Por que a privacidade é necessária: desfazendo o “Não tenho nada a esconder”

por Guilherme Júlian

Com o surgimento do PRISM , sistema de vigilância de dados norte-americano, a maioria dos usuários de internet se mostrou contra. No entanto, há um argumento que aparece de vez em quando em relação a estes temas: o “Não tenho nada a esconder”

A explicação é simples: se não faço nada de mal, não tenho nada a esconder. E se não tenho nada a esconder, o que tem de mais o Governo ler minhas mensagens? Além disso, é pela minha segurança… não? Na verdade, esse argumento é bem ruim. Vejamos o porquê.

 

Bayes e a probabilidade de um falso positivo

Existe um teorema básico da probabilidade, o Teorema de Bayes , que nos fala da probabilidade condicional de dois eventos. A fórmula, que está logo acima, não nos interessa muito no momento, de maneira que o explicaremos com um exemplo.

Suponhamos que temos nosso país de 10 milhões de habitantes com um sistema de vigilância incrivelmente preciso. Há 99,9% de probabilidade de detectar corretamente um criminoso e apenas 1% de falsos positivos (pessoas detectadas como criminosos, mas que na verdade são perfeitamente normais). Por outro lado, estimamos que em nosso país há cerca de 100.000 criminosos.

Quando buscamos uma pessoa entre milhões vamos ter muitos falsos positivos, por melhor que seja o nosso sistema. Com as probabilidades que temos, vamos caçar cerca de 99.900 desses criminosos. Que bom, olha que seguro estamos.

No entanto, há um problema: o sistema detectou como criminosos cerca de 100.000 pessoas inocentes. Ou seja, o nosso super sistema de vigilância somente acertou em 49,9% das vezes com seu diagnóstico. Já não é tão eficiente, não é verdade?

Quanto menos comum é o que procuramos, maior é a probabilidade de haver um falso positivo. Se montamos um sistema de vigilância de milhões de cidadãos para encontrar a alguns poucos (centenas, no máximo) terroristas, vamos ter muitos falsos positivos e provavelmente muitos inocentes acabem em um problema que não sabem de onde veio.

 

Sério que vocês acreditam não terem feito nada errado?

Passemos da Matemática para o Direito. Cada país tem suas próprias leis e algumas podem chegar a ser muito obscuras, absurdas e até mesmo injustas. Você conhece todas e cada uma delas tão bem para dizer que não faz nada de ilegal?

Não conhecemos tão bem nossas leis para dizer que não fazemos nada de ilegal.

Poderia me por a buscar leis absurdas e antiquadas, mas será melhor ficar com uma que está mais próxima de nós: no Reino Unido, as cópias privadas não são ilegais. Creio que a maioria dos que estão aqui estão de acordo que não é mal copiar o CD que um amigo te emprestou, mas mas pode se meter em um problema se o seu governo não pensa da mesma forma.

Falando sobre o mesmo tema, na Revista Wired dizia que em alguns casos quebrar a lei ajudava a sociedade a avançar, pondo como exemplo principal os casamentos entre pessoas do mesmo sexo. A sociedade avança mais rápido que as leis e, em alguns casos, deve se infringi-la para seguir a frente.

 

Você não tem nada a esconder… de quem?

O argumento de “Não tenho nada a esconder” se desfaz quando consideramos que, da mesma forma, não é apenas o Estado que acessa os seus dados. O que ocorreria se houvesse uma falha na base de dados e algum hacker a acessasse e o tornassem públicos? Acredito que ninguém gostaria que tantos aspectos de sua vida se fizessem públicos.

E se mais alguém além do Estado visse meus dados?

E nem sequer se precisa recorrer ao caso extremo de que falhem todos os sistema de segurança da base de dados. O que acontece se alguém com acesso legítimo a esses dados decide usa-los com más intenções?

Tantos dados exigem um nível de segurança e responsabilidade enormes. Quanto mais pessoas tiverem acesso a esses dados, mais pontos fracos existirão e maior a possibilidade que esses dados privados se convertam em públicos.

 

Não tenho nada a esconder… é exatamente por isso que não vou lhe mostrar nada

O último argumento contra o “Não tenho nada a esconder” é exatamente “não tenho nada a esconder”. Não fiz nada de mais, não há nenhuma suspeita sobre mim, de modo que não há nenhuma razão para o Estado veja o que faço.

A vigilância continua a mudar as coisas de lugar. No lugar de pressupor que todos somos inocentes, nos convertemos em suspeitos por falha e por isso precisamos estar constantemente sobre o escrutínio das autoridades.

 

Sim, a privacidade é necessária

Considerando os pontos anteriores, creio que deixamos bastante claro porque a privacidade é necessária. Não podemos renunciar nossa privacidade em troca de mais segurança porque, na verdade, isso é uma mentira. Por pura matemática, um sistema para encontrar alguns poucos criminosos perigosos no meio de uma multidão de pessoas inocentes será pouco eficiente a não ser que fôssemos investir uma quantidade exorbitante de recursos para não ter praticamente nenhum falso positivo e não ignorar nenhum criminoso.

Tampouco podemos renunciar à nossa privacidade porque nunca sabemos quando vamos ter a necessidade de romper uma lei que possa ser absurda ou injusta ou quando uma infração inocente de alguma norma que não conhecíamos pode nos meter em um problema desproporcional. Por isso mesmo, porque a privacidade é necessária, no site Xataka vamos seguir essas semanas com vários artigos sobre como preservar sua privacidade por meio da tecnologia protegendo suas contas, suas conexões e seus dados.

artigo original aqui

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