Opinião: Lições que aprendemos com as eleições de 2018

por @rrobinha

Como muitos sabem, o Partido Pirata já é um Partido Político, mas não é um Partido eleitoral ainda, o que depende de um processo burocrático (chato) de coleta de 500 mil assinaturas – se quiserem saber mais leiam aqui – algo que pode demorar 2 ou 30 anos dependendo do humor do Capitão da vez. Mas como pretendemos eventualmente disputar eleições um dia, prestamos muita atenção e tomamos notas sobre as melhores práticas das eleições de 2018, especialmente dos seus melhores colocados:

 

1) Não tenha propostas

Sim, o TSE exige que todos os Partidos enviem um programa eleitoral detalhando as propostas do seu candidato, mas seus estilos podem variar muito – bit.ly/2pn6GLI  – Em 2018 conseguimos identificar as seguintes subdivisões:
    
Trabalho Escolar “copia e cola” – menos de 20 páginas, com algumas tabelas e figuras coloridas:
    – Alvaro Dias (Podemos) – “Plano de Metas 19 + 1
    – Cabo Daciolo (Patriotas) – “Plano de Nação para Colônia Brasileira
    – Henrique Meireles (MDB) – “Pacto pela Confiança
    
Slides de Powerpoint – pra quem gosta de frases curtas e detesta o uso de virgulas:
    – Jair Bolsonaro (PSL) – “O caminho da prosperidade
   
Panfleto de Feira Agrícola – visualmente bonito, mas sem qualquer informação clara adicional:
   – Geraldo Alckmin (PSDB) – “Um futuro de prosperidade está aberto a todos os brasileiros
   – João Amoedo (NOVO) – “Mais oportunidades menos privilégios
   
Fiz minha lição de casa – programa detalhado, mas que pode mudar completamente ao longo da campanha:
   – Lula/Haddad (PT) – “O Brasil feliz de novo
   – Marina Silva (REDE) – “Brasil justo ético, próspero e sustentável
   
Tractatus Philosophicus – 200 páginas que ninguém vai ler, a não ser os membros do seu proprio partido:
   – Guilherme Boulos (PSOL) – “Vamos sem medo de mudar o Brasil

 

Na prática, porém, a não ser que você seja um jornalista tentando formular perguntas pros candidatos, ninguém vai ler ou levar esse troço a sério.

E mesmo que leia, provavelmente as propostas iniciais vão se alterar tanto ao longo da campanha, especialmente depois do segundo turno, que acaba sendo mais útil acompanhar o que o assessor econômico do candidato falou na última entrevista do que esse documento que o TSE te obriga a protocolar.

 

2) Copie as propostas dos outros

Você resolveu não seguir o conselho anterior e não teve tempo ou ajuda suficiente para conseguir elaborar um plano coerente de propostas? Acha que faltou algum item importante?

Não tem problema, basta copiar as propostas dos outros candidatos! Tiveram vários casos como esse:

– Fernando Haddad copiou a proposta de renegociar a dívida das pessoas do SPC do Ciro Gomes
– Geraldo Alckmin copiou a proposta da reforma da previdência com regime de capitalização do Ciro Gomes
– Fernando Haddad copiou a proposta de aumentar o limite de isenção de Imposto de Renda do Jair Bolsonaro
– Jair Bolsonaro copiou a proposta de tributar lucros e dividendos do Ciro Gomes

E você nem precisa copiar todas essas ideias imediatamente, Afinal, como você vai saber quais são realmente boas? Primeiro, acuse o candidato de ser demagogo ou irresponsável e quando ele tiver que explicar porque a proposta faz sentido, ai você vai lá e copia.

Vai estar todo mundo prestando tanta atenção na última coisa absurda e moralmente reprovável que um dos outros candidatos na liderança falou que ninguém nem vai prestar atenção nisso, até porque…

 

3) Ideias não importam, pessoas votam em pessoas

Verdade seja dita, isso está longe de ser algo exclusivo dessa eleição. Historicamente, praticamente todos os presidentes eleitos democraticamente no Brasil ganharam muito mais marcados pelo personalismo do que pela coerência.

Talvez a grande exceção a isso tenha sido Fernando Henrique Cardoso, que foi eleito por causa do plano real, que passou a entrar em circulação cerca de três meses antes da eleição, mas até aí, também foi porque as cédulas coloridas do Real que as pessoas passaram a usar no dia a dia foram os melhores santinhos que um candidato poderia querer.

Para ser ainda mais justo, isso não é algo exclusivo do Brasil. O culto de personalidade em volta da figura do Presidente ou mesmo do Primeiro-Ministro em regimes parlamentaristas é algo que sempre existiu desde pelo menos o século XIX.

Essa eleição o Brasil apenas retomou um tradição que começou a com a votação do rinoceronte cacareco: as pessoas estão dispostas, de tempos em tempos, em votar no candidato mais absurdo apenas por sacanagem. Foi isso que aconteceu, por exemplo, com Jânio Quadros, que era apenas um professor de geografia meio exótico que aparecia nos comícios sempre fazendo pose com uma vassoura, pois ia “varrer a corrupção”.

A inovação é que hoje em dia o candidato não precisa mais de uma vassoura, alguns memes na Internet já resolvem.

 

4) Apareça no menor número de debates e entrevistas que você puder

Pode parecer tentador aparecer em todas aquelas sabatinas, debates e entrevistas organizadas por todos aqueles jornais, associações comerciais, instituições acadêmicas, mas calma! Use tudo isso com muita moderação.

Primeiro porque você não quer entregar que na verdade você não tem nenhuma proposta ou mesmo que descubram que aquele candidato que aparece em todas as propagandas na verdade nem sequer vai concorrer.

Segundo, porque se você realmente tiver propostas… bom, ai você não vai querer que os outros candidatos as copiem, certo? Melhor continuar fazendo mistério até depois da eleição… ou talvez até a posse… ou talvez até o momento  que tiver que implantar a política mesmo e pegar todo mundo de surpresa. As pessoas adoram surpresas!

Então a melhor coisa é você aparecer apenas em entrevistas que você saiba de antemão quais perguntas serão feitas ou aquelas em que o entrevistador não é o cara mais esperto do pedaço.

Se você já estiver consolidado no topo das pesquisas então melhor ainda! Fernando Henrique Cardoso faltou em todos os debates em 1998, Lula faltou nos debates no segundo turno em 2006. Então se alguém perguntar o motivo apenas diga que está preservando nossas “tradições democráticas”.

 

5) O espetáculo é mais importante que o conteúdo

Está em dúvida sobre o que falar? Não tem problema, fale a coisa mais absurda que venha na sua cabeça e quando vierem questiona-lo depois relativize, diga que foi mal entendido, que foi mal interpretado ou que nunca disse isso de verdade.

O barulho gerado pela declaração em si será muito amplo e tantas pessoas irão compartilhar a notícia com a coisa absurda que você disse nas redes sociais, que isso na verdade irá servir como propaganda pra destacar ainda mais o seu nome. Afinal, se a oposição está falando mal de você deve ser por um bom motivo certo?

Mas escolha bem o absurdo que vai dizer, se for falar absurdos escolha minorias ou grupos pouco representativos. Nada de falar mal de grupos poderosos ou que possam tem um impacto eleitoral muito grande.

E lembre-se, na dúvida a melhor defesa é o ataque.

 

6) É melhor confundir do que informar

Todo mundo sabe que as pessoas não estão interessadas em saber a verdade. Aliás, o que é a verdade? Aliás, por que você está lendo esse texto? Vá se informar por meio de memes, como todo o resto da Internet faz.

Não, não. As pessoas não estão interessadas na verdade, mas sim em confirmar seus próprios pontos de vista. E hoje em dia com a internet você nem precisa gastar todo esse dinheiro com essas pesquisas qualitativas que você ta escondendo ai nas suas costas. Como o Brasil é um dos povos que mais gostam de usar redes sociais no mundo, basta fazer algumas analises de big data, aplicar alguns algoritmos de análise de sentimentos e bingo! Você pode vender a verdade que cada pessoa mais está interessada de acordo com seus próprios gostos.

E se você puder fazer isso para as pessoas e ao mesmo tempo apontar culpados para os seus problemas, seja pela última crise econômica, seja pela última crise política ou pela prisão do seu candidato favorito, melhor ainda! O importante é não deixar os ânimos esfriarem, não quando faltam apenas x dias para o fim do primeiro turno… ou será do segundo turno? Não sei, qualquer coisa resolvemos tudo no terceiro ou quarto turno…

 

7) Estimule o Medo, é bem mais efetivo que a esperança

Essa sempre foi algo claro para os marketeiros e vem ficando cada vez mais claro com os avanços da área de Psicometria e Economia Comportamental. As pessoas são motivadas por dois sentimentos básicos: Amor/Esperança ou Medo/Desespero.

Não é a primeira vez que uma campanha presidencial é guiada mais pelo objetivo de inspirar medo do que pela esperança. Em grande parte a eleição de Collor também foi feita em cima do medo do comunismo, a eleição de 2002 teve a participação de Regina Duarte dizendo que tinha medo do Lula e na eleição de 2014 Dilma Roussef foi reeleita com uma plataforma que afirmava que se ela não fosse reeleita haveria desemprego em massa e seriam cortados todos os benefícios sociais – bit.ly/2PKBOk1

Tudo isso segue a máxima de Maquiavel: “Vale mais ser amado ou temido? O ideal é ser as duas coisas, mas como é difícil reunir as duas coisas, é muito mais seguro – quando uma delas tiver que faltar – ser temido do que amado”.

 

8) Esse negócio de Internet veio pra ficar

Verdade seja dita, essas eleições foram provavelmente a primeira vez em que milhares de pessoas tiveram acesso a propaganda de conteúdo político por alguma via que não fosse a televisão. Se isso não é inclusão política digital, eu não sei o que é.

Grande parte disso, claro, só foi possível graças ao Whatsapp, que é oferecido de graça como parte do pacote de celular (apesar disso ferir claramente o Marco Civil da Internet).

Mais do que isso, grande parte das pessoas que passaram a ser usuárias pelo celular acreditam que a Internet se resume a Whatsapp e redes sociais. Elas nem fazem ideia de que haja um grande número de opções para serem exploradas por ai fora do que o Whatsapp, o Facebook e outras redes sociais podem oferecer.

Quando você para pra pensar que o Facebook, como mostra o filme “A Rede Social”, começou como um site onde você tinha que escolher entre a pessoa mais bonita e mais feia é fácil entender como o resto da logica da atuação politica nas redes sociais funciona até hoje: Não importa a coerência de suas ideias, o que importa é você definir o que você mais odeia e replicar isso para o maior número de pessoas possível.

E como os brasileiros adoram redes sociais, isso dá muitas munições para nossos queridos marketeiros virtuais.

E você? Está  pronto para a eleição de 2022?


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