Opinião: A Pirataria como Instrumento de Inclusão Social

Por Fernando Santos

Recentemente a polícia federal prendeu os administradores do site Mega Filmes HD, o maior site de filmes piratas da América Latina. O site tinha cerca de 60 milhões de visitas por mês. Além dos proprietários do site, temos mesmo que montar uma prisão para os 60 milhões de criminosos que consumiam o conteúdo pirata?

Por mais confortável que pareça, o óbvio nem sempre é a verdade.

Se ponha na pele dos criadores do filme Tropa de Elite quando descobriram que sua obra foi pirateada antes de chegar aos cinemas. O que você pensaria? Eu pensaria o óbvio:

“Fodeu! Tá todo mundo assistindo de graça e agora ninguém vai pagar pra ver!”
Mas não foi isso que aconteceu. Leia a página do filme na Wikipédia e veja que ele ficou em primeiro lugar nas bilheterias na estreia.

Quem diz que pirataria (principalmente por download) é prejudicial, nunca parou para de fato estudar a pirataria.

Falando francamente e sem hipocrisia, mesmo hoje usando softwares originais (porque eu posso) e gastando uma grana mensalmente com licenciamento de software (porque eu posso), posso dizer com toda a certeza que tudo o que eu sou profissionalmente hoje, eu devo à pirataria.

Isso mesmo. Lá atrás (tipo, mais de 15 anos atrás), quando eu era um adolescente que não podia pagar nem um curso de datilografia, eu pirateava. E pirateei de tudo, viu? Foi assim que eu consegui o meu primeiro emprego na área de TI: Instrutor de Informática na SOS Computadores, dando aulas ensinando a usar os softwares que eu aprendi usando a versão pirata.

Foi assim que eu consegui abrir a minha primeira empresa. Tudo pirata, muito pirata (como diz na propaganda anti-pirataria). Enquanto não tinha dinheiro nem para a condução, eu pirateava a propriedade intelectual dos outros, com o objetivo de adquirir conhecimento e assim poder “caminhar com as próprias pernas”.

Então hoje, mesmo sendo desenvolvedor de software, eu simplesmente não consigo ser contra a pirataria. Também não me importo se alguém piratear um software meu. É sinal de sucesso, no meu ponto de vista. E quando você tem sucesso, você é requisitado. É sempre possível ganhar dinheiro quando se tem sucesso. Assim como a pirataria aumentou a visibilidade do filme Tropa de Elite, assim como a Microsoft conseguiu ter o sistema operacional mais utilizado no mundo. Ou você acha que as pessoas na China pagavam pelo Windows antes desta última atualização gratuita?

Piratear livros digitais então, para ajudar a espalhar conhecimento entre pessoas que não tem condições para comprar? Sou muito a favor!
Imagine quantas pessoas no Brasil estão agora, à frente de um computador, diante desse dilema moral: Ou pirateia aquele livro necessário de 200 reais (baixando o PDF), ou não aprende.
Um “pirata” com educação e cultura ou um “cidadão de bem” sem poder estudar?
Aí a pessoa pirateia o livro, estuda, passa em um importante concurso público e depois que muda de vida, lá do alto de sua nova realidade econômica, se posiciona contra a pirataria?

Eu não posso ser contra a pirataria depois que a pirataria fez tanto por mim. Hoje eu tento retribuir compartilhando o que eu sei sem cobrar nada sempre que posso e apoiando/contribuindo com a comunidade Open Source (pretendo abrir mais códigos do que eu fizer futuramente).

Este é um assunto bem delicado e complexo, que estamos acostumados a tratar de forma superficial, mas acho que ele tem muito para evoluir se discutirmos com a mente aberta.

Acho que o livro Free – Grátis – O Futuro dos Preços, de Chris Anderson, ajuda bem a refletir e formar uma opinião sobre a “precificação” do que é digital nos dias de hoje.

Vale a leitura, é um livro excelente!

(a imagem deste post foi pirateada de Walt Disney Pictures, proprietária dos direitos de imagem do filme Piratas do Caribe)

Este artigo não retrata a opinião do Partido Pirata e sim do autor.

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