Como metade da América perdeu a noção das coisas

por David Wong*

Eu explicarei o fenômeno Donald Trump usando três filmes. E depois com um pouco de texto.

Existe um clichê universal que filmes de aventuras épicas usam para diferenciar os mocinhos dos vilões. Os mocinhos são pessoas simples do campo…


… enquanto que os vilões são cuzões decadentes que vivem na cidade e vestem roupas estúpidas:


Em Guerra nas Estrelas, Luke é um camponês …


 … enquanto os vilões vivem em reluzentes estações espaciais:


Em Coração Valente, o protagonista (Dennis Coração Valente) é um simples fazendeiro …


… e o maldito Príncipe Cabeça de Merda vive em luxuoso castelo e veste roupas sofisticadas e ridículas:


O tema se manifesta de várias formas — primitivo vs. avançado, durão vs. delicado, masculino vs. feminino, pobre vs. rico, puro vs. decadente, tradicional vs. esquisito. Tudo isso é uma forma de mostrar rural vs. urbano. Essa tensa divisão entre as duas coisas não existe devido a esses filmes, obviamente. Os filmes apenas usam esse clichê pois a divisão já existe.

Nós, pessoas do campo, somos programadas para odiar as elites metidas à besta. E isso nos leva a Trump.

#6. Não se trata de Estados Azuis e Vermelhos — Mas de Campo vs. Cidade


Eu nasci e cresci no país Trump. Minha família é de pessoas Trump. Se eu não tivesse me mudado e conseguido este trabalho ridículo, eu estaria votando nele. Eu sei que votaria.

Veja, tipos politizados falam sobre “estados vermelhos” e “estados azuis” (vermelho = Republicano/conservador e azul = Democrata/progressista), mas esqueça sobre estados. Se você quer entender o fenômeno Trump, veja o mapa bem mais detalhado dos condados nos EUA. Veja como o país votou em cada condado nas eleições de 2012 — lembrando que vermelho significa Republicano:

Mark Newman / University of Michigan O país é um monte de lava.

Santa paumolecência, esse mapa faz parecer que o partido azul de Obama é uma espécie de facção política marginal que tem dificuldades em alcançar uns míseros 20% dos votos. As partes azuis, no entanto, são mais densamente populadas — são as cidades. Na parte superior esquerda, você vê a área azul de Seatte/Tacoma, abaixo está San Francisco e então Los Angeles. A área azul em volta do Lago de Michigan e seu formato de pau é composta de cidades como Minneapolis, Milwaukee e Chicago. No nordeste, é claro, estão Nova York e Boston, seguindo para Filadélfia, que nos leva para faixa azul que conecta um monte de cidades sulistas como Charlote e Atlanta. 

Ilhas azuis em um oceano vermelho. As cidades são menos de 4% do território, mas têm 62% da população e certamente 99% da cultura popular. Nossos filmes, shows, canções e noticiários todos se propagam a partir dessas ilhas azuis.

E se você vive nas áreas vermelhas, que merda pra você.

Veja, eu sou de um estado “azul” — Illinois — mas o estado não é azul. A porra de Chicago que é azul. Eu sou de uma cidadezinha em uma dessas áreas vermelho-sangue:

Onde as Oprahs temem caminhar.

Quando moleque, visitar Chicago era como Katniss visitando a capital. Ou como Zoey visitando a cidade do futuro neste livro rídículo. “O jeito deles é estranho.”

E todo maldito mundo gira ao redor deles.

Toda série de TV é sobre Los Angeles ou Nova York, talvez com uma pitada de Chicago ou Baltimore. Quando de fato fizeram séries sobre nós, éramos piada  ou pessoas ingênuas de olhos esbugalhados (como em Parks and Recreation, e antes dela, Newhart) ou mutantes assassinos indecentes (como em True Detective, e antes dela, Deliverance). Dava para sentir a arrogância a centenas de quilômetros de distância.


Aparentemente, não é permitido ir ao dentista se você mora mais de 15 quilômetros de uma autoestrada.

“Nada que acontece fora da cidade importa!”, eles dizem em seus coquetéis, alegremente ignorantes sobre onde sua comida é cultivada. Ei, lembra quando o Furacão Katrina atingiu Nova Orleans? É bem esquisito que um furacão enorme com uma largura de centenas de quilômetros tenha conseguido mirar em uma cidade específica e evitar todo o resto. Assistindo ao noticiário (ou aos múltiplos filmes e séries de TV sobre o assunto), você mal ouvirá algo sobre o fato de que a tempestade devastou completamente a zona rural do Mississipi, matando 238 pessoas e causando um prejuízo astronômico de 125 bilhões de dólares.

 


Sem clube esportivo = ninguém liga.

Mas quem se importa com essas pessoas, certo? O que tem para ser noticiado em um bando de caipiras desdentados chorando por causa de um trailer achatado? Nova Orleans é culturalmente importante. Ela importa.

Para os que sofrem e são ignorados, Donald Trump é um tijolo lançado na janela das elites. “Seus babacas, estão ouvindo agora?”

#5. Pessoas da Cidade São de Um Planeta Diferente 


 “Mas a questão não é racial? Os apoiadores de Trump não são um bando de racistas? Eles não odeiam as cidades pois é lá que vivem pessoas negras?”

Olha, teremos nazistas de verdade na seção de comentários deste artigo. Não no sentido de chamar os outros de nazistas para ganhar pontos na argumentação — estou falando de nazistas de verdade, com suásticas nas fotos de perfil, que torciam contra Indiana Jones. Essas pessoas existem.

Mas o que eu posso dizer, da minha experiência pessoal, é que o racismo na minha juventude sempre foi algo distante. Eu nunca vi nenhum membro da minha família, amigo ou colega de escola ser cruel com alguma pessoa negra na cidade. Nós trabalhávamos juntos, jogávamos videogames juntos, acenávamos quando nos víamos pela rua. O que eu de fato ouvi foram milhões de comentários sobre como, se você se aventurasse na cidade e acabasse na “vizinhança errada”, seria arrancado do carro, estuprado e queimado vivo. Lembrando dessa época, eu acho que a ideia era que não havia problemas com as minorias locais desde que se comportassem exatamente como nós.


Nossa imagem mental sobre cada esquina das ruas de Chicago, não importa o local ou hora do dia. 

Se você me perguntasse na época, eu diria que o medo e ódio não eram pelas pessoas negras, mas daquela tribo específica que existia em Chicago –, você sabe, os caras com gírias, músicas e roupas estranhas, os nóias que matam quem quer que apareça na frente deles. Isso era parte da natureza bizarra das cidades — uma combinação de selvagens hiper agressivos e elites brancas frívolas. O jeito deles é estranho. E não é como se a cultura popquisesse me convencer do contrário:

“… And Into Some Nightmares”

E não é apenas percepção, não — as estatísticas sustentam o fato de que são universos paralelos. Pessoas vivendo no campo têm duas vezes mais chances de ter uma arma. tendem a se casar mais cedo. Pessoas nas áreas urbanas “azuis” falam mais rápido e andam mais rápido.. É mais provável que sejam usuários de drogas do que alcoólatras. Os azuis têm menos chances de possuir terras, e o que é mais importante, de ser cristãos evangélicos.

Um dia sem o fogo do inferno é como um dia sem a luz do sol.

Nas pequenas vilas, isto é normalmente expresso como “Eles não compartilham nossos valores!”, e meus amigos progressistas adoram zombar disso. “Que valores? Analfabetismo e homofobia?!?!?!”

Não. Todos os valores. 

#4. As Tendências Sempre Começam nas Cidades — E Nem Todas São Boas


As cidades sempre estão vivendo no futuro. Eu me lembro quando nossa cidadezinha recebeu o primeiro restaurante chinês, e, 20 anos depois, a primeira cafeteria chique. Todas essas coisas já eram mostradas em filmes (que se passavam em Los Angeles, é claro) décadas antes. Lembro deassistir filmes dos anos 80 e fazer piadas com os estereótipos de patricinhas (“Valley Girls”) — jovens garotas, tipo, da Califórnia, que, tipo, diziam “tipo” a cada três palavras. 20 anos depois, você pode me ouvir fazendo a mesma coisa nos podcasts do Cracked. O câncer começou em L.A. e então se espalhou pelo resto da América.

Bem, a percepção então é que toda essa gente da cidade estava toda se tornando ateísta, abandonando a igreja para frequentars orgiais bissexuais. Aquilo, diziam, era literalmente um sinal do Fim dos Tempos. Não apenas por causa das consequências espirituais (que já eram terríveis), mas também pela devastação que atingiria a cultura. Eu não conseguia imaginar nenhuma refutação disso. Naquele local, e naquela época, a igreja era tudo. Nãoprecisa acreditar em mim  ouça os especialistas:


via Gallup — tradução da imagem: “Em comunidades menores, as igrejas são comumente uns dos poucos ambientes voltados para grandes eventos sociais. Igrejas também podem ser as únicas fornecedoras de aconselhamento, ajuda para os pobres e atividades sociais (mesmo que sejam ensaios do coral e procissões religiosas) em comunidades rurais.    

Igreja era onde você fazia amigos, encontrava garotas, buscava trabalho, recebia apoio social. O pobre poderia se alimentar e arrumar roupas lá, casais poderia ser aconselhados, viciados poderiam tentar se livrar das drogas. Mas agora estamos vendo o declínio alarmante da cristandade> entre a população em geral, uma doença ateísta se espalhando junto com as gírias de patricinhas californianas. Então, de acordo com a Fox News, o que acontece quando esses esnobes decadentes, ateístas e amorais nas cidades, viram as costas para Deus? 

O caos.


A fábrica fechou, eles dizem, como previsto. E o que os americanos rurais estão vendo hoje no noticiário é um pequena amostra do que os aguarda nofuturo.

Os selvagens estão vindo.

Tumultos, bombas islâmicas, gays espalhando AIDS, cartéis mexicanos decapitando crianças, ateístas derrubando árvores de Natal. Enquanto isso, liberais como Lena Dunham em seus apartamentos alugados por 5 mil ao mês, bebem vinho e dizem: “Mas os brancos cristãos são o verdadeiro problema!” Vítimas do terror gritam pela rua com seus membros amputados e as elites reclamam sobre como homens deveriam usar banheiros de mulheres e como é cruel manter galinhas em gaiolas. 

Ambos os lados concordam com o slogan, mas com intenções completamente diferentes.

Loucura. Suas cabeças estão tão próximas dos seus rabos que não conseguem distinguir uma coisa da outra. Verdades básicas e óbvias que passaram milênios sem serem questionadas são agora ridicularizadas e caladas no grito — os fatos que trabalho duro é melhor do que a dependência do governo, que crianças se dão melhor com ambos pais acompanhando, que paz é melhor que desordem, que um código moral rígido é melhor que o hedonismo jovial, que as pessoas valorizam mais o que suaram para conseguir do que aquilo que ganharam de graça, que não ser explodido por uma bomba é melhor do que ser explodido por uma bomba.

Ou como eles dizem no campo, “Não mije na minha perna e diga que está chovendo.”

A fundação sobre a qual a América foi inegavelmente construída — família, fé e trabalho duro — tem sido colocada como fora de moda, coisa de mentespequenas. As elites pomposas em suas torres de marfim dão garagalhadas enquanto chutam essa fundação, e então escreveram teses de 10 mil palavras culpando os construtores pelo seu colapso subsequente.

#3. As Áreas Rurais Têm Levado Muita Porrada


Não me envie mensagens dizendo que todas essas coisas que eu disse são erradas. Eu sei que elas são erradas. Ou melhor, eu acho que elas são erradas pois agora eu moro em uma área azul e trabalho para uma indústria azul. Eu sei que os Bons Velhos Tempos foram construídos através da escravidão e segregação, eu sei que inteiras categorias humanas inteiras experimentaram a religião como uma bota em seu pescoço. Eu sei que essas “famílias tradicionais” envolveram milhões de mulheres presas nas cozinhas e em péssimos casamentos. Eu sei que gays viveram com medo e abortos eram assuntos clandestinos.

Eu sei que as mudanças foram para melhor. 

Tente dizer isso para qualquer um que more no no país Trump.

Difícil ficar empolgado com Clinton quando sua placa pró Trump é a coisa mais valiosa que possui.

Difícil ficar empolgado com Clinton quando sua placa pró Trump é a coisa mais valiosa que possui. 

Essas pessoas estão levando porrada atrás de porrada. Eu sei, pois eu estava lá. Dê um passo fora da cidade, e os números de suicídio entre jovens simplesmente dobra. A recessão esmagou as comunidades rurais, mas toda recuperação foi para as cidades. Os índices de novos negócios sendo abertos em zonas rurais colapsou completamente.

 

Economic Innovation Group Eles poderiam se mudar todos para Las Vegas, mas tem toda essa parada de “decadência e Fim dos Tempos”.

 Perceba, empregos rurais costumam se basear ao redor de um grande negócio local — uma fábrica, uma mina de carvão etc. Quando morre, a cidade também morre. Onde eu cresci, foi o fechamento de uma refinaria de petróleo que acabou conosco. Eu fui criado na sombra do que o lugar um dia já havia sido. O teto da nossa escola pingava quando chovia. Cidades grandes podem compensar a perda de trabalhos de manufatura com prestações de serviço — mas os pequenas cidades não. Esse modelo não funciona abaixo de certa densidade demográfica. 

Se você não vive em uma dessas cidadezinhas, você não pode entender a falta de esperança. A ampla maioria de carreiras possíveis envolvem morar na cidade grande, e ao redor dessas cidades vemos um muro de 30 metros chamado “Custo de Vida”. Vamos supor que você seja uma criança inteligente ganhando 8 dólares a hora no Walgreens e queira algo maior. Ótimo, prepare-se para se mudar junto com seu novo bebê para um apartamento de 65 m² por 1,200 dólares mensais, e também para pagar o dobro que você paga agora por compras no mercado, serviços e babá. A não ser, é claro, que você esteja pensando em se mudar para uma “daquelas” vizinhanças (espero que curta pegar fogo!).


Quer dizer, isso se não trocarem o único lugar que você pode pagar por um arranha-céus com aluguel de 3,300 dólares por mês.

Em uma cidade grande, você pode pensar em começar uma banda, virar um ator ou conseguir um diploma de medicina. Você pode de fato sonhar. Em uma cidadezinha rural, pode não haver locais para artes cênicas além de bares de música country e igrejas. Talvez haja apenas dois médicos locais — e querer esse emprego significa esperar que um deles morra ou se aposente. Você abre os classificados e todas as vagas de emprego serão para restaurantes de fast food ou lojas de conveniência. O “centro” é apenas um monte de cadáveres de negócios familiares abandonados aos pedaços ncratera criada pela chegada do Wallmart, e os subúrbios” são estacionamentos para trailers. Existem partes desses lugares que parecem pós-apocalípticas. 

Eu estou te dizendo, a falta de esperança te devora vivo.

E se você ousar reclamar, alguém da elite liberal irá puxar um iPad e escrever sobre seu privilégio branco racista. Neste exato momento, alguém já deve ter respondido a este texto: “Você deveria tentar viver no gueto como uma minoria!” Exatamente. Para eles, parece que a situação das minorias pobres é usada apenas como um clube para matar os gritos de ajuda dos brancos. Enquanto isso, os índices de suicídios e overdoses no meio rural disparam. Olha que merda, os políticos pelo menos agem como se importassem com as cidades do interior. 

#2. Todas As Pessoas Reagem Quando São Silenciadas

Elijah Nouvelage/Getty Images

Realmente parece com o pior dos dois mundos: todos os estragos da miséria, mas zero empatia. “Os negros queimam carros de polícia, mas aquela elite liberal diz que não é a culpa deles pois são pobres. Meu filho é preso e demitido por causa de um saco de metanfetamina, e essas mesmas elites fazem piadas por ele ser banguela!” Você é o saco de pancadas de todo mundo, um dos últimos alvos seguros de piada na sociedade.  

Larry W. Smith/Getty Images

Só porque você pode pagar pela garrafa grande de Pepsi, não quer dizer que as piadas sobre você sejam como sátiras contra os poderosos 

Essas pessoas estão boladas. Elas vêm de uma longa linhagem de pessoas que se orgulhavam de cuidar umas das outras. De onde eu venho, você não era um homem de verdade até que conseguisse reparar um carro, consertar um telhado, caçar sua própria carne e defender sua casa de um intruso. Era uma fonte de vergonha depender de terceiros – especialmente do governo. Você cortava a própria grama e consertava seu próprio encanamento quando havia vazamentos, você transportava sua própria lenha na sua própria caminhonete (a minha era um Ford Ranger de 1994! O proprietário atual diz que ainda funciona!).

Não é como aqueles hipsters em seus minúsculos apartamentos, ou “aquelas pessoas” em seus projetos de habitação pública, à espera do senhorio sempre que algo quebra, sabendo que, se as coisas ficarem ruins demais, podem simplesmente empacotar tudo e se mudar. Quando você não possui nada, é tudo o problema de outra pessoa. “Eles provavelmente também não pagam impostos, apenas tratando a América como um apartamento subsidiado que eles podem destruir à vontade”.

 

Charley Gallay/Getty Images “Poxa vida, a pressão da água parece estar desligada. Hora de queimar tudo e pagar por uma casa maior com a grana do processo”.

O povo rural com as placas pró Trump em seus quintais diz que seu modo de vida está morrendo, e você dá risadinhas e diz que o que essas pessoas realmente querem dizer é que os negros e gays estão finalmente obtendo direitos iguais e é isso que elas odeiam. Mas estou lhe afirmando que elas dizem que o modo de vida delas está morrendo porque o modo de vida delas realmente está morrendo. Não é fruto da imaginação delas. Nenhum filme sobre o futuro mostra ele como sendo cheio de famílias tradicionais, caçadores e minas de carvão. Bem, exceto em Jogos Vorazes, e isso foi retratado como um apocalipse.

 

Lionsgate Films

As startups de Internet não estavam sofrendo sob o presidente Snow por um bom motivo.

Então, sim, elas votam no cara prometendo colocar as coisas onde estavam antes, o cara que acordaria finalmente as ilhas azuis. Eles votaram no tijolo na janela.

Foi um voto de desespero.

#1. Cuzões São Heróis

Spencer Platt/Getty Images

Mas Trump é objetivamente um merda!”, você diz. “Ele insulta as pessoas, ele objetifica mulheres e trapaceia sempre que pode! E ele não é um homem comum, ele é um bilionário arrogante e metido!”

Espere, você está falando sobre Donald Trump, ou sobre este cara:

Marvel Studios Faça Os Vingadores Grandes De Novo.

Você nunca torceu por alguém assim? Uma pessoa poderosa que dá aos seus inimigos os insultos que merecem? Ou com grandes apetites divertidos que se faz merda na medida certa para que você se identifiqueAlguém como Dr. House ou Walter White? Ou qualquer um dos vários milhões de personagens de policiais renegados que podem quebrar todas as regras porque eles conseguem resolver a porra do caso? Que só resolvem a porra do caso porque eles não ligam para as regras?

“Mas esses são personagens de ficção!” OK, e todos esses apresentadores de talk show milionários com tendências esquerdistas? Você acha que eles mantêm a classe na hora de insultar? Veja qualquer trecho sobre Chris Christie nesses programas e comece a contar os segundos até a piada gordofóbica. Procure sobre os escândalos sexuais de David Letterman no Google. Mas está tudo bem, porque eles estão do nosso lado, e todo mundo quer um cuzão em sua equipe – um bastão cheio de espinhos para esmagar seus inimigos. Isso é tudo que Trump é. Os lamentos indignados da elite são como sons de bombas caindo na fortaleza do inimigo. Quanto mais alto forem, melhor.

Kevin Winter/Getty Images E quando as câmeras registram as tais elites sendo BFFs de seu suposto inimigo, é ainda melhor.

Alguns de vocês já ficaram irritados, sentindo essa revolta visceral contra qualquer tentativa de desculpar ou até mesmo entender essas pessoas. Afinal, elas dificilmente são pessoas, certo? Não são apenas uma massa de subhumanos ignorantes, raivosos, grosseiros, que cospem e falam palavrão?

Xiii, espero que não. Eu tenho que abraçar um monte deles no Dia de Ação de Graças. E, quando eu fizer isso, será com o conhecimento de que, se eu não tivesse me mudado, estaria do outro lado da cerca, deixando comentários desagradáveis sobre este artigo escrito por uma versão minha de um universo alternativo de mim.


E não só porque lembrei meu Eu Rural da pior música de Billy Joel.

É bom descartar as pessoas, para zombar delas, para escrevê-las como deploráveis. Mas você também pode ter tempo para tentar compreendê-las, porque eu estou lhe dizendo, elas continuarão por muito tempo depois que Trump se for.

*Este texto é opinião do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Partido Pirata.


Kommentare

One comment for Como metade da América perdeu a noção das coisas

  1. Alexey commented at

    Excelente artigo e muito boa a tradução.
    Um choque de realidade para tentarmos analisar a realidade como ela é ao invés de teimarmos na divisão binária e infantil das coisas.

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Diga aos deputados: não censurem nossa Internet

Olá congressista!

O projeto de lei 5.204/16 propõe o bloqueio de acesso a sites "precipuamente dedicados ao crime" hospedados no exterior e sem representação no Brasil, excluindo, expressamente, a possibilidade de bloqueio de aplicativos de troca instantânea de mensagens (sim, o WhatsApp).

Em sua justificativa, anexa ao projeto, argumenta-se que hoje, para se retirar do ar sites criminosos - incluindo aqueles de ponografia infantil e de tráfico de drogas - tem que se expedir uma carta rogatória (documento que pede cumprimento de ordem judicial brasileira no exterior) para o servidor. Por ser demorada, não seria medida adequada de combate a esses crimes, devendo-se, então, bloquear o acesso de brasileiros a tais sites.

Contudo, há um grande problema nessa lógica de combate ao crime: sites que cometem crimes hediondos e torpes, como a pornografia infantil, NÃO estão na internet normal (surface web), e sim na internet não-indexada (deep web). O que isso quer dizer? Que não há como bloquear acesso a esses sites pelas medidas propostas pelo PL. E mesmo que essas trocas de material ilegal na internet esteja sendo feita em território brasileiro, a justiça já tem meios para combatê-las (a operação DarkWeb II da Polícia Federal,  de combate a pornografia infantil online, criminalizada no art. 241-A do Estatuto da Criança e Adolescente, estourou no dia 22/11/2016).

Ou seja, a título de combate a crimes graves, estão dando de um jeitinho de bloquear sites que desatendem aos interesses da indústria fonográfica, punindo a população ao dificultar acesso à informação, cultura e conhecimento.

Ainda que a primeira coisa que venha à mente nessas situações sejam os sites que disponibilizam filmes e séries inteiras para download ilegal, como o MegaFilmesHD e outros sites que já foram fechados, o PL não é nada claro com relação ao que seria considerado um provedor "precipuamente dedicado à pratica de crime", e as violações estabelecidas pela Lei de Direitos Autorais não se limitam ao compartilhamento ilegal de obras protegidas.

Na verdade, está bem longe disso.

A utilização derradeira de determinadas obras protegidas para produção de alguns tipos de obras derivadas –como remix de músicas, fotos para memes e vídeos que utilizam trechos de filmes para desenvolver críticas a eles (O Partido Pirata até já satirizou a #CPICIBER através de um vídeo) – não é permitida pela lei, consistindo em violação ao direito autoral, o que é abrangido pelo PL em questão. A utilização pode ter finalidade lucrativa ou não, o autor da obra derivada pode ser profissional ou amador - não importa, não pode! É possível que esse tipo de utilização bastasse para justificar o bloqueio de determinado provedor de aplicação.

Plataformas que viabilizam o compartilhamento desse tipo de conteúdo em massa e que poderiam eventualmente ser bloqueadas pelo PL são: o Vimeo (plataforma de vídeos); O YouTube (plataforma de vídeo); o SoundCloud (plataforma de músicas); o Flickr (plataforma de fotografia); o MemeGenerator (site que facilita a elaboração de memes) e até mesmo sites dedicados ao compartilhamento de FanFiction –outro tipo de manifestação cultural que é considerada ilegal pela Lei de Direitos Autorais. Nesse sentido, o bloqueio proposto pelo PL 5.204/16 é problemático sob quatro óticas distintas: para os provedores de aplicação, para os autores dos conteúdos, para os usuários e para o interesse público como um todo.

Para os provedores de aplicação, a medida é desproporcional, pois enseja no bloqueio de todos os seus serviços no país, independente de parte dele estar dentro da legalidade ou não. Por exemplo, o SoundCloud, caso bloqueado, o será por completo, apesar de servir também como plataforma para o compartilhamento de obras de forma legal. Já o YouTube poderá ser censurado por disponibilizar vídeos de paródias de músicas, trailers feito por usuários, etc.

Para os autores, o grande problema é a insegurança jurídica gerada pela medida. Como muitas das utilizações não são permitidas pela lei atual, não é possível saber até que ponto elas serão usadas para bloquear o acesso a suas obras. No mais, criadores de conteúdo que produzem obras completamente permitidas pela lei e disponibilizam-nas nessas plataformas serão penalizados por causa daqueles que compartilham obras de forma ilegal. Já para os usuários, a medida é problemática por prejudicar o livre acesso à internet e o acesso às demais obras (legais) hospedadas nessas plataformas –elementos essenciais do direito constitucional de acesso à cultura.

E, por último, para o interesse público, o PL é potencialmente ainda mais perigoso, já que o bloqueio a determinados serviços, com a justificativa de violação ao direito autoral, pode ser utilizado para cercear a liberdade de expressão. O exemplo dos vídeos que utilizam trechos de filmes para criticá-los é ilustrativo, mas grandes produtoras cinematográficas poderão solicitar o bloqueio de sites que hospedem esse tipo de vídeo com o argumento de que seus direitos autorais foram violados.

Este projeto de lei, portanto, se caracteriza como uma medida de combate direto à cultura de compartilhamento, já difundida na nossa geração. O objetivo explicitado no anexo fica em segundo plano, deixando margem para interpretá-lo apenas como um pretexto. Sendo assim, pode-se dizer que não é exagero especular que se trata de uma manobra movida pelo lobby da indústria audiovisual para esconder uma medida conhecidamente impopular.

Assine a petição, entre em contato com seu deputado: lute por uma Internet Livre e contra projetos de censura!

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