[Opinião] Por quê esta esquerdista radical está desiludida com a cultura de esquerda

Originalmente publicado em dois artigos separados com o título “Why This Radical Leftist is Disillusioned by Leftist Culture” (1) (2), nesse texto a ativista e atual “Vice-Chairperson” (Vice-Presidente Ou Diretora em tradução livre) do Partido Pirata International (Pirate Parties International) fala das suas decepções com a atual cultura de ativismo.

 

por Bailey Lamon

Sempre vou acreditar na “Revolução”. Mas estou ficando muito frustrada com a cultura “de ativismo” contemporânea.

Prepotência

Em primeiro lugar, estou cansada de observar as pessoas se tornarem babacas pretensiosos que acham que o ativismo deles os torna melhores do que todo mundo, até mesmo do que os grupos oprimidos e marginalizados dos quais eles alegam ser “aliados”.

Se você já trabalhou em um sistema de albergues, ou em qualquer campo que atenda àqueles de algum modo aqueles considerados marginalizados ou oprimidos, tais como vítimas de abuso, sem-teto ou pessoas que enfrentam vícios e/ou distúrbios mentais (para citar apenas alguns exemplos…), uma das primeiras coisas que você aprende é que, normalmente, eles não enquadram suas visões de mundo em termos das teorias acadêmicas que você estudou nas aulas de estudos de gênero na universidade. Em sua maioria, eles não tendem a analisar suas experiências em termos de poder e privilégio sistêmicos, ou de conceitos tais como “o patriarcado”, “privilégio branco” ou “heteronormatividade”. Embora muitas dessas pessoas sejam impactadas diretamente pela desigualdade de classe e tenham, sim, consciência disso, elas provavelmente não passam seus dias e noites lendo Karl Marx e se educando a respeito das complexidades do capitalismo. Elas não se reúnem para ponderar os efeitos de “comportamentos problemáticos” em comunidades radicais. Elas não estão preocupadas em checar seus privilégios. Não. Elas estão ocupadas tentando sobreviver. Chegar até o dia seguinte. Obter necessidades básicas, tais como comida, abrigo e higiene. Elas não se dão ao trabalho de policiar a linguagem e de se preocupar em como suas palavras podem inadvertidamente perpetuar certos estereótipos. Elas estão mais preocupadas em fazer com que suas vozes sejam, em primeiro lugar, ouvidas.

E mesmo assim me deparo com tantos “ativistas” que se afirmam preocupados com aqueles nas camadas mais baixas da sociedade ignorando as realidades da opressão, como se você se ofender com o discurso ou com a visão de mundo de alguém fosse igual a cumprir pena na prisão ou a viver na rua. Eles falam em escutar, em ser humilde, em questionar suas noções pré-concebidas sobre as outras pessoas e ouvir suas experiências de vida… Porém, ignoram as experiências de vida daqueles que não falam ou pensam adequadamente na visão de social de paladinos da justiça social, com educação superior, não importa o quão pior seja a situação dessas pessoas. Isto não é dizer que devamos aceitar alguma forma de intolerância — longe disso. Mas eu ousaria dizer que a máfia politicamente correta na esquerda perpetua uma própria forma de intolerância, porque aliena e ostraciza aqueles que não compartilham de suas formas de pensar e de falar sobre o mundo.

Estou cansada das “panelas”, das hierarquias, do policiamento dos outros e dos desequilíbrios de poder que existem entre pessoas que se afirmam amigos e correligionários. Estou exausta e entristecida com o fato de qualquer tipo de discordância ou de diferença de opinião dentro de círculo ativista conduzir a uma briga, o que, às vezes, inclui o desamparo de certas pessoas, tachadas de “perigosas”, além de humilhação e difamação públicas. É repulsivo que aleguemos estar construindo um novo mundo, uma nova sociedade, uma maneira melhor de lidar com problemas sociais — mas, quando uma pessoa comete um erro, diz e/ou faz algo de errado, nem seja dada a ela a chance de expor a sua versão do que aconteceu, porque o processo de resolução de conflitos é, em si, pautado pela ideologia, ao invés de uma disposição a compreender fatos. Na verdade, nos círculos ativistas de hoje em dia, tem sorte quem recebe qualquer tipo de julgamento justo, uma vez que todo mundo é colocado sob uma pressão social para acreditar em tudo o que lhes é dito, independentemente do que de fato ocorreu numa determinada situação. Isso não é liberdade. Isso não é justiça social. Não há nada de “progressivo” ou de “radical” nisso, a menos que você esteja se referindo ao fascismo.

 

Liberdade de expressão

Por falar em fascismo, há também, hoje em dia, uma tendência perturbadora na esquerda que envolve a rejeição do discurso livre/liberdade de expressão como um valor essencial, porque tal discurso poderia ser potencialmente danoso a alguém em algum lugar. Isso não só é perigoso, como também opera contra nós, porque, como esquerdistas, somos frequentemente rotulados de ameaças pelo Estado, além de sermos, no mínimo, impopulares na sociedade em geral. Isso não significa, então, que a liberdade de pensamento e de expressão sejam cruciais para as nossas lutas? Que devamos sempre defender nosso direito de questionar aquilo que nos é ensinado, nosso direito de ser diferente?

Se não acreditamos na liberdade de expressão para aqueles que desprezamos, então não acreditamos na liberdade de expressão.

Noam Chomsky.

Liberdade de expressão e seus desdobramentos não significam que temos de concordar com o que outra pessoa diz — na verdade, significa que quando discordamos, decerto temos o direito de questioná-la. Mas o que eu e muitos outros estamos vendo é o apagamento total do diálogo, em nome da “segurança”. O que possivelmente haveria de seguro na censura? O que possivelmente haveria de seguro num grupo de pessoas que afirmam lutar pela liberdade ao mesmo tempo em que dita quem pode falar e o que pode ser dito, baseadas em concordâncias ou discordâncias? Estude qualquer período da história do mundo e você descobrirá que a censura nunca esteve do lado certo.

Muitas pessoas realmente não entendem o conceito de liberdade de expressão, e de que não, defendê-la não significa que penso que está ok ser um intolerante cheio de ódio em qualquer maneira que seja. Defender a liberdade de expressão ara todos, mesmo para aqueles de que discordamos de todo o coração, é simplesmente um reconhecimento de que não detemos poder ou autoridade sobre os outros…

Deixe-me perguntar isto:a quem cabe decidir quais ideias e palavras são aceitáveis e quais não são? Quem vai aplicar essas regras? Seremos nós? Os guerreiros esquerdistas da justiça social? Mas isso significa que nós detemos algum tipo de poder sobre os outros, baseados em nossas crenças! Em minha opinião, isso não é aceitável, é essencialmente uma tática de controle de pensamento.

Ter boas intenções não significa que não se trata de controle de pensamento… Nossas ideias não podem ser forçadas nas outras pessoas, elas recisam ser adotadas voluntariamente para que possam crescer genuinamente. Isto requer paciência, uma vontade de trabalhar com outros conforme eles exploram a si mesmos, responder às questões deles, e tomar uma certa aproximação científica como “nenhuma quesão é uma questão estúpida”. Nós não vamos sempre gostar do processo! Mas sem liberdade de pensamento, fala, e expressão, nenhuma outra liberdade pode existir. Intolerantes e pessoas cheias de ódio em geral se fazem de bobos, e novamente, nossa liberdade de falar significa que nós podemos e definitivamente devemos desafiá-los e vencê-los na inteligência! Mas a ideia de sermos tão cheio-de-nós que pensemos que merecemos ser figuras de autoridade em tudo isto, é terrível de se imaginar!

 

Omissão

Para ir direto ao ponto, o mundo não é um lugar seguro. É um lugar extremamente perigoso, falho, repleto de corrupção e de derramamento de sangue. Ao nos abrigarmos da dureza do mundo, não estamos fazendo nada de significativo para mudá-lo. Se falamos sério sobre confrontar o poder, devemos nos jogar no perigo e na mágoa com que tanta gente tem de conviver por não ter outra escolha. Embora o autocuidado seja necessário para nos sustentar a longo prazo, evitar a escuridão por completo nada mais é do que evitar uma responsabilidade.

Façam um favor ao mundo: parem com os espaços seguros e os trigger warnings e levem a sério mudar o mundo. Nem sempre será divertido e agradável. Nem sempre vamos nos sentir libertados. Vai doer. Às vezes, vai nos deixar morrendo de medo. Porém, se a luta vale a pena para você, se ativismo não é algo da moda com o qual você se envolve só para se convencer de que não está sendo complacente com injustiças, aí então você vai dar um passo para além da sua zona de conforto e, enfim, compreender que esse conforto é, em si, um sinal do poder e do privilégio que você almeja desafiar.

 

Empatia e interseccionalidade

Uma das principais coisas sobre as quais fui atacada foi o fato de que sou uma “garota branca do cabelo arco-íris” rejeitando o politicamente correto quando aparentemente não sou eu mesma que preciso dele, de qualquer forma.

Eu acho isso bem interessante, pois parte da “cultura politicamente correta” de que acredito atualmente é a ideia de interseccionalidade, ou a necessidade de reconhecer como vários aspectos da identidade de uma pessoa formam quem elas são e suas experiências… coisas como raça, gênero, classe, idade, estado de debilidade, orientação sexual, e basicamente qualquer coisa que faz uma pessoa quem era é em relação às estruturas de poder existentes no mundo.

Assumiram que, por minha pele ser tão branca quanto pode ser, eu não tenho nenhuns dos outros desafios nesse contexto. Então, com licença, mas tenho que dizer-lhe um pouco sobre mim: eu sou uma fêmea queer da classe trabalhadora com um histórico de trauma. Eu experienciei violência de parceiros íntimos em muitas formas, e fui formalmente diagnosticada com depressão, ansiedade, e síndrome pós-traumática. Eu fui hospitalizada por conta de pensamentos suicidas e lutei com o vício de drogas no passado. Eu fui perseguida, assediada, e espancada fortemente pela polícia. Até eu chegar ao meu atual emprego, houveram vezes em que eu não sabia de onde viria minha próxima refeição, ou se eu seria capaz de pagar o aluguel do mês, ou pagar as contas a tempo.

Apesar de que estou indo melhor agora em muitas formas, eu não estou, definitivamente, declarando-me a vencedora das “Olimpíadas da Opressão” (spoiler: não é uma competição, para começo de conversa). É não só ignorante, mas simplesmente incorreto, assumir que eu não sou nada mais que uma garota branca privilegiada recusando a checar-se. Eu “chequei meu privilégio”, se você quer saber… e reconheço as formas pelas quais me beneficio de ser branca e não-debilitada, entre outras coisas. Por exemplo, eu não experiencio racismo. Mas também sou muito mais que isso, assim como somos todos nós mais que nossos rótulos, e as reações a meu texto realmente ilustraram um dos meus problemas com as culturas ativistas de hoje: isto de que é aceitável e útil ASSUMIR coisas sobre outras pessoas e condená-las pelo que você vê e nada mais. Se você está OK com isso, então faça; apenas não espere que eu vou ter empatia com suas experiências algo mais do que você teve empatia com a deles.

Claro, eu só posso falar de mim mesma. E parte disto é testemunhar alegados “justiceiros sociais” ignorando as pessoas sem-teto e aqueles que atualmente caíram por entre as rachaduras da sociedade, ao mesmo tempo em que falam merda sobre estas exatas pessoas porquê elas não entendem perfeitamente as ideias certas, ou não estão atualizadas com a terminologia moderna. Está é uma falha épica de nossa parte. Isto também está em conflito direto com o que entendemos por interseccionalidade.

 

Educação

Somando-se tudo a isto, muitos justiceiros sociais parecem crer que não é o papel deles educar as outras pessoas… Ao passo que educar pode ser condescendente, e cria um desequilíbrio inerente de poder quando um toma o papel de professor com o objetivo de educar as massas sobre opressões, como se nada soubessem sobre isto…aqueles que estão perguntando as questões e querendo aprender estão sendo calados, e isto não é benéfico para ninguém, certamente não para as causas da justiça social!

Esta aproximação empurra as pessoas para longe. Faz-nas sentirem-se atacadas por aqueles que deveriam estar a fazer o oposto, que seria fazer sentirem-se bem-vindos e suportados, não importando quem sejam e qual bagagem trazem. Se queremos realmente demolir as estruturas da opressão, como racismo, sexismo, desigualdade, enfim, temos que comunicar tais problemas em termos que sejam acessíveis para todas as pessoas, independente de ter ou não graduado-se em faculdade com um grau de estudos de mulheres, ou se largaram a escola na 8ª série. Não há outra forma das pessoas receberem esta informação, ainda menos integrar nossos movimentos.

E nós não estamos tentando descobrir porquê não há unidade na esquerda, porquê movimentos de direita são mais atrativos para a pessoa comum? Não apenas tornamo-nos insuportáveis de se ter por perto, as pessoas têm medo de terem os corações arrancados à unha sobre o que são normalmente maus-entendidos. Novamente, se você está ok com isso, mantenha-se firme – pessoalmente, eu não estou!

 

 

Espaços seguros

Por fim, deixe-me somente dizer que, se as pessoas querem criar “zonas seguras” para se organizarem, elas certamente têm o direito de fazê-lo. Mas é extremamente ingênuo e problemático pensar que podemos apenas entrar em uma sala, declará-la um espaço seguro, e esperar que ele basicamente torne-se um. A menos que você e seus amigos aplicadores do “espaço seguro” planejem se isolar do mundo ao invés de se engajar com ele, não é nada realístico, e fingir que é apenas os machucará mais. Desculpe, mas essa é a verdade.

Eu costumava amar a ideia de espaços seguros, mas eventualmente me dei conta de que eles não me protegiam das falha da humanidade, e que não podemos mudar o mundo nos escondendo no nosso próprio. O escapismo é legal, e até necessário, de vez em quando, mas ao fim do dia, se somos sérios, precisamos evitar nos esconder atrás de nós mesmos.

 

Trigger warnings

Sobre os trigger warnings [a tradução seria algo como “aviso de gatilho”, para avisar que o texto tem uma palavra que pode ser um gatilho que faça mal a uma certa categoria de leitor], como sobrevivente de estupro eu mesma, e sendo alguém que lida com síndrome pós-traumática, como diabos poderia a escrita de algo como “TW:Estupro” não ser inerentemente engatilhante? Eu simplesmente não entendo! Literalmente qualquer coisa pode ser engatilhante para alguém, e não há maneira de saber o que será. Pessoalmente, eu penso que estaríamos melhor trabalhando em dar suporte a quem torna-se engatilhado em uma dada situação, do quê engatilhando-os nós mesmos em uma tentativa de não fazê-lo. Mas, novamente, é apenas minha opinião.

 

Encerramento

Então, aí está. Eu não espero que os críticos abram seus olhos, e eles não têm de fazê-lo. Mas tenho esperança de que fui capaz de clarificar algumas coisas sobre minhas próprias intenções e caráter. Eu não possuo todas as respostas. Eu posso apenas falar do que entendo. É do meu entendimento de que temos grandes lutas que precisam ser combatidas, e nós não podemos permitir que problemas interpessoais fiquem no lugar da imagem maior. Nós precisamos parar de descontar uns nos outros e isolar nosso próprio povo. Isto está nos pondo rumo a uma fahla, e nós vamos, definitivamente, falhar se continuar assim…

Você está preparado para aceitar isto? Pessoalmente, eu não estou, e sei de muitas outras pessoas que também não estão. Então, vamos lá, ao trabalho!

Já que você está aqui…

… nós estamos pedindo por um pequeno favor. Diferente de outras organizações, não recebemos dinheiro de governos e nem de empresas. Também não cobramos por acessos às nossas ferramentas. O Partido Pirata é uma organização independente que luta por direitos digitais, o livre compartilhamento de informações, privacidade para as pessoas e transparência de governos e corporações. Somos pessoas voluntárias tentando construir dia após dia o partido e precisamos de dinheiro para colocar algumas ideias em prática e cobrir diversos gastos. Isso requer muito trabalho e fazemos pois acreditamos que a nossa perspectiva importa porque –  também pode ser sua perspectiva.


Kommentare

2 comments for [Opinião] Por quê esta esquerdista radical está desiludida com a cultura de esquerda

  1. Rafael de França commented at

    muito bom o texto, concordo em sua grande maioria… essa parte do TW, já tinha percebido isso em algumas pessoas, e finalmente achei o termo certo… rs. Meu desafio como uma pessoa dita fria/analítica (não tenho capacidades de grandes emoções, não sei se por traumas, criação ou genética) no entanto sou muito empático e isso trouxe me um grande problema, tenho mt facilidade de entender e analisar as pessoas(e me interesso mt por isso) mas mt dificuldade de transmitir isso para elas, ninguem gosta q vc chegue e diga vc é assim por causa disso. E nesse meu jeito de dizer as coisas as vezes me passo por um imbecil, mesmo quando meu objetivo é ajudar, mas todos temos mt temas q não conseguimos/queremos discutir e aceitar isso pra mim é um desafio….

    Nessa questão de esquerda realmente estou em estado catatônico e acho q muitos estão o mesmo jeito, vivemos num período progressista isso é fato, hj com 30 anos lembro de como temas como meio ambiente, direitos humanos, cultura e educação jamais afetavam as pessoas comuns por mais q os jornais martelassem a desgraça humana no Brasil diariamente. Hoje isso é discutido causa brigas familiares ou seja está em pauta, e essa é uma das rasoes desses lampejos de extrema direita (trump, bolsonaro, pro-ditadura) é o sinal do desespero. A geração anterior a nossa (acredito q vc tenha 25~35 anos) nossos pais, estão no poder executando cargos de liderança e ja estão começando a perceber q oq veio antes está ruindo e algo novo esta vindo, e não vai ser a nossa geração q vai trazer isso, vai ser a galera q hoje tem 15 anos, quando eles tiverem 50 o Brasil e o mundo vai ser um lugar mt melhor isso não tenho duvidas… e progressista, mas até vai ter trump, bolsonaro e coisa pior ate tudo ruir e esse novo mundo renascer. Viajei mt mas é no q acredito e vou ser um velhinho feliz se isso acontecer.

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