‘Eu vou matar esses anarquistas’

Que autonomistas e anarquistas sofram agressões em atos e passeatas não é novidade, entretanto, os agentes do Estado não são os únicos agressores. Estas também partem de pessoas que vestem camisas de organizações sindicais e de partidos de esquerda. O título deste texto — paráfrase de uma postagem em rede social de um suposto segurança contratado por uma central sindical — é um exemplo de como certas instituições historicamente respondem a organizações horizontais.

por Guanyin 

Em 1998, um jornal noticiava que certo líder sindical havia contratado 50 seguranças para “vigiar” manifestantes. Em preparação para atos contrários às privatizações daquela ocasião, o secretário-geral desta central sindical lamentava não ter sido procurado pelos dirigentes dos “grupos rebeldes” para conversar sobre os preparativos das manifestações: “Eles só aparecem na hora. Não têm organização, não são vinculados ao movimento sindical.” 

Este é um registro interessante que revela importante questão: certas pessoas e coletivos, independentes e organizados horizontalmente, não são cooptáveis para os interesses e manobras daqueles que se consideram senhores feudais das assembleias. A recusa em aceitar as práticas que visam controlar, verticalizar, direcionar e cooptar manifestações, coletivos, movimentos e ocupações, dentre outras construções políticas, é vista pelas tradicionais instituições e organizações como uma ameaça.

Em ato ocorrido em Fortaleza, com este mesmo modo de operação, autonomistas e anarquistas sofreram agressões violentas. Tal episódio recebeu repúdio do Partido Pirata (PIRATAS) em nota que pode ser lida aqui.

O episódio mais recente aconteceu no Rio de Janeiro, em ato contra a reforma da previdência. Há relatos, fotografias e vídeos de supostos seguranças contratados para assegurar e atuar como “polícia” durante a manifestação. As “defesas” e justificativas são as mesmas de sempre: “caso isolado”, “infiltrados”, “não foi agressão, foi confronto”, “os black blocs começaram provocando”, além de diversos ataques ad hominem contra quem faz as denúncias. Anarquistas, midiativistas e piratas não raramente são chamados de “fascistas”, “liberais” ou “perturbadores da unidade da esquerda” por exporem as práticas autoritárias que estas diversas organizações adotam para manterem-se como “donas” das manifestações de rua.

A central sindical nega que tenha alguma relação com o ocorrido, como pode ser lido nesta nota.

Por ocuparmos as ruas e participarmos das mobilizações sociais, sabemos que muitos destes eventos não ganham a devida repercussão na mídia, restando apenas as marcas no corpo, na memória e nos relatos das pessoas envolvidas. Em função disso, o PIRATAS presta, mais uma vez, toda solidariedade às pessoas agredidas e que enfrentam constantemente agressões verbais e físicas em ocasiões como essa; todo tipo de assédio moral, sexual e táticas difamatórias e de desinformação, dentre outras coisas, apenas por não se curvarem às autoridades da velha esquerda, aos seus mandamentos divinos e consensos excludentes e fabricados de cima para baixo. 

Não somos e nunca seremos contra a organização das pessoas trabalhadoras, e entendemos a organização política como algo fundamental para a garantia de direitos. Entretantolutamos pela transformação deste sindicalismo partidário-estatal brasileiro em um associativismo laboral autogestionado, livre da tutela do Estado. Os sindicatos precisam ser livres tanto do Estado quanto da ligação político-fisiológica com qualquer instituição ou partido. É preciso permitir a livre associação sindical à pessoa que trabalha e conferir aos sindicatos mecanismos horizontais de participação em todos os níveis.


Kommentare

3 comments for ‘Eu vou matar esses anarquistas’

  1. Jr commented at

    E o que o anarquismo tá ajudando nas manifestações? Além de ajudar os infiltrados de direita? Fui em várias manifestações e o que o anarquismo ajudou além de deslegitimar as manifestações de esquerda. Muito anarquista que eu conheço é isento politicamente, mas vai lá nas manifestações de esquerda zoar e porque essa galera não vai na manifestação de direita? Partido pirata nada fez e nada faz!

    • Cris Oliveira commented at

      Jr, quer dizer que a CUT leva seguranças privados membros de torcida organizada para fazer agressões e os anarquistas é que levam infiltrados de direita? Você mesmo diz que anarquista não vai e manifestação de direita, então como pode dizer que anarquista é politicamente isento? Ou você tá insinuando uma conspiração entre direita institucional e anarquistas? Era só o que me faltava! Com esse cinismo todo, você só convence quem morar numa caverna!

  2. João do povo commented at

    Facistóides, como sempre. Já vi esses facista enrustido da CUT fazer isso, tanto quanto os bate paus da APEOESP, galera do PCO, entre outros…
    À base que segue essas organizações, soltem-se dessas amarras, vejam o que essas pessoas fazem! Não adianta falar que facistas não passarão rodeados de ações facistas contra o próprio povo!

Deixe uma resposta

Notice: Comments reflect the opionions of those who did wrote theme. Allowing people comment here, doenst mean, that we also agree with them.

Your email address won't be displayed. Required fields are marked with this sign: *

More information

Assine a petição!

 

659 signatures

Diga aos deputados: não censurem nossa Internet

Olá congressista!

O projeto de lei 5.204/16 propõe o bloqueio de acesso a sites "precipuamente dedicados ao crime" hospedados no exterior e sem representação no Brasil, excluindo, expressamente, a possibilidade de bloqueio de aplicativos de troca instantânea de mensagens (sim, o WhatsApp).

Em sua justificativa, anexa ao projeto, argumenta-se que hoje, para se retirar do ar sites criminosos - incluindo aqueles de ponografia infantil e de tráfico de drogas - tem que se expedir uma carta rogatória (documento que pede cumprimento de ordem judicial brasileira no exterior) para o servidor. Por ser demorada, não seria medida adequada de combate a esses crimes, devendo-se, então, bloquear o acesso de brasileiros a tais sites.

Contudo, há um grande problema nessa lógica de combate ao crime: sites que cometem crimes hediondos e torpes, como a pornografia infantil, NÃO estão na internet normal (surface web), e sim na internet não-indexada (deep web). O que isso quer dizer? Que não há como bloquear acesso a esses sites pelas medidas propostas pelo PL. E mesmo que essas trocas de material ilegal na internet esteja sendo feita em território brasileiro, a justiça já tem meios para combatê-las (a operação DarkWeb II da Polícia Federal,  de combate a pornografia infantil online, criminalizada no art. 241-A do Estatuto da Criança e Adolescente, estourou no dia 22/11/2016).

Ou seja, a título de combate a crimes graves, estão dando de um jeitinho de bloquear sites que desatendem aos interesses da indústria fonográfica, punindo a população ao dificultar acesso à informação, cultura e conhecimento.

Ainda que a primeira coisa que venha à mente nessas situações sejam os sites que disponibilizam filmes e séries inteiras para download ilegal, como o MegaFilmesHD e outros sites que já foram fechados, o PL não é nada claro com relação ao que seria considerado um provedor "precipuamente dedicado à pratica de crime", e as violações estabelecidas pela Lei de Direitos Autorais não se limitam ao compartilhamento ilegal de obras protegidas.

Na verdade, está bem longe disso.

A utilização derradeira de determinadas obras protegidas para produção de alguns tipos de obras derivadas –como remix de músicas, fotos para memes e vídeos que utilizam trechos de filmes para desenvolver críticas a eles (O Partido Pirata até já satirizou a #CPICIBER através de um vídeo) – não é permitida pela lei, consistindo em violação ao direito autoral, o que é abrangido pelo PL em questão. A utilização pode ter finalidade lucrativa ou não, o autor da obra derivada pode ser profissional ou amador - não importa, não pode! É possível que esse tipo de utilização bastasse para justificar o bloqueio de determinado provedor de aplicação.

Plataformas que viabilizam o compartilhamento desse tipo de conteúdo em massa e que poderiam eventualmente ser bloqueadas pelo PL são: o Vimeo (plataforma de vídeos); O YouTube (plataforma de vídeo); o SoundCloud (plataforma de músicas); o Flickr (plataforma de fotografia); o MemeGenerator (site que facilita a elaboração de memes) e até mesmo sites dedicados ao compartilhamento de FanFiction –outro tipo de manifestação cultural que é considerada ilegal pela Lei de Direitos Autorais. Nesse sentido, o bloqueio proposto pelo PL 5.204/16 é problemático sob quatro óticas distintas: para os provedores de aplicação, para os autores dos conteúdos, para os usuários e para o interesse público como um todo.

Para os provedores de aplicação, a medida é desproporcional, pois enseja no bloqueio de todos os seus serviços no país, independente de parte dele estar dentro da legalidade ou não. Por exemplo, o SoundCloud, caso bloqueado, o será por completo, apesar de servir também como plataforma para o compartilhamento de obras de forma legal. Já o YouTube poderá ser censurado por disponibilizar vídeos de paródias de músicas, trailers feito por usuários, etc.

Para os autores, o grande problema é a insegurança jurídica gerada pela medida. Como muitas das utilizações não são permitidas pela lei atual, não é possível saber até que ponto elas serão usadas para bloquear o acesso a suas obras. No mais, criadores de conteúdo que produzem obras completamente permitidas pela lei e disponibilizam-nas nessas plataformas serão penalizados por causa daqueles que compartilham obras de forma ilegal. Já para os usuários, a medida é problemática por prejudicar o livre acesso à internet e o acesso às demais obras (legais) hospedadas nessas plataformas –elementos essenciais do direito constitucional de acesso à cultura.

E, por último, para o interesse público, o PL é potencialmente ainda mais perigoso, já que o bloqueio a determinados serviços, com a justificativa de violação ao direito autoral, pode ser utilizado para cercear a liberdade de expressão. O exemplo dos vídeos que utilizam trechos de filmes para criticá-los é ilustrativo, mas grandes produtoras cinematográficas poderão solicitar o bloqueio de sites que hospedem esse tipo de vídeo com o argumento de que seus direitos autorais foram violados.

Este projeto de lei, portanto, se caracteriza como uma medida de combate direto à cultura de compartilhamento, já difundida na nossa geração. O objetivo explicitado no anexo fica em segundo plano, deixando margem para interpretá-lo apenas como um pretexto. Sendo assim, pode-se dizer que não é exagero especular que se trata de uma manobra movida pelo lobby da indústria audiovisual para esconder uma medida conhecidamente impopular.

Assine a petição, entre em contato com seu deputado: lute por uma Internet Livre e contra projetos de censura!

[your signature]

Compartilhe com seus amigos:

Publicações