Nossa realidade é sintetizada em Ayotzinapa: Subcomandante Marcos (Galeano)

O porta-voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) disse que a crise “não pode ser escondida, não pode ser colocada na cadeia, desaparecida ou assassinada”.

Subcomandante Marcos/Galeano

 

San Cristóbal de las Casas, Chiapas: “Estamos diante de uma realidade que se resume em uma palavra: Ayotzinapa. Ayotzinapa não é a exceção, mas a regra atual. Esse é o retrato de família do sistema”, disse o subcomandante Marcos, do EZLN, que recentemente assumiu a identidade de ‘Galeano’ em homenagem a um militante assassinado em 2014 numa emboscada, durante o seminário ‘Pensamento Crítico frente a Hidra Capitalista’, segunda-feira, dia 4 de maio, na Universidade da Terra, no que foi sua terceira aparição em três dias (sábado e domingo foi num território zapatista autônomo, em Oventic).

O porta-voz do EZLN disse ainda que a crise “não pode ser escondida, não pode ser colocada na cadeia, desaparecida ou assassinada”.

 

Em 26 de setembro de 2014, 43 estudantes do sexo masculino da Escola Rural Normalista Raúl Isidro Burgos, de Ayotzinapa, desapareceram em Iguala, Guerrero, México. De acordo com relatos oficiais, o grupo alugou vários ônibus e viajou para Iguala naquele dia para realizar um protesto em um comício liderado pela esposa do prefeito da municipalidade. Durante a viagem, a polícia local interceptou-os e um ‘confronto’ seguiu. Detalhes do que aconteceu durante e após o confronto permanecem obscuros, mas a investigação oficial concluiu que uma vez que os alunos estavam sob custódia, eles foram entregues para o cartel local de narcotraficantes, o Guerreros Unidos e, portanto, presumivelmente mortos. As autoridades mexicanas afirmam que o prefeito de Iguala, José Luis Abarca Velázquez, e sua esposa, María de los Ángeles Pineda Villa, planejaram e orquestraram o sequestro.


“A crise que vem não vai enviar um telegrama, nem será anunciada nos cinemas. Não. Ela coloca um pé na porta antes que você chegue para fechá-la. Ela escorre através de janelas, rachaduras, desliza entre notícias do escândalo da moda”, disse ele. Ele também considerou que “os ventos do mar estão cada vez mais agitados”. O subcomandante Galeano também se referiu ao escândalo das mansões do presidente mexicano Enrique Peña Nieto: “Vocês estão espantados com os escândalos que aparecem ou apareceram na mídia ou em redes sociais. Escandalizam as mansões de Peña Nieto e Videgaray [Secretário de Finanças e Crédito Público do governo nacional mexicano]. Com a corrupção nos governos de todo o planeta”

“Bem, se querem realmente entrar em pânico, tenham uma conversa off the record com alguns dos principais meios de comunicação. Invertam os papéis. Ao invés de serem eles os entrevistadores, entrevistadoras, perguntem-lhes vocês, e não perguntem-lhes pelo que não foi publicado, perguntem-lhes pelo que tem sido silenciado, não pelo que foi censurado, senão o que nem ao menos apareceu como um projeto de pesquisa jornalística. Então vocês saberão o que é vomitar de nojo e terror”, acrescentou. O subcomandante do EZLN disse que vai reaparecer, mas não disse quando.

Enquanto isso, o subcomandante Moisés falou das eleições deste ano, sobre as quais, disse “votem na cor que votem, isso vai piorar“. “Como zapatistas que somos, não chamamos a não votar, nem para votar. Como zapatistas, o que fazemos, cada um de nós que possa, é dizer às pessoas para se organizarem para resistir, para lutar, para conquistar o que precisam“, disse ele. O subcomandante zapatista mencionou que os partidos políticos só têm servido para dividir as pessoas e comunidades em todo o país, além de usar “os de abaixo” para alcançar posições, conseguir cargos e, em seguida, já acima, esquecê-los. “Os políticos e seus partidos utilizam a pobreza apenas para vir a dar migalhas, para tirar a foto de que estão ajudando os mais ‘ferrados’, os mais pobres, os despossuídos. No entanto, só os usam para vir e tirar a foto“, afirmou. “Nós não dizemos para votarem. Tampouco nós dizemos para não votar. Não lhes dizemos para tornarem-se zapatistas, porque sabemos bem pela nossa história que nem todos têm a força do coração para ser um zapatista… Muito simplesmente lhes dizemos para que se organizem“, disse Moisés.  

Os subcomandantes Marcos (ou Galeano) e Moisés são porta-vozes do Exército Zapatista de Libertação Nacional, movimento social mexicano nascido em 1994. Como diz a “patente”, eles são subordinados ao EZLN, e não líderes. O movimento tem origem no marco da efetivação dos acordos comerciais liberais com os EUA, e tem como herança a luta pela terra e liberdade do histórico combatente mexicano Emiliano Zapata. O EZLN abarca a luta por direitos, pela terra e autonomia dos povos, inclusive dos povos originários, que não só possuem voz, como também participação ativa no movimento.

 

traduzido (e adaptado) de: http://aristeguinoticias.com/0505/mexico/nuestra-realidad-se-sintetiza-en-ayotzinapa-subcomandante-marcos-galeano/



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Diga aos deputados: não censurem nossa Internet

Olá congressista!

O projeto de lei 5.204/16 propõe o bloqueio de acesso a sites "precipuamente dedicados ao crime" hospedados no exterior e sem representação no Brasil, excluindo, expressamente, a possibilidade de bloqueio de aplicativos de troca instantânea de mensagens (sim, o WhatsApp).

Em sua justificativa, anexa ao projeto, argumenta-se que hoje, para se retirar do ar sites criminosos - incluindo aqueles de ponografia infantil e de tráfico de drogas - tem que se expedir uma carta rogatória (documento que pede cumprimento de ordem judicial brasileira no exterior) para o servidor. Por ser demorada, não seria medida adequada de combate a esses crimes, devendo-se, então, bloquear o acesso de brasileiros a tais sites.

Contudo, há um grande problema nessa lógica de combate ao crime: sites que cometem crimes hediondos e torpes, como a pornografia infantil, NÃO estão na internet normal (surface web), e sim na internet não-indexada (deep web). O que isso quer dizer? Que não há como bloquear acesso a esses sites pelas medidas propostas pelo PL. E mesmo que essas trocas de material ilegal na internet esteja sendo feita em território brasileiro, a justiça já tem meios para combatê-las (a operação DarkWeb II da Polícia Federal,  de combate a pornografia infantil online, criminalizada no art. 241-A do Estatuto da Criança e Adolescente, estourou no dia 22/11/2016).

Ou seja, a título de combate a crimes graves, estão dando de um jeitinho de bloquear sites que desatendem aos interesses da indústria fonográfica, punindo a população ao dificultar acesso à informação, cultura e conhecimento.

Ainda que a primeira coisa que venha à mente nessas situações sejam os sites que disponibilizam filmes e séries inteiras para download ilegal, como o MegaFilmesHD e outros sites que já foram fechados, o PL não é nada claro com relação ao que seria considerado um provedor "precipuamente dedicado à pratica de crime", e as violações estabelecidas pela Lei de Direitos Autorais não se limitam ao compartilhamento ilegal de obras protegidas.

Na verdade, está bem longe disso.

A utilização derradeira de determinadas obras protegidas para produção de alguns tipos de obras derivadas –como remix de músicas, fotos para memes e vídeos que utilizam trechos de filmes para desenvolver críticas a eles (O Partido Pirata até já satirizou a #CPICIBER através de um vídeo) – não é permitida pela lei, consistindo em violação ao direito autoral, o que é abrangido pelo PL em questão. A utilização pode ter finalidade lucrativa ou não, o autor da obra derivada pode ser profissional ou amador - não importa, não pode! É possível que esse tipo de utilização bastasse para justificar o bloqueio de determinado provedor de aplicação.

Plataformas que viabilizam o compartilhamento desse tipo de conteúdo em massa e que poderiam eventualmente ser bloqueadas pelo PL são: o Vimeo (plataforma de vídeos); O YouTube (plataforma de vídeo); o SoundCloud (plataforma de músicas); o Flickr (plataforma de fotografia); o MemeGenerator (site que facilita a elaboração de memes) e até mesmo sites dedicados ao compartilhamento de FanFiction –outro tipo de manifestação cultural que é considerada ilegal pela Lei de Direitos Autorais. Nesse sentido, o bloqueio proposto pelo PL 5.204/16 é problemático sob quatro óticas distintas: para os provedores de aplicação, para os autores dos conteúdos, para os usuários e para o interesse público como um todo.

Para os provedores de aplicação, a medida é desproporcional, pois enseja no bloqueio de todos os seus serviços no país, independente de parte dele estar dentro da legalidade ou não. Por exemplo, o SoundCloud, caso bloqueado, o será por completo, apesar de servir também como plataforma para o compartilhamento de obras de forma legal. Já o YouTube poderá ser censurado por disponibilizar vídeos de paródias de músicas, trailers feito por usuários, etc.

Para os autores, o grande problema é a insegurança jurídica gerada pela medida. Como muitas das utilizações não são permitidas pela lei atual, não é possível saber até que ponto elas serão usadas para bloquear o acesso a suas obras. No mais, criadores de conteúdo que produzem obras completamente permitidas pela lei e disponibilizam-nas nessas plataformas serão penalizados por causa daqueles que compartilham obras de forma ilegal. Já para os usuários, a medida é problemática por prejudicar o livre acesso à internet e o acesso às demais obras (legais) hospedadas nessas plataformas –elementos essenciais do direito constitucional de acesso à cultura.

E, por último, para o interesse público, o PL é potencialmente ainda mais perigoso, já que o bloqueio a determinados serviços, com a justificativa de violação ao direito autoral, pode ser utilizado para cercear a liberdade de expressão. O exemplo dos vídeos que utilizam trechos de filmes para criticá-los é ilustrativo, mas grandes produtoras cinematográficas poderão solicitar o bloqueio de sites que hospedem esse tipo de vídeo com o argumento de que seus direitos autorais foram violados.

Este projeto de lei, portanto, se caracteriza como uma medida de combate direto à cultura de compartilhamento, já difundida na nossa geração. O objetivo explicitado no anexo fica em segundo plano, deixando margem para interpretá-lo apenas como um pretexto. Sendo assim, pode-se dizer que não é exagero especular que se trata de uma manobra movida pelo lobby da indústria audiovisual para esconder uma medida conhecidamente impopular.

Assine a petição, entre em contato com seu deputado: lute por uma Internet Livre e contra projetos de censura!

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