessoal em relação aos problemas sociais, a principal diferença entre Progressistas e Conservadores estaria relacionada muito mais a uma percepção particular de como essas pessoas enxergam o mundo.

Resumidamente, a ideia é que, enquanto Progressistas enxergam os problemas sociais sob um caráter mais estrutural, relacionando os mesmos a uma falha nas regras do sistema e no funcionamento da sociedade, Conservadores costumam analisar esses mesmos problemas sob algum aspecto moral, relacionando eles a fatores como a decadência de valores éticos ou a perda de valores familiares.

Podemos citar como exemplos os recentes casos de corrupção notificados durante a Operação Lava-Jato. Para conservadores, esses casos estariam relacionados muito mais a uma crise moral e ética da classe política e eles não ocorreriam se tivéssemos pessoas corretas e “de bem” ocupando esses cargos. Da mesma forma, outros problemas como a violência cometida entre menores de idade estariam relacionados com a perda dos valores familiares e de valores fundamentais, o que leva ao conhecido discurso que divide o Brasil entre “bandidos” e as pessoas “de bem”.

Já sob uma visão progressista, os recentes casos de corrupção no Governo e na Petrobrás estariam relacionados não a um problema moral dos agentes que estão no poder, mas a falhas endêmicas no nosso sistema político-eleitoral, que estaria selecionando as pessoas erradas para os cargos de representação. Falhas e pessoas, aliás, que não são problemas exclusivos de hoje, mas claramente mostram vícios de comportamento que vêm se arrastando há décadas no Brasil de maneira sistemática.

 

A Esquerda Conservadora e a Direita Progressista

Embora os discursos progressista e de esquerda frequentemente se misturem no cotidiano, eles não são a mesma coisa. Tanto que não é difícil pensar em exemplos de conservadores de esquerda ou progressistas de direita, bastando um pouco mais de atenção.

Os conservadores de esquerda, por exemplo, são aquelas pessoas que se identificam moralmente com os dogmas clássicos da Esquerda Tradicional e que acreditam que grande parte dos problemas do mundo não são resolvidos porque nem todos chegaram na mesma conclusão ou diagnóstico que o dele, geralmente uma solução simples e de caráter extremista derivada de alguma ideia mais ampla defendida por algum intelectual do século XIX

Proselitistas e moralistas, eles não titubeiam em listar as mazelas do mundo moderno, os problemas do capitalismo ou da democracia burguesa, mas sem apontar soluções claras paras esses mesmos problemas. Tudo parece depender apenas da vontade política e da reivindicação de antigas bandeiras, como se os problemas do mundo pudessem ser resolvidos apenas no grito.

Já os progressistas de direita podem ser relacionados com aquelas pessoas que defendem os antigos valores tradicionais da Direita como a Meritocracia e o modelo tradicional de família, mas que já possuem conhecimento técnicos suficiente pra perceber que nem todos os problemas estão relacionado à uma decadência moral. Esses defendem reformas localizadas e cirúrgicas no sistema político-econômico, mas de maneira que não venham a comprometer sua integridade, apenas aumentar sua eficiência.

Tecnocratas, essas pessoas buscam acima de tudo melhorar critérios de eficiência, sempre considerando que o esforço individual deva ser recompensado. Pouco criativas, elas parecem sofrer do que o Filósofo Marxista Žižek denomina de alienação no mundo contemporâneo, que é quando você não consegue conceber que possam existir outras formas de organização da sociedade para além daquelas que já existem e já se encontram plenamente documentadas.

 

Direita e Esquerda estão ultrapassados?

Embora eu tenha buscado elencar uma maneira diferente de dividir os atores políticos, eu não estou recomendando que as pessoas deixem de usar conceitos como direita ou esquerda, muito pelo contrário. Primeiro, porque esses termos estão entranhados demais no caráter das discussões políticas cotidianas para serem deixados de lado. Segundo, porque a dimensão ético-moral continua sendo extremamente relevante no debate político. Você não pode simplesmente deixá-la de lado, pois isso acaba fazendo com que o debate político assuma um aspecto meramente técnico e burocrático, o que é perigoso.

Em uma recente entrevista a líder dos Piratas da Islândia Birgitta Jónsdóttir, por exemplo, descreveu o Partido Pirata como um Partido Tecnocrata e Revolucionário, por estar disposto a derrubar os velhos conceitos do sistema representativo e a pensar em um novo modelo de Democracia mais direta e participativa. Até aí nenhuma surpresa, pois a ligação dos Piratas com a área da Tecnologia certamente leva seus membros a analisar os problemas da sociedade sob um caráter mais técnico e consequentemente estrutural, o que poderia ser relacionado com a Tecnocracia.

O peso e o perigo da palavra Tecnocrata, no entanto esboçam riscos como o modelo de Estado presente no filme (e livro) “Cloud Atlas” e dos quadrinhos “V de Vingança”, no qual termos um futuro distópico em que o Governo é feito por um conjunto de Tecnocratas guiados meramente por critérios técnicos de eficiência e uma gestão centralizada em detrimento da interação humana.

Portanto, embora essas considerações hoje tenham um caráter mais especulativo e próximo da ficção científica, ainda mais considerando a grande lacuna tecnológica que o Brasil ainda tem a superar, não devemos deixar de lado o caráter ético-moral trazido pelos termos direita-esquerda no debate político, pois isso faria com ele perdesse parte de seu significado e sua relevância para o cotidiano e ao homem comum.


Kommentare

4 comments for [Opinião Pirata] Progressistas vs Conservadores

  1. Aristóteles commented at

    atitudes conservadoras o Brasil está cheio??? onde, só vejo movimentos revolucionários desde o ínicio da Re(s)pública

  2. Aristóteles commented at

    CAra, gostei do teu texto, entretanto vc peca mto ao qualificar conservadores como pessoas ligadas ao PMDB e o atual governo Temer, ora bolas, estamos no 2° mandato Dilma-Temer, antes disto o PMDB era ligado ao PSDB (sociais democratas), isto é, o PMDB representa o estamento burocrático oligárquico, nada mais do que isto! Quer aprender sobre conservadorismo? procure ler João Pereira Coutinho, Mártin Vasquez da Cunha e Eduardo Wolf ou ver canais do youtube do Bruno Garchagen, Alexandre Borges e bunker do dio. Ainda, recomendo ler as cartas de Thomas Jefferson vs Jonh Adams ou na Inglaterra Thomas Paine vs Edmond Burke; fica a dica, tenho interesse neste partido, mas espero que a pauta conservadora não seja analisada como teoria de conspiração.

  3. Null commented at

    Me parece que no Brasil o Partido Pirata está tomando um rumo completamente diferente de sua proposta inicial, se distanciando de sua origem “Tecnocrata”, que era justamente seu diferencial. O simples medo desse termo Tecnocrata, uma atitude conservadora, é algo que o Partido Pirata definitivamente não deveria ter.

    Mais revolução, mais tecnologia, piratas.
    Não sejam apenas mais um partido.
    Não caiam no jogo político.

    De atitudes conservadoras esse país já está cheio.

  4. Luis Gustavo commented at

    Faltou falar sobre o Estado, é preciso falar sobre o Estado. Piratas serão domesticados por ele propondo regulações mais brandas tentando a mudança “por dentro” ou vão resistir seguindo o vídeo que recupero aqui sobre organizações piratas:

    https://www.youtube.com/watch?v=VnDLkFS_12M

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Diga aos deputados: não censurem nossa Internet

Olá congressista!

O projeto de lei 5.204/16 propõe o bloqueio de acesso a sites "precipuamente dedicados ao crime" hospedados no exterior e sem representação no Brasil, excluindo, expressamente, a possibilidade de bloqueio de aplicativos de troca instantânea de mensagens (sim, o WhatsApp).

Em sua justificativa, anexa ao projeto, argumenta-se que hoje, para se retirar do ar sites criminosos - incluindo aqueles de ponografia infantil e de tráfico de drogas - tem que se expedir uma carta rogatória (documento que pede cumprimento de ordem judicial brasileira no exterior) para o servidor. Por ser demorada, não seria medida adequada de combate a esses crimes, devendo-se, então, bloquear o acesso de brasileiros a tais sites.

Contudo, há um grande problema nessa lógica de combate ao crime: sites que cometem crimes hediondos e torpes, como a pornografia infantil, NÃO estão na internet normal (surface web), e sim na internet não-indexada (deep web). O que isso quer dizer? Que não há como bloquear acesso a esses sites pelas medidas propostas pelo PL. E mesmo que essas trocas de material ilegal na internet esteja sendo feita em território brasileiro, a justiça já tem meios para combatê-las (a operação DarkWeb II da Polícia Federal,  de combate a pornografia infantil online, criminalizada no art. 241-A do Estatuto da Criança e Adolescente, estourou no dia 22/11/2016).

Ou seja, a título de combate a crimes graves, estão dando de um jeitinho de bloquear sites que desatendem aos interesses da indústria fonográfica, punindo a população ao dificultar acesso à informação, cultura e conhecimento.

Ainda que a primeira coisa que venha à mente nessas situações sejam os sites que disponibilizam filmes e séries inteiras para download ilegal, como o MegaFilmesHD e outros sites que já foram fechados, o PL não é nada claro com relação ao que seria considerado um provedor "precipuamente dedicado à pratica de crime", e as violações estabelecidas pela Lei de Direitos Autorais não se limitam ao compartilhamento ilegal de obras protegidas.

Na verdade, está bem longe disso.

A utilização derradeira de determinadas obras protegidas para produção de alguns tipos de obras derivadas –como remix de músicas, fotos para memes e vídeos que utilizam trechos de filmes para desenvolver críticas a eles (O Partido Pirata até já satirizou a #CPICIBER através de um vídeo) – não é permitida pela lei, consistindo em violação ao direito autoral, o que é abrangido pelo PL em questão. A utilização pode ter finalidade lucrativa ou não, o autor da obra derivada pode ser profissional ou amador - não importa, não pode! É possível que esse tipo de utilização bastasse para justificar o bloqueio de determinado provedor de aplicação.

Plataformas que viabilizam o compartilhamento desse tipo de conteúdo em massa e que poderiam eventualmente ser bloqueadas pelo PL são: o Vimeo (plataforma de vídeos); O YouTube (plataforma de vídeo); o SoundCloud (plataforma de músicas); o Flickr (plataforma de fotografia); o MemeGenerator (site que facilita a elaboração de memes) e até mesmo sites dedicados ao compartilhamento de FanFiction –outro tipo de manifestação cultural que é considerada ilegal pela Lei de Direitos Autorais. Nesse sentido, o bloqueio proposto pelo PL 5.204/16 é problemático sob quatro óticas distintas: para os provedores de aplicação, para os autores dos conteúdos, para os usuários e para o interesse público como um todo.

Para os provedores de aplicação, a medida é desproporcional, pois enseja no bloqueio de todos os seus serviços no país, independente de parte dele estar dentro da legalidade ou não. Por exemplo, o SoundCloud, caso bloqueado, o será por completo, apesar de servir também como plataforma para o compartilhamento de obras de forma legal. Já o YouTube poderá ser censurado por disponibilizar vídeos de paródias de músicas, trailers feito por usuários, etc.

Para os autores, o grande problema é a insegurança jurídica gerada pela medida. Como muitas das utilizações não são permitidas pela lei atual, não é possível saber até que ponto elas serão usadas para bloquear o acesso a suas obras. No mais, criadores de conteúdo que produzem obras completamente permitidas pela lei e disponibilizam-nas nessas plataformas serão penalizados por causa daqueles que compartilham obras de forma ilegal. Já para os usuários, a medida é problemática por prejudicar o livre acesso à internet e o acesso às demais obras (legais) hospedadas nessas plataformas –elementos essenciais do direito constitucional de acesso à cultura.

E, por último, para o interesse público, o PL é potencialmente ainda mais perigoso, já que o bloqueio a determinados serviços, com a justificativa de violação ao direito autoral, pode ser utilizado para cercear a liberdade de expressão. O exemplo dos vídeos que utilizam trechos de filmes para criticá-los é ilustrativo, mas grandes produtoras cinematográficas poderão solicitar o bloqueio de sites que hospedem esse tipo de vídeo com o argumento de que seus direitos autorais foram violados.

Este projeto de lei, portanto, se caracteriza como uma medida de combate direto à cultura de compartilhamento, já difundida na nossa geração. O objetivo explicitado no anexo fica em segundo plano, deixando margem para interpretá-lo apenas como um pretexto. Sendo assim, pode-se dizer que não é exagero especular que se trata de uma manobra movida pelo lobby da indústria audiovisual para esconder uma medida conhecidamente impopular.

Assine a petição, entre em contato com seu deputado: lute por uma Internet Livre e contra projetos de censura!

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