Deputado defende aborto compulsório para reduzir criminalidade

Por Denis Rizzoli

Em 29 de junho, Laerte Bessa, deputado federal do PR-DF e relator da proposta de redução da maioridade penal (PEC 171/1993), defendeu a eugenia na forma de aborto compulsório para reduzir a criminalidade, em entrevista a Bruce Douglas, do jornal britânico The Guardian. O relato passou despercebido até o Portal Fórum publicar uma tradução em português do texto no último dia 21:

“Um dia, chegaremos a um estágio em que será possível determinar se um bebê, ainda no útero, tem tendências à criminalidade, e se sim, a mãe não terá permissão para dar à luz.”

Às 20h44 daquele dia, a assessoria do deputado postou uma primeira nota de esclarecimento no Facebook, dizendo que “a matéria escrita em inglês ganhou interpretações erradas” por parte do Portal Fórum e que “o deputado repudia esse tipo de artifício usado por uma revista que não preza pela imparcialidade e não está pronta para discutir” a maioridade penal. Além disso, alegou-se que, “Em nenhum momento, Bessa falou em aborto.”, desta forma, negando mesmo o The Guardian.

Em razão da repercussão, o entrevistador Bruce Douglas publicou a gravação da conversa que teve com o congressista, à 0h36 do dia 22, ou seja, menos de quatro horas depois da nota de esclarecimento ser postada. No áudio, Bessa diz piamente que a ciência inventará um meio de descobrir, na barriga da mãe, se o bebê é criminoso ou delinquente e que não se deixará que ele cresça nem venha a nascer.

Entrevista transcrita palavra por palavra:

— Daqui… daqui a uns vinte anos, nós vamos reduzir para catorze, daqui a mais vinte… depois de mais vinte, vai para doze, e vai baixando, até chegar à barriga da mulher. Quando chegar à barriga da mulher, os cientistas já… já inventaram uma forma de descobrir, antes do moleque nascer, se ele já é criminoso e não vai deixar nascer. Aí, vai resolver o problema.

— Desculpe, você está falando sério?

A ligação cai, e o jornalista retorna:

— Oi.

— Oi, deputado. Desculpe, a linha caiu de novo. Isso foi… Isso foi brincadeira ou foi sério, que você espera… ?

— Olha, daqui a uns vinte anos, vai ser reduzido para catorze. Por quê?: porque o menino de catorze anos de hoje… daqui a vinte anos já vai estar esclarecido o suficiente para ser um adulto. E assim sucessivamente. Daqui mais cinquenta anos vai descer para doze, não é? E vai chegar uma época em que a ciência vai descobrir que a mulher não vai poder ter filhos porque vai descobrir no… no- no- no banco de sangue dela que o filho dela vai nascer… que, num momento, vai nascer delinquente. Aí, essa mulher não vai poder ter filhos. Não tem nem o crescimento da… da… a evolução do… do… Por mim, vai ser desse jeito. Já fica sabendo.

Coincidência ou não, horas depois de a gravação que o desmentia se espalhar pelas redes sociais e pela imprensa, a nota de esclarecimento simplesmente sumiu da fanpage do deputado. Seria uma pena, se não estivesse no cache do Google:

Não satisfeito, publicou outra nota, reconhecendo “que se expressou mal”, porém defendendo a extinção da idade penal e a criminalização do aborto. Como o único jeito de impedir que um bebê venha à luz sem matar a mãe é o aborto, fica clara a contradição de que, para ele, aborto pode ser bom se for contra a vontade da mulher.

Quanto à extinção da idade penal, talvez o deputado fique satisfeito em ver encarcerada esta menina de colo, que furtou um celular enquanto a mulher que a carregava pedia por dinheiro, quando sua intenção era gastar com cerveja. O “crime” cometido pelo bebê ocorreu numa oficina automotiva em Domingos Martins, região serrana do Espírito Santo. Numa visão eugenista, o furto não tivesse ocorrido se a menina não tivesse nascido, e esse pensamento totalitário parece ter agora um representante na Câmara dos Deputados.

Imagem: Tribuna Notícias 1ª edição, 27/07/2015


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