Opinião Pirata: Futuro cancelado, passado em cinzas

da importância da partilha do imaginário para desenhar o futuro

Por Galdino

pulicado originalmente aqui

“Quando os punks gritaram que não haveria futuro, no momento decisivo que foi o ano de 1977, esse grito parecia um paradoxo que não deveria ser considerado seriamente. Na verdade, ele era o anúncio de algo realmente importante: a percepção do futuro estava mudando. O futuro não é uma dimensão natural da mente, mas um modo de percepção e de imaginação, um aspecto da atenção e da expectativa, e suas modalidades e dispositivos mudam com as transformações culturais […] O movimento chamado de “Futurismo” anuncia o que há de mais fundamental no século 20 pois aquele foi o século atravessado por uma crença religiosa no futuro. Não acreditamos mais no futuro da mesma maneira. Evidentemente, sabemos que virá um tempo posterior ao presente, mas não esperamos mais que esse tempo cumpra as promessas do presente” (Franco Bifo, After the future).

Houve um tempo em que os desdobramentos da razão humana pareciam promissores: eles nos trariam todo tipo de progresso científico, técnico, político… Nosso ápice moral seria o ápice da razão. Desde então, não fomos a lugar algum enquanto humanidade. E não esperamos mais um futuro em que nos emanciparemos através de nossos poderes racionais.

E qual futuro podemos esperar quando o que nos foi prometido nunca veio? Vivemos uma época de esgotamento do imaginário político ocidental. Desde os diagnósticos sobre o fim da história e sobre a consolidação incontestável e incontornável de uma forma de vida orientada pela união entre Estado e Capitalismo, o que imaginamos como possível e impossível se congelou em uma partilha do imaginário que nos mostra a imagem de nosso presente como a única realidade possível. O que podemos fazer é reformar minimamente o que já temos ou perder o que reformamos (isso que chamamos “retrocesso”). A imagem paradisíaca e radicalmente inofensiva da utopia e a imagem infernal de um mundo destituído dos poderes estatais e capitalistas se encontram nas fronteiras desse imaginário cada vez mais árido, mais infértil, mais desolador.

Assim, vivemos contínuos rearranjos do passado no presente e é isso que temos para o futuro. Em certo sentido, toda criatividade consiste no rearranjo do que temos disponível no momento atual. Mas, quando nossa criatividade política é reduzida pela organização de nosso imaginário, esse rearranjo se torna limitado por um realismo que não cansa de anunciar que não há alternativas como um dia se anunciou que não haveria futuro. Nossas construções políticas são repetições quase que invariáveis do que já foi feito inúmeras vezes e não funcionou. Cada partido vai nos dizer é isso ou nada / é isso ou algo ainda pior. Essa expansão do presente para a totalidade do tempo é como a famosa afirmação em 1984 de George Orwell: “Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando em um rosto humano — para sempre”. A opressão totalitária do mundo descrito no livro não se encontra apenas na bota, mas na eternidade. No congelamento do presente. Uma bota que pisa em nosso rosto apenas temporariamente é uma bota da qual podemos nos emancipar (que podemos imaginar como algo a ser derrotado). Mas uma que assim faz pela eternidade está pisando também em nosso imaginário.

Em 1984, a manipulação do passado promovida pela Ministério da Verdade é parte fundamental do processo de congelamento do presente. Embora nos pareça ainda distante a possibilidade de alteração massiva de registros históricos para fins políticos, temos outras maneiras de gerenciar o que já passou e que servem igualmente para a manutenção do que é. Certas imagens do processo colonizatório, dos conflitos internos em nosso país e de eventos de ruptura podem nos orientar em termos de um pacifismo institucional ou podem alimentar tendências revolucionárias. Aquilo que apresentamos às crianças através de livros de História também interfere na constituição de seu imaginário político. Talvez não seja sequer preciso mentir para arrancar todo o potencial de um evento passado.

Essa perda da possibilidade de visualizarmos os múltiplos potenciais do passado acaba sempre beneficiando os governos do presente — ilustração perfeita disso é o prefeito Crivella resumir o que o Museu Nacional guardava como a “lembrança da família imperial que nos deu a independência, o império, a primeira constituição e a unidade nacional” — e não como um conjunto de lembranças de outras formas de vida, não-imperiais, sem constituições, vítimas da unidade nacional, algumas exterminadas duplamente agora. De tudo o que estava ali, de toda a herança que estava ali, algo foi selecionado — um dos muitos passados que tivemos, uma das muitas possibilidades do que fomos. E isso é especialmente relevante pois não há identidade sem memória. A imagem do que somos (enquanto indivíduos, enquanto coletividades) é a imagem do que temos sido. É preciso um registro, um passado ao menos.

Mas esse registro, como dizia Nietzsche, deve servir à vida. E, para isso, é preciso esquecer também. O excesso de história não vai nos emancipar pois o acúmulo de conhecimentos não pode mais nos trazer um futuro melhor (ou um futuro alternativo). Não se trata então de simplesmente preservar mais para acumular mais conhecimento histórico, como se a memória por si só fosse algo valioso. Não basta olhar para o passado e dizer isso se foi, não podemos fazer nada com isso a não ser conhecer como se foi. Foi isso que nos trouxe até aqui em vários sentidos. É preciso deixar morrer e esquecer aquele futuro prometido que nunca veio. Esquecer tudo que parece vir do passado e nos prender ao presente. Esquecer o que enclausura o tempo. Orientar a dinâmica entre memória e esquecimento para a produção de mais vida, em termos nietzschianos (ou para a produção de um mundo em que cabem muitos mundos, em termos zapatistas).

A insistência no ineficiente (e, consequentemente, na nossa impotência, na nossa infertilidade, na nossa falta de criatividade e na nossa melancolia) nos torna sempre suscetíveis à concretização de nossos medos mais profundos. Se há um Grande Inimigo a ser culpado pelas nossas tragédias, Ele também não pode se sustentar sem nós enquanto sociedade. Construir outros futuros passa pela terrível constatação de que o que temos no presente também passa por nós e por nossas vidas cotidianas, que não somos os meros alvos passivos das maldades de um Outro. De que nos serve afirmar mas nunca desejamos isso e tomar isso como suficiente quando terceirizamos nossa responsabilidade e não fazemos o necessário para que não aconteça? Esses desejos que não se mostram são inúteis. O que é nosso, o que temos em comum é de nossa responsabilidade — não da casta que vive de parasitar nossa imaginação e sugar nossa esperança. Nossos passados não pertencem a governo algum, especialmente os passados dos povos dizimados por governos. Nós não somos apenas produtos do Império que agora é objeto de luto de Crivella. Nossa herança é infinitamente mais rica.

Assim, na medida em que deixamos de tomar uma linha histórica específica para nos dizer o que é nosso destino, que passamos a explorar os vários potenciais e passados de nossa história, podemos imaginar outros futuros para além do nosso presente. Não basta saber que outras formas de vida são possíveis para rompermos com nossa partilha do imaginário. Mas, sem isso, nossa capacidade de visualização fica limitada. É preciso uma variedade de registros, diversos passados — mais mundos dentro de nosso mundo. Isso estava efetivamente presente e disponível para uso no Museu Nacional.

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