Por que professores estão escrevendo porcarias que ninguém lê

Daniel Lattier (versão em português: Givaldo Corcinio)

Professores universitários normalmente gastam entre 3 e 6 meses (as vezes mais tempo ainda) pesquisando e escrevendo artigos de 25 páginas para submetê-los para revistas acadêmicas. E a maior expectativa é de receber um e-mail – ou uma carta – meses depois informando que seu artigo foi aceito para publicação e que ele poderá ser lido por uma média de… dez pessoas.

Sim, você leu corretamente! Os números apontados por estudos recentes são assustadores:

– 82% dos artigos publicados em humanidades não foram citados nem uma única vez;
– Dos que foram citados, apenas 20% foram realmente lidos;
– Metade dos artigos acadêmicos nunca foi lido por alguém que não fosse seu autor, os pareceristas e os editores das revistas.

Então, qual o motivo dessa sandice? Por que o mundo continua a publicar quase 2 milhões de artigos acadêmicos por ano?

Bom, a maior motivação é dinheiro e garantia de emprego. O objetivo de todos os professores é se efetivar e, ainda hoje, a efetivação é baseada em parte pelo quanta publicação em revistas acadêmicas se tem. Os conselhos de avaliação tratam essas publicações como evidência de que o professor tem condições de conduzir pesquisas mais profundas e maduras.

Infelizmente, todavia, muitos artigos acadêmicos atualmente são meros exercícios do que um professor que conheci chamou de “plágio criativo”: reorganização de pesquisas antigas com uma tese nova vinculada a elas.

Outro motivo é o crescimento da especialização da era moderna, o que fez com que as universidades se dividissem em diversas disciplinas e departamentos, cada qual com sua própria lógica.

Um efeito infeliz dessa especialização é que o assunto da maioria dos artigos acaba se tornando inacessível para o público, e até mesmo para a maioria esmagadora dos professores. (Acredite em mim: a maior parte dos acadêmicos sequer quer ler os textos dos seus colegas) Alguns dos títulos no mais recente número da “journal of the American Academy of Religion”, que se proclama como a “melhor revista acadêmica do campo de estudos religiosos”, serve como exemplo:

“Rosário da Dona Benta: Administrando a ambiguidade num grupo de oração feminino brasileiro”
“Morte e demonização do Bodhisattva: Reformulação de Guanyin e Religião Chinesa”
“Noivas e Manchas: Deficiências femininas incomuns na lei matrimonial rabínica”

Assim, o crescimento da especialização tem causado o crescimento da alienação, não só entre os professores e o público em geral, mas também entre os professores mesmo.

Tudo isso é muito desanimador. Idealmente, as grandes mentes da acadêmia podem produzir para sacudir uma sociedade para resolver seus problemas. Entretanto, a maioria dos acadêmicos ocidentais estão usando seu capital intelectual para responder questões que ninguém questionou em páginas que ninguém lê.

E isso é um lixo


Kommentare

7 comments for Por que professores estão escrevendo porcarias que ninguém lê

  1. Virgilio commented at

    Marina e Henrique: ❤️❤️❤️❤️❤️
    Excelentes comentários. A provocação do texto, infelizmente, torna-se rasa por não passar disso: uma provocação.

    Criticar a PM, a justiça, os políticos, a academia, as ciências humanas, as exatas? Não é difícil fazer isso. Até as “grandes mentes” na academia (assim como médias e rasas) já perceberam os problemas da academia. Várias delas buscam contornar esses problemas diariamente.

    Já pensou se esse texto fosse a descoberta desses problemas? Teria ajudado bastante essas pobres mentes acadêmicas. Infelizmente, não é tão diferente de um cara explicar para uma mulher o que é ‘mansplanning’.

    Agora, analisar porque as coisas são/estão assim e propor opções para contornar esses problemas, é aí que as coisas mudam. Daí o bicho pega e fica mais difícil passar da etapa da crítica. O comentário da Marina, em específico, é extremamente feliz e pertinente. O clique valeu mais pelo comentário dela que pela provocação original.

    Um ponto de partida, uma introdução, pra ver que o problema é bem maior e mais difícil de se combater pode ser Homo Academicus, de Bourdieu: https://www.goodreads.com/book/show/643485.Homo_Academicus

  2. Kauê Maia commented at

    Ótimo tema.
    Péssima abordagem.

    Todos concordam que muitos dos artigos são “lixo”. Mas temos que lembrar que as vezes do lixo uma pessoa fica rica.

    A crítica parece tentar desmerecer artigos humanísticos, mas pelo visto ele não pesquisou muito, pois todos sofrem deste mal.

    Poderia ao invés de só criticar, fazer algo para mudar isso.
    Por exemplo links para ler artigos acadêmicos.

    Acredito que o Partido Pirata não tenha vindo apenas para ser mais um com críticas rasas e matérias sensacionalistas. Assim eu espero.

    Para não ser mais um lixo entre tantos outros.

  3. Henrique commented at

    Pertinente a provocação, mas a crítica à Academia frequentemente flerta com o mero e vulgar anti-intelectualismo. Infelizmente este texto – que vai ser lido por mais de dez pessoas, certamente – não conseguiu fugir à regra.

  4. Marina commented at

    O autor podia ter falado sobre os níveis de produtividade exigidos dos acadêmicos;
    dos tempos de pesquisa das ciências humanas e ciências duras, que são diferentes,
    e ainda assim se exige “resultados” numa rapidez cada vez maior, na lógica das ciências duras;
    poderia ter falado sobre divulgação científica, os monopólios das grandes editoras, as plataformas
    pagas, os indexadores, enfim, os vieses no acesso à informação científica e como isso influencia
    no “simples” fato dos artigos não serem lidos ou nem ao menos serem publicados; poderia ter
    falado das desigualdades entre norte e sul e como os acadêmicos do sul têm que fazer o duplo trabalho
    de acompanhar o que se passa no “centro” e ainda tentar criar alguma coisa genuína; poderia ter falado
    de como os estadunidenses são incapazes de ler qualquer coisa em outra língua, de forma que publicar
    em inglês se torna obrigatório; ele poderia ter falado da instabilidade da carreira, da incerteza, do fato
    do mercado de trabalho ser tão restrito, e que publicar é O trabalho de um pesquisador. Poderia ter se
    questionado sobre o que ele próprio está entendendo por “utilidade” das ciências humanas, e que, como
    em qualquer campo, não existem apenas “grandes mentes” na academia, existem também pessoas medianas,
    felizmente, que estão fazendo o trabalho “braçal” pros “grandes caras”, muitas vezes.
    Ele falou de especialização, mas esqueceu que existe um fenômeno
    de inter/transdisciplinaridade que é novo e super interessante, e que existe um processo de reorganização
    da pesquisa estruturada a partir de temas (como aquecimento global, por ex.) e não disciplinas.
    Mas não, o cara achou por bem escrever um comentário absolutamente raso, e fazer exatamente o
    que critica, como apontou o Anderson, além de falar que o que se produz é lixo. Como saber, se ele mesmo
    diz que ninguém lê? Nem ele, pelo visto.

  5. Ujo commented at

    Olá, apesar da acidez do texto, percebo uma crítica pertinente o caminho que a pós-graduação (em sentido lato e amplo) e o ambiente acadêmico percorre. Na condição de futuro pesquisador, fico preocupado com essa questão de trabalhar tanto para quase ninguém ver os trabalhos e soluções propostas. Por isso a importância de pesquisar as mazelas sociais, as quais terei mais atenção em virtude do insight que tive ao ler o seu texto. Valeu!

  6. Anderson commented at

    “as grandes mentes da acadêmia”
    Um assunto tão caro merece uma redação mais apurada. Esse texto apenas reproduz outras perspectivas. Poderia avançar apontando novos caminhos adequados à perspectiva pirata. Aí eu pergunto: o texto aqui publicado não faz o mesmo que ele critica? Ainhda que seja divulgação científica e não de ciência de fato?

    • Kannon commented at

      Se o texto ao menos gerou interesse de discutir tal tema ele já fez seu papel. Acho esse ‘buzz’ necessário.
      P-)

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Diga aos deputados: não censurem nossa Internet

Olá congressista!

O projeto de lei 5.204/16 propõe o bloqueio de acesso a sites "precipuamente dedicados ao crime" hospedados no exterior e sem representação no Brasil, excluindo, expressamente, a possibilidade de bloqueio de aplicativos de troca instantânea de mensagens (sim, o WhatsApp).

Em sua justificativa, anexa ao projeto, argumenta-se que hoje, para se retirar do ar sites criminosos - incluindo aqueles de ponografia infantil e de tráfico de drogas - tem que se expedir uma carta rogatória (documento que pede cumprimento de ordem judicial brasileira no exterior) para o servidor. Por ser demorada, não seria medida adequada de combate a esses crimes, devendo-se, então, bloquear o acesso de brasileiros a tais sites.

Contudo, há um grande problema nessa lógica de combate ao crime: sites que cometem crimes hediondos e torpes, como a pornografia infantil, NÃO estão na internet normal (surface web), e sim na internet não-indexada (deep web). O que isso quer dizer? Que não há como bloquear acesso a esses sites pelas medidas propostas pelo PL. E mesmo que essas trocas de material ilegal na internet esteja sendo feita em território brasileiro, a justiça já tem meios para combatê-las (a operação DarkWeb II da Polícia Federal,  de combate a pornografia infantil online, criminalizada no art. 241-A do Estatuto da Criança e Adolescente, estourou no dia 22/11/2016).

Ou seja, a título de combate a crimes graves, estão dando de um jeitinho de bloquear sites que desatendem aos interesses da indústria fonográfica, punindo a população ao dificultar acesso à informação, cultura e conhecimento.

Ainda que a primeira coisa que venha à mente nessas situações sejam os sites que disponibilizam filmes e séries inteiras para download ilegal, como o MegaFilmesHD e outros sites que já foram fechados, o PL não é nada claro com relação ao que seria considerado um provedor "precipuamente dedicado à pratica de crime", e as violações estabelecidas pela Lei de Direitos Autorais não se limitam ao compartilhamento ilegal de obras protegidas.

Na verdade, está bem longe disso.

A utilização derradeira de determinadas obras protegidas para produção de alguns tipos de obras derivadas –como remix de músicas, fotos para memes e vídeos que utilizam trechos de filmes para desenvolver críticas a eles (O Partido Pirata até já satirizou a #CPICIBER através de um vídeo) – não é permitida pela lei, consistindo em violação ao direito autoral, o que é abrangido pelo PL em questão. A utilização pode ter finalidade lucrativa ou não, o autor da obra derivada pode ser profissional ou amador - não importa, não pode! É possível que esse tipo de utilização bastasse para justificar o bloqueio de determinado provedor de aplicação.

Plataformas que viabilizam o compartilhamento desse tipo de conteúdo em massa e que poderiam eventualmente ser bloqueadas pelo PL são: o Vimeo (plataforma de vídeos); O YouTube (plataforma de vídeo); o SoundCloud (plataforma de músicas); o Flickr (plataforma de fotografia); o MemeGenerator (site que facilita a elaboração de memes) e até mesmo sites dedicados ao compartilhamento de FanFiction –outro tipo de manifestação cultural que é considerada ilegal pela Lei de Direitos Autorais. Nesse sentido, o bloqueio proposto pelo PL 5.204/16 é problemático sob quatro óticas distintas: para os provedores de aplicação, para os autores dos conteúdos, para os usuários e para o interesse público como um todo.

Para os provedores de aplicação, a medida é desproporcional, pois enseja no bloqueio de todos os seus serviços no país, independente de parte dele estar dentro da legalidade ou não. Por exemplo, o SoundCloud, caso bloqueado, o será por completo, apesar de servir também como plataforma para o compartilhamento de obras de forma legal. Já o YouTube poderá ser censurado por disponibilizar vídeos de paródias de músicas, trailers feito por usuários, etc.

Para os autores, o grande problema é a insegurança jurídica gerada pela medida. Como muitas das utilizações não são permitidas pela lei atual, não é possível saber até que ponto elas serão usadas para bloquear o acesso a suas obras. No mais, criadores de conteúdo que produzem obras completamente permitidas pela lei e disponibilizam-nas nessas plataformas serão penalizados por causa daqueles que compartilham obras de forma ilegal. Já para os usuários, a medida é problemática por prejudicar o livre acesso à internet e o acesso às demais obras (legais) hospedadas nessas plataformas –elementos essenciais do direito constitucional de acesso à cultura.

E, por último, para o interesse público, o PL é potencialmente ainda mais perigoso, já que o bloqueio a determinados serviços, com a justificativa de violação ao direito autoral, pode ser utilizado para cercear a liberdade de expressão. O exemplo dos vídeos que utilizam trechos de filmes para criticá-los é ilustrativo, mas grandes produtoras cinematográficas poderão solicitar o bloqueio de sites que hospedem esse tipo de vídeo com o argumento de que seus direitos autorais foram violados.

Este projeto de lei, portanto, se caracteriza como uma medida de combate direto à cultura de compartilhamento, já difundida na nossa geração. O objetivo explicitado no anexo fica em segundo plano, deixando margem para interpretá-lo apenas como um pretexto. Sendo assim, pode-se dizer que não é exagero especular que se trata de uma manobra movida pelo lobby da indústria audiovisual para esconder uma medida conhecidamente impopular.

Assine a petição, entre em contato com seu deputado: lute por uma Internet Livre e contra projetos de censura!

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